É preciso ser diverso

Um dos principais tópicos discutidos na comunidade MinasNerds há alguns meses, foi uma declaração da lenda viva Stan Lee, sobre diversidade nos quadrinhos.

A nosso ver, tal citação foi propositalmente distorcida por um site brasileiro, afirmando que Stan era contra a “diversidade forçada” no universo Marvel, em função de todas as mudanças que a editora vem promovendo neste sentido. Mas na real, não foi bem isso que ele quis dizer.

Na entrevista original, ele defende a permanência do Homem-Aranha como Peter Parker, em resposta ao que achava sobre a ainda não confirmada promoção de Miles Morales, o Homem-Aranha do universo Ultimate como o principal Homem-Aranha da editora e a possibilidade do personagem um dia fazer parte do universo cinemático da Marvel.

Bem, não vou aqui escrever uma tese ou explicar a origem de cada personagem, o multiverso Marvel, diversas realidades paralelas, linhas editoriais e demais modificações adotadas pela Casa das Idéias ao longo de todos esses anos.

Não. Isso é BEM complicado e seria preciso uma série de matérias do tipo: “Como entender reboots e retcons da Marvel e qual realidade a se considerar a partir de agora”. Mas gostaria de falar sim, sobre as transformações de personagens que estão abalando corações de nerds canônicos mundo afora. Sim, é um tema cabeludo, mas precisamos falar sobre ele.

Antes de qualquer coisa, a introdução de personagens que representem a diversidade de seres humanos que temos, não é feita para AGRADAR minorias mal-representadas. É feita porque se trata de uma REALIDADE. Aceitem isso.

Não existe patrulha do politicamente correto aqui, existe o cotidiano. Olhe à sua volta. Existem negros, gays, mulheres, trans, asiáticos, latinos, judeus, índios, pessoas com deficiência…etc, etc. Elas são pessoas. EXISTEM. São tipos humanos interessantes em suas complexidades e particularidades. Fazem coisas extraordinárias. (tanto para o bem quanto para o mal, deixando bem claro), e como tal podem ser usados como fonte para criação e adaptação de personagens sejam eles novos ou antigos, podem ser retratados e representados assim como a maioria branca, cis e hétero foi, até hoje, em todas as mídias, inclusive nas HQs.

Tio Lee criou os X-Men. Ele manja de diversidade. E convenhamos, ele CRIOU o Peter. Deve ser difícil, realmente, aceitar mudanças, como num filho. Ele apenas emitiu sua opinião, como criador do personagem.
O mensageiro não é importante, a mensagem é. É duro, principalmente quando nos afeiçoamos a um personagem, nos identificamos com ele. É como aceitar mudanças drásticas e difíceis em um velho amigo/parente/amor… O amor não muda, apenas se adapta. E o amor sempre vai estar lá. Eu amo a Elektra do Frank Miller. E ela morreu, nem existe mais! E pra mim, minha personagem preferida morreu. Ponto.

O que leio hoje em dia, dela, tem outro significado pra mim. Nunca terá o lugar da original. Mas entendo que mudanças são necessárias. Porque quero que menininhas de hoje se identifiquem com sua força e determinação, do mesmo modo que eu me identifiquei, na época que a conheci.

Recentemente, durante um evento do filme Homem-Formiga nos EUA, um jornalista perguntou ao presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, sobre a introdução de personagens LGBT e ele disse que “veremos mudanças significativas em breve”. (sim, Guerras Secretas, retcon Marvel…isso a gente meio que já está esperando, não é mesmo, Kevin?)

Ainda segundo Feige, ele só está “procurando uma forma de introduzir tais personagens de forma “orgânica e natural”, mas que a Marvel tem sido pioneira em apresentar a diversidade em todos os seus universos.”

É verdade, não podemos tirar seu mérito. A Marvel tem se mostrado MUITO À FRENTE com relação à DC no quesito representatividade de minorias. Mas ainda é pouco. E na boa, não existe essa coisa de “natural e orgânico”. Seria ótimo que fosse natural, mas não é. Infelizmente. Um dia, quem sabe. Mas hoje em dia, é preciso desviar o olhar do leitor do próprio umbigo.

“Orgânico, significativo e natural.” Esta é a fala comum de um escritor/roteirista que procura uma desculpa para não introduzir diversidade em seu trabalho. É aquela visão mágica e romântica de que “saber contar uma história” é uma espécie de poder, um dom concedido pelas musas, e se as musas não te inspiraram a criar uma trama que apresente personagens gays, que culpa você tem nisso? Desta forma você pode apresentar a sua covardia, preguiça e falta de imaginação como se fosse integridade artística. Não é lindo?

Abra a janela, Shakespeare. Olhe lá fora. Olhe seu vizinho, seu próximo, importe-se, pergunte, descubra. Apaixone-se por esses personagens da vida real e traga essa paixão para os quadrinhos, para novos personagens!
Até porque você precisa VENDER, meu querido e seu público MUDOU e quer se sentir representado (isso porque nem entramos em méritos mercadológicos aqui). Aceita que dói menos.

Diversificar é preciso. Só assim, aceitando e incorporando essas constantes mudanças é que as HQs vão continuar apaixonantes, complexas e profundas, como nós, seres humanos, somos. Como a vida é. E vão continuar sendo nossa paixão, para todo o sempre.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.