A Katniss somos nós — análise de personagem

Katniss de armadura vermelha; close no rosto de Katniss; o tordo em chamas.
Imagens promocionais do último filme da série “Jogos Vorazes”, tiradas da página oficial no Facebook.

Toda vez que um livro é levado ao cinema ou à TV, muito se perde. Dizer que “o livro é melhor que o filme” é, quase sempre, frisar o óbvio. A complexidade das tramas, a profundidade dos personagens e a profusão de detalhes é resumida ao máximo para caber na tela. Mesmo assim, magicamente, temos não só produções grandiosas como também excelentes roteiros, que, em mídia diferente, nada devem às obras originais.

Tá aí Jogos Vorazes, que não me deixa mentir. Dia 19 de novembro estreia nos cinemas A Esperança — O Final, quarta parte da série de filmes inspirada nos livros da trilogia homônima de Suzanne Collins.

De acordo com a vlogueira Pam Gonçalves, cuja monografia em Publicidade e Propaganda foi sobre a representação do feminino no primeiro filme de Jogos, esta é é “uma das melhores adaptações de livros para o cinema“. Vi os filmes, li a trilogia e tenho que concordar com ela. As modificações necessárias não chegaram a prejudicar a trama, embora os livros nos falem muito mais de representação feminina que a versão cinematográfica, pois além da protagonista há outras ótimas personagens que não tiveram tanta vez (e voz) nas telas.

Mas, Mila… meio mundo já falou de Jogos Vorazes! Que é da hora, que é uma baita crítica social, que é girl power, que a personagem é foda, ou não é tão foda assim, blablablá. O que você ainda acha que tem a dizer?

O que quero dizer é como Katniss Everdeen se destaca entre as personagens femininas do mainstream, principalmente nos livros (lembrem-se, esta é uma coluna de literatura!).

Há quem alegue que Katniss não é assim tão girl power, pois ela é simplesmente uma garota durona que se sobressai em atividades violentas — quase um personagem masculino clássico de saias (no caso, de trança), e que é muito fácil criar uma “personagem feminina forte” recorrendo a esse tipo de característica.

Embora respeite o ponto de vista, discordo da análise no caso desta personagem. Primeiro, porque Katniss não é durona para ser desejável aos olhos de um personagem central masculino ou do público masculino, para quem, muitas vezes, a mulher ideal da ficção é durona, sim, mas nunca mais do que o homem: ela ainda precisará ser salva por ele, ou conquistada por ele, ou sacrificada por ele, que é o dono da história. Katniss não está aqui para agradar. Ela não é a única mina no meio de um monte de caras, tentando provar que é tão forte quanto eles. É a mina durona entre gente de todo tipo, inclusive outras mulheres incríveis e perigosas. E é a protagonista, não o interesse romântico de um personagem mais importante. Ela encontra o amor romântico, sim, mas não está à procura dele, nem viverá em função dele. Lembrando que o amor tem muitas faces, o único amor constante de Katniss é pela irmã, por quem ela topa qualquer coisa. Katniss é dura porque a vida a obrigou a isso.

No cinema, sua realidade é difícil, mas amenizada em comparação com o que ela vive nos livros. Perdem-se os detalhes desesperadores na descrição das pessoas que literalmente morrem de fome no paupérrimo Distrito 12, onde ela vive, e da penúria à qual sua família é entregue após a morte do pai. Morre o pai, a mãe entra em depressão profunda e a filha mais velha, de 11 anos, é forçada a ser a adulta da casa. Ela assume o sustento da família, garantindo a sobrevivência da mãe, da irmãzinha Primrose e do gato Buttercup.

Segundo, é uma ótima personagem justamente porque é difícil gostar dela como pessoa, mas é ainda mais difícil não entendê-la ao longo da trama. E é essa compreensão que a completa e a aproxima de nós.

Katniss não pode ter pena de bicho, pois vive da caça. Katniss tenta matar o gato da irmã porque é mais uma boca para alimentar numa vida já miserável (ainda não sei se a perdoei por isso). Não confia nas pessoas, porque aqueles que deveriam zelar por ela fracassaram — o pai morreu e a mãe não conseguiu cuidar das filhas. Aliás, guarda imensa mágoa da mãe, que, a seus olhos, a abandonou — em suas palavras, “não sou do tipo que perdoa”. Katniss é cheia de brios. Detesta dever favores, detesta que tentem protegê-la, que lhe estendam a mão sem querer nada em troca. Não suporta falar de roupas e garotos, odeia ser o centro das atenções e ter conversas sem objetivo claro. Não gosta de fazer amigos. Enfim, detesta quase tudo o que caracteriza as interações sociais de praxe. É desconfiada, antissocial e rancorosa.

Mas, ao longo da sua história muito sangrenta, descobrimos também que, láááá no fundo, ela tem um bom coração. Ela o revela quando desafia as regras para proteger os mais fracos, quando escolhe a dedo aqueles a quem vai amar e ser ferozmente fiel. A narrativa em primeira pessoa nos permite acompanhar cada um de seus pensamentos e emoções, e mostra que, longe de ser valente e inabalável, ela sente medo o tempo todo, por si e por aqueles que ama. Sua grande coragem reside no fato de saber que não pode fugir à vida que lhe empurraram. O que pode fazer é enfrentá-la — com todas as armas que tem — e vencê-la.

E não é isso que nós, mulheres, fazemos todo dia?


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Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro “Reino das Névoas, contos de fadas para adultos”. Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.