A representação das mulheres em Ex Machina

Ex Machina começa nos mostrando Caleb, um programador que ganha um concurso e pode passar uma semana com o dono da empresa em que trabalha, Nathan, que é conhecido por ser um gênio. Quando Caleb chega lá, descobre que vai fazer parte de testes para avaliar a mais nova criação de Nathan: Ava, uma robô com inteligência artificial. Enquanto Caleb começa a testar a inteligência de Ava, ele se vê no meio de uma situação na qual não sabe mais em quem confiar.

Esse é um daqueles filmes que você ama ou odeia. Ex Machina não tem muita ação, se passa em praticamente só uma locação e alguns diálogos acabam se estendendo além do necessário, podendo cansar. Porém, é um daqueles filmes que tem uma mensagem e simbolismo a cada cena e não pode ser ignorado, inclusive o filme me lembra muito o estilo da série Black Mirror.

Apesar das sinopses sempre falarem de Caleb e o próprio filme colocá-lo sob a luz de personagem principal, a verdadeira protagonista é Ava. É ela que carrega a história, a mensagem toda é passada através de sua personagem.

Independente dos defeitos, vou me focar nos dois aspectos que pesam mais na mensagem do filme: Primeiro é a objetificação da mulher e depois o instinto de sobrevivência humano.

Spoilers do filme abaixo.

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A história gira em torno de quatro personagens: Ava, Caleb, Nathan e Kyoko. Ava é uma robô com inteligência artificial que é “testada” durante boa parte do filme. Caleb é um programador, ao que tudo indica, bom no que faz, reconhecido o suficiente para ter atraído a atenção de Nathan. O próprio Nathan é um “gênio”, bem-sucedido, inteligente e admirado. Kyoko é uma mulher que não fala inglês e serve Nathan, e mais tarde descobrimos que ela também é uma robô.

Dos quatro personagens principais, os dois homens são humanos, inteligentes e com carreiras profissionais boas e reconhecidas, enquanto as mulheres nem são humanas, são submissas e estão ali como objetos, ou melhor, robôs. Isso poderia ser uma grande falha, mas o roteiro soube muito bem como usar essas questões. Sempre bato na tecla de que não é necessariamente o assunto, mas como o assunto é tratado.

Nathan é um cientista que trabalha com inteligência artificial e a partir daí, em certo momento da vida, começou a criar robôs. Todas as robôs eram mulheres consideradas dentro do padrão, Nathan as moldava da forma que desejava e as testava como queria, até que eventualmente, quando elas começavam a dar “defeito”, ele as descartava e fazia uma nova. Com Ava, ele fez propositalmente uma aparência que agradaria Caleb, baseado no seu “histórico de pornografia”.

O filme é uma ficção científica de uma realidade que não existe, mas sinceramente eu vejo essas cenas e penso que estou vendo cenas do dia a dia. Óbvio que não dessa forma, com robôs que reagem tão bem quanto Ava e esse tipo de tecnologia, mas sim nessa questão de Nathan moldar as robôs, ou melhor, do homem cis moldar as mulheres.

Na sociedade em que vivemos, as mulheres são influenciadas a seguirem um tipo de padrão. Em revistas femininas vemos dicas para emagrecer, como deixar seu rosto sem nenhuma marca, como melhorar o cabelo (que sempre inclui alisamento), dicas de roupas e maquiagens para “agradar seu homem” e até coisas do tipo “veja do que eles mais gostam na cama”. A sociedade nos monta assim como Nathan monta suas robôs, e assim como ele faz, quando uma mulher sai desse padrão ela é descartada: mulheres são chamadas de tudo que é nome a partir do momento em que elas escapam do padrão “aceitável”, são consideradas como “não sendo mulheres de verdade” e ainda aquele papo antigo do homem cis dizendo “essa aí dá pra pegar, mas não dá pra ter nada sério”, porque afinal de contas essas são as robôs que deram errado, portanto descartáveis. A mulher não é tratada como um ser humano, mas como um objeto, que deve agir de certa forma e se estiver além do “conserto” é melhor jogar fora.

Durante o filme ficamos na dúvida sobre quem realmente está mentindo, se é Nathan ou Ava, e é muito fácil acreditar que Nathan na verdade é o “vilão”. É difícil gostar dele, tanto na sua atitude em relação ao Caleb quanto à atitude que ele tem com Ava e Kyoko, mas a verdade é Ava que arma tudo e, se juntando com sua irmã, uma mulher robô que nem ela, elas derrotam Nathan e Ava consegue fugir.

É sempre interessante ver a reação do público com algumas cenas. Caleb ajuda Ava a escapar, e ao invés do clichê “Ava e Caleb vivem felizes para sempre”, ela deixa ele lá e vai embora sozinha. Muitas pessoas ficaram indignadas com isso, afinal Caleb é um cara tão legal, ajudou ela, então Ava devia ter ficado com ele no final, né? Não.

Ouvimos muito isso: se o homem cis é legal e ajuda a moça de alguma forma, ela tem o “dever” de recompensá-lo, e se não o faz vem o papo da tão famosa friendzone. Ava não tinha nenhum motivo para acreditar que Caleb não a trataria como Nathan; o único humano que ela conheceu a tratou como uma coisa, então é óbvio que ela ficaria receosa de acreditar em outro humano. Portanto ela se liberta, monta o seu corpo com as partes que quer, do jeito que ela quer, e vai embora. Esse final dialoga com a ideia de que, quando a mulher se sente segura o suficiente para montar seu corpo e sua vida sem as amarras da sociedade, ela se torna livre. O que, de forma alguma, é um processo fácil.

Esse final tem ligação com o segundo ponto da análise: o instinto de sobrevivência. O instinto básico do humano é sobrevivência, em tese a robô não teria por que fazer isso. O filme inverte os papéis, colocando Ava, a robô, com a condição mais humana, que é a sobrevivência e o desejo de ser livre, enquanto Nathan, que é o humano, acaba se portando como uma máquina, que descarta o que está errado sem se importar.

Cria-se aquela ideia pessimista que muitas obras audiovisuais questionam: Estaria a raça humana se tornando mais fria e mais próxima das máquinas à medida que vai tentando inserir mais tecnologia no mundo? Quando o ser humano sai da sua condição e vira, como Nathan mesmo fala, um deus, que é capaz de criar uma vida em forma de inteligência artificial, nós perdemos a nossa própria humanidade?


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.