Contando histórias na Mesa Proibida – me apresentando

10409782_815723388440226_7240011279016431659_nMe chamo Sarah Helena e gosto de contar histórias. Foi por gostar de contar histórias que me envolvi com esse jogo de interpretar papéis, esse tal de RPG, lá nos anos noventa.

Eu vinha dos livros jogos, onde descobri pela primeira vez um conceito que na época eu ainda não sabia nomear: a ideia de interferir em uma narrativa e construir junto com o autor a forma como a história aconteceria. Mas o livro jogo tinha a limitação de já estar escrito. Quando as pessoas se reunem em volta da mesa e começam a pensar juntas uma história, as possibilidades são infinitas.

E então o RPG me atropelou e eu mergulhei para a vida nessa possibilidade incrível que é criar histórias de forma coletiva.

Porque resumindo, é isso que a gente faz quando se reúne em volta de uma mesa com os dados, os livros e as planilhas para jogar RPG. Nós contamos juntos uma história.

Mas por muitos anos, eu era a única menina nas mesas onde eu participava. E eu achava normal que me vissem como um dos caras. Passei por situações que hoje eu percebo o quanto eram problemáticas mas que então, pareciam normais, porque não conhecia outras realidades. Era um mundo onde a maioria dos personagens eram homens, heteros, louros de olhos claros, e qualquer outra coisa era só um adendo exótico que reforçava o padrão.

Por causa disso, as histórias que a gente criava, embora tivessem seu valor, eram um pedacinho bem pequeno de um mundo tão amplo.

O tempo passou. E mesmo quando eu sou a única mina na mesa de jogo, eu não sou mais um dos caras. As pessoas com quem eu jogo mudaram, o mundo do RPG começou a se questionar mais. E nós, que não somos homens, não somos louros, não somos hetero, e que desde o começo estávamos jogando, mesmo que fingissem que não estávamos lá, começamos a nos colocar de outro jeito nas mesas de jogo.

Quando contamos histórias juntos, queremos também contar nossas histórias.

Uma das coisas mágicas que acontecem quando pessoas se juntam para partilhar narrativas é que podemos por alguns momentos fazer um supremo exercício de empatia, partilhando da vida de outros. Sejam elfos em uma Terra do futuro, lobisomens convivendo com a sociedade atual ou caçadores de monstros em um mundo de fantasia dominado por dragões, nos emocionamos, celebramos, combatemos e andamos nos sapatos desses personagens.

Voltamos para nossa vida cotidiana, carregamos um pouquinho daquelas vivências dentro da nossa pele. Por isso é tão comum que as pessoas que jogam RPG falem sobre como conseguiram enfrentar problemas do mundo real a partir de conhecimentos e experiências da mesa de jogo.furiasnegrasftw

Quando nos colocamos, na nossa incrível e ampla diversidade, ali, na mesa de jogo, não só a gente passa a viver com uma segurança extra, mas fazemos nossos colegas de narrativa enxergarem esses mundos que estavam invisíveis a eles. Nós rompemos o silêncio.

E se vamos viver outras vidas por algumas horas, porque não ampliar nossas vivências um pouquinho mais?

Podemos aprender a ouvir. Podemos ampliar nossa empatia. Por isso faço um questionamento: Quando contamos essas histórias, porque pode parecer mais fácil ser um alienígena com superpoderes do que uma pessoa do gênero oposto ao seu, ou que questione o conceito de gênero de uma vez? Porque pode parecer mais fácil ser parte de uma cultura de fantasia medieval europeizada do que uma mundo de fantasia da mesma época que se baseie em outro lugar do nosso mundo? Será mesmo que a linda história de amor proibido no passado do seu personagem precisa ser entre um homem e uma mulher?

É com essa perspectiva e esse questionamento que eu inicio minha participação aqui. Quando podemos criar centenas de mundos e um sem número de histórias, quando podemos vestir a pele de tantos personagens e caminhar por tantas encruzilhadas, com novas escolhas a cada passo, que mundos você gostaria de criar?

Um mundo pequeno, fechado em si mesmo, onde a mesma história se repete vez após vez, ou a multitude de realidades que a diversidade trás?

Por isso vamos constuir essa história juntas, eu e vocês. Compartilhando os turnos. E pergunto para que lê: que narrativas vamos construir?

Eu não tenho respostas prontas. E conto com quem nos lê para trazer sua voz para esta aventura. Ideias, vontades, curiosidades. Conte para a gente. Me procure. Vamos construir juntas.


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