Chamado à aventura na Mesa Probida: as apresentações

Olá.


Meu nome é Maria do Carmo Zanini, mas eu não me incomodo quando me chamam de MC.

Tenho quase 44 anos, marido, filha, um cão, dois gatos. Vivo de produzir textos e, por acaso – por acaso mesmo –, jogo. Não é bingo nem xadrez. Não é roleta nem o FPS do momento. Pôquer? Arranho. Roba-monte? Nãoadmp_fotomc me atrai. Minha fissura é uma pá de jogos que eu já ouvi gente aqui e ali classificar como “mentais”. Não é um rótulo que eu usaria, mas vá lá.

Eu jogo o que me diverte, o que me socializa, o que me desafia. O que bane a solidão e a ansiedade. Gosto de jogos que reúnem pessoas ao redor da mesa e que podem até se manifestar sobre o tampo de madeira, vidro ou mármore, MDF, fórmica ou compensado, mas transcorrem de fato numa interface meio intangível, talvez inescrutável, de raciocínio, imaginação, convenções, negociação e palavras.

Role-playing games, jogos de tabuleiro. Issaí. Jogos de mesa. Tabletop.

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E também por acaso – mesmo – trabalhei durante um bom tempo com tradução ou produção editorial de títulos de RPG originários lá da gringa. Me sustentei com isso. Também fiz muito trabalho voluntário, na intersecção de técnicas de narração interativa derivadas do RPG e ambientes formais e informais de ensino-aprendizagem. Já faz tempo que larguei essa vida. Mas vai daí que em 2014, não por acaso, e sim por desígnio, eu comecei a me meter – algumas vezes sem ser chamada – em algumas etapas da produção de jogos de tabuleiro. E gostei, sabe?

mestrandoRPGTalvez seja por essas e outras que as pessoas me convidam para falar ou escrever publicamente sobre RPG (mas não sobre tabuleiro). Só que eu sofro de síndrome da impostora – autodiagnosticada e jamais tratada, claro – e não deixo de me perguntar: por que carai o povo acha que eu ‘tou em condições de contribuir com alguma coisa?

A pergunta é retórica, visse? Não estou atrás de confete nem massagens no ego. Questionar a mim mesma me mantém focada no que realmente é importante. Mas, enfim, essa não é a única pergunta que me pinica. Fui convidada a colaborar com a coluna Aventureiras da Mesa Proibida das MinasNerds – alternando-me quinzenalmente com a inefável Sarah Helena – para tratar de jogos de mesa numa perspectiva feminista. Nova pergunta, desta vez nada retórica: como é que eu, a mulher queer que se veste como homem, fala como homem e joga como homem, posso falar com um mínimo de propriedade sobre feminismo no RPG e nos jogos de tabuleiro? Como, se trabalho com homens, se jogo com homens e raríssimas vezes isso me causou desconforto? Não porque eu seja insensível ao sexismo. Loooonge disso. Só acho que tive e tenho o privilégio de conviver profissionalmente com homens que não se comportam como machos superiores ou, quando o fazem inconscientemente, apresentam seu mea culpa e se esforçam para entender e mudar.

E por isso confesso que hesitei ao receber esse “chamado à aventura”. Arrepio.

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Mas a função do chamado à aventura não seria, entre outras coisas, mostrar à heroína que existe um universo mágico além do mundo comum? Mágico. Se é mágico, é assustador. Abandonar o smial e ganhar a estrada para ver os elfos é uma experiência arrepiante. Nossa vontade é recusar o chamado. Mas tem uma coisa que eu aprendi com a jornada da heroína: toda recusa a se aventurar será castigada.

Bom, o chamado foi aceito. Trepidantemente. Estou aqui, diante do primeiro limiar, desarmada, mas atenta, só imaginando de que lado virá o ataque da guardiã. Para me pôr à prova, a danada. Pode vir. Cai dentro. Carrego comigo a sabedoria da primeira mentora que encontrei neste caminho, uma amiga querida que, diante da minha hesitação ao receber o chamado, disse: “o simples fato de você escrever sobre RPG e jogos de tabuleiro é uma atitude feminista”.

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E, agora, com mais delongas…

Em 2002 eu cursava letras na FFLCH/USP e, aos 30 anos de idade, fui surpreendida pela atitude – até então inédita para mim – da professora dra. Walkyria MonteMór. No primeiro dia do curso que ela coordenava, apresentou-nos o programa e os métodos de avaliação. E então disse: “Estão todas de acordo?”. Não foi uma pergunta retórica. Ela realmente queria ouvir a opinião das alunas, estava disposta a discutir opções e, se houvesse consenso, alterar o que fosse necessário.

Pela primeira vez em toda a minha história na educação formal, uma professora agiu em sala de aula como uma narradora de RPG ou a anfitriã de uma sessão de jogatina agiria. Propôs um percurso – o equivalente a um “que tal jogarmos… [complete a pergunta com seu título preferido]?” – e abriu negociações. Ela não se colocou numa posição de autoridade, não nos impôs seu programa. Era uma integrante do grupo que pedia nossa permissão para ser a mediadora.jogandotabuleiro

Penso: como é que eu, que injetei o RPG e o jogo de tabuleiro nas veias, poderia fazer algo diferente?

Portanto, leitoras e leitores, eu gostaria de inaugurar minha participação nas MinasNerds como aventureira da Mesa Proibida perguntando a vocês quais temas, assuntos, tópicos vocês se interessariam em ler vindos do teclado desta mulher queer de meia-idade que joga há um bocado de tempo e tem alguma experiência traduzindo e editando títulos de RPG, opinando e formatando panos de fundo e manuais de jogos de tabuleiro. Querem que eu conte histórias, analise publicações, fale de trabalho, entreviste profissionais do meio, jogue conversa fora, reflita, questione, levante bolas para outra pessoa cortar?

Quero ler vocês. Gostaria que este fosse o primeiro passo para estabelecermos as convenções, as regras deste jogo e desta mesa.

Allons-y?

Para participar, sugerindo temas à colunista, use a hashtag #MinasNerdsTabletop.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

MC Zanini

Profissional do texto no Zombie Dodo Studio, mãe, RPGista e peã de tabuleiro.