Presença e produção das mulheres nos quadrinhos: entrevista com o Lady’s Comics

O que acontece quando três mulheres talentosas, com histórias e vivências muito diferentes e amantes dos quadrinhos se reúnem pra falar sobre essa paixão em comum? Acontece o Lady’s Comics!

O site, no ar desde 2010, se tornou referência em matéria de pesquisa e divulgação do trabalho das mulheres quadrinistas, brasileiras ou não. Um dos diferenciais do Lady’s é o fato de não focarem exclusivamente em reviews; as autoras também falam sobre quadrinistas pioneiras e pouco conhecidas, fazem entrevistas com artistas, divulgam projetos e sempre procuram organizar e participar de eventos.

Em 2014, o site lançou uma campanha de financiamento coletivo pra organizar um encontro exclusivamente focado no tema das mulheres no universo da HQ, com mesas de debates e oficinas. O evento contou com a presença de várias autoras brasileiras e foi o primeiro do tipo a acontecer no país!

Este ano, as Ladies conseguiram financiar mais um projeto com a ajuda do público: a Revista RISCA!, cujo tema é Memória e Política das Mulheres nos Quadrinhos. A revista terá entrevistas, artigos e HQs originais sobre a presença da mulher negra nos quadrinhos, identidade de gênero, aborto e as precursoras da nona arte no Brasil, dentre outros temas atuais e relevantíssimos.

Mariamma, Samara e Samanta, três mulheres lado a lado segurando uma plaquinha em que está escrito "Lady's Comics"
Mariamma, Samara e Samanta

Como vocês se conheceram? O interesse em quadrinhos foi algo que as uniu? Falem um pouco sobre vocês e seus quadrinhos favoritos!

A Samanta e eu (Mariamma) nos conhecemos a partir de um grupo de mulheres na internet chamado LuluzinhaCamp. Surgiu a ideia do site e junto com a Lu Cafaggi nasceu o Lady’s Comics. Depois de algum tempo, conhecemos a Samara por conta dos eventos de quadrinhos e o clube de leitura daqui de Belo Horizonte e a convidamos para compor a equipe 🙂

Mariamma – Eu sou do interior da Bahia, vim pra BH pra estudar. Me formei em jornalismo, mas sempre gostei de desenhar. Lia quadrinhos (Mônica, Angeli, Laerte, Henfil e Glauco) na infância e adolescência, por pura diversão. Foi na faculdade (Joe Sacoo, Marjani Satrapi, Liniers, Quino) que vi os quadrinhos por uma outra perspectiva. Atualmente tenho vários quadrinhos favoritos… rs! É difícil escolher um. Mas confesso que gosto muito dos trabalhos autorais.

Samanta – Sou natural de Criciúma, uma cidade de meio porte de Santa Catarina. Comecei minha faculdade em design lá em Florianópolis, mas acabei fazendo transferência para uma outra de Belo Horizonte. Nessa época eu só lia mangá, viciada nos quadrinhos de horror de Junji Ito e Hideshi Hino. Adorava história de samurai como Samurai X, A Lenda de Kamui (super investi para comprar essa HQ na época!), Blade – A Lâmina do Imortal e entre outros tipos de narrativas como Furuba, 7Seeds, Bara no Tameni (nossa, são tantos!). Depois de entrar no Lady’s Comics passei a ler outros tipos de quadrinhos e hoje acompanho webcomics e independentes. Curto demais Bear, Garota Sirirca, as produções da Aline Lemos, da Laura Athayde (sim, você que me entrevista!), Fefê Torquato e Renata Rinaldi fazem. Gente, são tantas que eu queria falar um mundo aqui, porque é tem tanta guria massa fazendo hq que é bem difícil de falar em favoritos. Vou parar de citar nomes, porque vai ficar enorme essa resposta!

Samara – Nasci em Belo Horizonte, MG. Sou formada em jornalismo e trabalho com análise de redes sociais. Tenho 27 anos e leio quadrinhos desde criança. Comecei com a tradicional Turma da Mônica. Na adolescência e, depois, durante a faculdade, li muito mangá. Muito mesmo. Foi quando comecei a comprar quadrinhos. Fazendo isso, acabei descobrindo outras HQs e tive uma época lendo de tudo, até quadrinhos de herois (que percebi que não gosto). Atualmente, por conta do Lady’s, procuro automaticamente por quadrinhos feitos por mulheres. Tenho lido muita coisa independente brasileira e webcomics. Não sei falar de quadrinhos preferidos. Leio muitos e, em cada época, escolho um.

De onde surgiu a ideia de tocar um site sobre mulheres e quadrinhos?

Da vontade em conhecer mais autoras. Não conhecíamos as mulheres que faziam quadrinhos e não ouvíamos falar delas. Resolvemos, assim, criar por nós mesmas um espaço em que pudéssemos reunir esses nomes.

Vocês sentiam que existiam muitas quadrinistas mulheres que não tinham espaço na cena tradicional?

Inicialmente não. Fomos descobrindo aos poucos a realidade sobre essa questão. No começo não tínhamos noção de como o cenário era desigual, até porque éramos leitoras e tínhamos uma visão de fora sobre o assunto.

Vocês sentiam falta de ler mais quadrinhos feitos por mulheres?

Mariamma – Sim. Para pensar em nomes era difícil no início. Cheguei até tentar acompanhar uns quadrinhos de super heróis, mas cadê identificação? rs

Samanta – Eu lia mangá, que é uma realidade muito oposta a que vemos no Brasil. No Japão, existe uma atuação muito maior e equiparada com a dos homens. Quando entrei pro Lady’s eu fiquei animada, porque eu ia falar de todas as personagens e autoras japonesas que eu já tinha lido. Só que quando comecei a ler quadrinhos feitos por brasileiras, eu notei que queria mais e não tinham quase nada publicado por elas. A internet mudou muito esse cenário, principalmente em 2013, porque as redes sociais que foram criadas (como Facebook e Tumblr) auxiliaram muito na difusão e na junção desse material em um único espaço, antes tinha que buscar muito pra achar um site na internet. Foi ai que passei a ter um contato com uma vasta produção feita por mulheres daqui. Veio uma grande luz nesses últimos anos.

Vocês têm desenvolvido muitas iniciativas paralelas ao site, como e encontro de 2014 pra debater o mercado de quadrinhos e o lançamento da Revista RISCA! neste ano, com o tema Memória e Política das Mulheres nos Quadrinhos. É importante transcender a internet?

Importantíssimo. Se nós acreditamos que mais mulheres devem e podem fazer mais quadrinhos, temos que atuar aqui fora. Onde a realidade é outra. Temos que alcançar as crianças e as meninas que ainda não tem contato com essa mídia e também promover os quadrinhos como meio de expressão.

Trecho da HQ que fiz pra Revista RISCA! sobre aborto
Trecho de uma das HQ originais da Revista RISCA!

O fato de vocês terem conseguido levantar os fundos pra esses projetos através do financiamento coletivo é significativo?

Por enquanto foi só o evento…rs [a entrevista foi feita em 04/10/15, quando a Revista RISCA! ainda estava em fase de captação de recursos. A revista foi financiada com sucesso em 25/10/15] Mas o financiamento coletivo nos deixa em contato direto com as pessoas interessadas no trabalho e acaba funcionando como um termômetro pra gente. Estamos com a Revista Risca! no ar pelo Catarse, e torcendo para que também dê certo.

Qual foi o maior desafio enfrentado pelo Lady’s até agora?

Acreditamos que gerir o conteúdo. Tudo que o Lady’s faz e fez até hoje foi de maneira voluntária. Infelizmente nosso site não é monetizado e temos que nos dedicar com o pouco tempo que temos para que tudo aconteça.

E qual foi a maior vitória?

Acredito que ver o retorno das pessoas. No evento pudemos sentir o quanto podemos auxiliar as meninas que fazem quadrinhos.

Vocês tem recomendações de links pros leitores?

Sobre quadrinhos e quadrinistas:

http://www.shoujo-cafe.com/

http://www.collantsemdecote.com/

http://www.trinarobbins.com/Trina_Robbins

https://www.facebook.com/zinaszines?fref=ts

https://www.facebook.com/mandibulaquadrinhos?fref=ts

https://www.facebook.com/Zine-XXX-497725700334932/

http://chicksoncomics.blogspot.com.br/

http://caniculadas.blogspot.com.br/

ladyscomics.com.br (não é jabá, haha, é porque tem tanta guria boa fazendo quadrinhos que fica muito complicado de citar todas aqui)

Além de HQs:

http://thinkolga.com/

http://www.revistacapitolina.com.br/

http://faladelas.com/

http://blogueirasnegras.org/

http://blogueirasfeministas.com/

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.