Por que cenas de estupro em séries nos incomodam tanto?

mellie-telling-fitz-off

Bates Motel. Scandal. Game of Thrones. The Americans. Diferentes séries, diversos temas, uma coisa em comum: me fizeram ter que desligar a TV no meio de um episódio para conseguir processar uma cena de estupro. “Nossa, que exagero”, você pode estar pensando. Talvez. Mas esse sentimento tem raízes muito mais profundas do que uma simples contrariedade a cenas de estupro desnecessárias.

Ultimamente, tenho percebido um viés no feminismo que é mais voltado a tentar colocar os homens nos nossos sapatos para fazê-los compreender tudo o que a gente passa. Depois de ver muito homem alegando “mas é historically accurate!” para a desnecessária cena de estupro da Sansa em Game of Thrones, me ocorreu que talvez esse seja um bom momento para explicar por que não, não é ok ficar usando o estupro como trope para chocar os expectadores ou explicar a força de uma personagem feminina.

sansa-stark

Desde pequena, eu aprendi a ter medo de estupro. Isso vai desde evitar mostrar muita pele quando saio até atravessar a rua para não passar perto de um homem se estou caminhando sozinha. Eu sou mulher, então eu estou constantemente vulnerável a um ataque violento que nada mais é do que uma demonstração de força. De dominação.

Porque estupro não é sobre tesão, tá? Estupro é sobre tirar o controle da mulher. É sobre como, num único momento, um cara consegue exercer sua vontade acima da vontade da mulher e torná-la num objeto impassível de resposta. E qualquer mulher consegue ver nos olhos de diversos homens a ânsia de subjugá-la. Estamos todas vulneráveis a isso (até mesmo aquela mulher que c e r t o s bolsonarinhos acham que “não merece” ser estuprada).

Tendo isso claro, as pessoas precisam compreender que sim, estupro é um negócio violento, mas esse não é o motivo para levantarmos a voz contra cenas de estupro em séries. É mais uma questão de empatia. De ver uma personagem perder o controle da situação, não poder reagir, perceber que seu pior pesadelo se tornou realidade e compreender isso. Compreender o medo que ela está sentindo e conseguir se colocar no lugar dela.

americans-301-01-1024x684

Pode ser que nem todo mundo tenha passado por situação parecida. Talvez algumas pessoas “só″ tenham recebido uma apalpada indesejada de um tio, de um homem qualquer. Mas TODAS as mulheres entendem quão vulnerável aquela personagem está se sentindo. Quando bem usado, esse tipo de cena pode estender esse sentimento a todos os espectadores. Mas não é isso que acontece quando ela é tratada como mais uma maneira de chocar quem está assistindo à série.

Eu aposto que metade dos expectadores de Game of Thrones mal lembram da cena do assassinato do bebê bastardo do Rei Robert. Foi uma cena chocante? Foi. Demais. Mas você não sente medo do seu bebê ser assassinado do nada. Você não se relaciona tão profundamente com aquele desespero da mãe, porque você sabe que isso dificilmente acontecerá contigo.

Enquanto isso, as mulheres que levantaram a voz contra a cena de estupro da Sansa certamente nunca esquecerão a agonia, o desespero que viram na cara da personagem naquela cena. Porque a gente sabe muito bem que, a qualquer momento, podemos estar na mesma posição de perda total de controle.

Tudo o que pedimos é que os roteiristas pensem bem antes de invocar essa sensação em seus espectadores.

[Crédito das imagens/ Divulgação/ABC/HBO/FX]


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Sylvia Ferrari

Relações Públicas formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo com especializações em Branding e Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas. Escreve e fala sobre seriados intensamente aqui nos MinasNerd e em sua newsletter The S Files.