Perdido em Marte | Usando o espaço para falar dos humanos

Ultimamente filmes sobre o espaço estão em alta. Em 2013 tivemos Gravidade, que mesmo não agradando a todos, foi um filme que deu o que falar. Em 2014 foi lançado o maravilhoso Interestelar, que me fez chorar pelo menos quatro vezes no cinema. Agora temos Matt Damon perdido (de novo) em um lugar fora da Terra.

Dessa vez ele está na pele de Mark Watney (Matt Damon), que, junto com sua equipe, é enviado para uma missão em Marte. Quando eles estão saindo do planeta, uma tempestade faz com que Mark seja atingido e todos na sua equipe acreditem que ele está morto. Como todo mundo sabe, Mark não morre, mas fica preso em Marte com alguns suprimentos e a esperança de que alguém vá descobrir que ele está ali e ajude-o a voltar para casa.

Como todo o filme com esse aspecto de “estou perdido no meio do nada”, Matt Damon precisa carregar boa parte das cenas nas costas e sua atuação não deixa a desejar. O filme acerta muito, tecnicamente é lindo, fotografia e arte andando juntas, além do roteiro dar aquela sensação de “talvez ele não consiga” de que esse tipo de filme precisa. Talvez o filme não acerte tanto na parte científica, não entendo muito do assunto, mas me perguntei em vários momentos o quão possíveis eram aquelas coisas que estavam acontecendo. Tudo bem, na ficção a gente perdoa, e essas coisas não atrapalham em nada o andamento do filme.

Perdido em Marte segue uma linha que os filmes de espaço têm mostrado ultimamente: diante da imensidão da galáxia, entre coisas que conhecemos e outras que nem temos ideia que existem, o que nós somos? Talvez seja uma questão egoísta do ser humano de, diante dessa imensidão, olhar para si mesmo, mas como um professor muito sábio disse em aula uma vez, a arte é a forma de o ser humano entrar em contato com seu subconsciente, consigo mesmo, então não é tão surpreendente que um filme sobre o espaço acabe nos trazendo uma reflexão sobre nós mesmos.

Aviso de spoilers abaixo

Mark se vê diante de uma situação que instiga nosso instinto mais básico: sobrevivência. Teve também um toque de sorte grande pelo fato de ele entender de plantas e conseguir cultivar as batatas, mas mesmo a pessoa mais inteligente do mundo talvez entrasse em pânico diante de uma situação dessas e não conseguisse nem lembrar das coisas mais básicas (talvez uma das falhas do filme, inclusive, tenha sido colocar Mark sempre muito seguro, quando ele podia ter se descontrolado mais).

Podemos até nos perguntar se uma pessoa naquela situação teria realmente pensado em todas aquelas maneiras para ficar vivo, mas quantos relatos de fatos reais existem de pessoas que fizeram o possível e o impossível para sobreviver? Além disso, sabemos que a história da humanidade é repleta de momentos em que nós criamos engenhocas, que antes pareciam impossíveis, para melhorar nossas vidas, o que pode ser visto durante o filme quando Mark inventa o sistema para plantar as batatas ou usa uma máquina antiga para se comunicar com as pessoas da Terra.

Agora, quando olhamos as outras pessoas do filme, que estão na Terra, vemos um aspecto da sociedade que é a luta entre fazer o que é certo e fazer o que é conveniente. Há um debate sobre a questão de salvar Mark ou não, se devem deixá-lo esperando por quatro anos ou tentar buscá-lo antes, já que sobreviver em Marte, sozinho, por tanto tempo, não é exatamente uma coisa que qualquer pessoa conseguiria fazer. Há uma briga na Nasa, que faz que toda a questão de salvar a vida de um ser humano se torne uma questão política. Parece absurdo, afinal é a vida de uma pessoa, um astronauta que estava a serviço pela Nasa, mas ir atrás dele significaria gastar recursos que alguns membros da organização não estavam dispostos a gastar. Insano, mas é um fato: pessoas são sacrificadas pela “causa maior” o tempo todo, independente de essa causa maior ser merecedora ou não.

O que nos leva a filosofar sobre a questão do “certo”. É óbvio que todos acham que o certo é ir atrás de Mark, afinal deixar um homem para morrer sozinho em um planeta distante é no mínimo cruel. No filme, os companheiros de Mark descobrem, no meio do caminho de volta pra Terra, que Mark está vivo e pode ser salvo, então se juntam para trazê-lo de volta, mesmo correndo o risco de morrer e ficando muito mais tempo longe de suas famílias. Caso eles tivessem morrido, teria valido a pena? Teria sido a coisa certa? A coisa certa pra quem?

Filmes sobre o espaço acabam trazendo muitos mais questionamentos sobre nós, meros humanos pequenos no meio da galáxia, do que outros tipos de filme. Seja meio egoísmo ou meio admiração pelo que podemos fazer – e sabemos que não é pouco –, é interessante pensar nesse paralelo que costuma ser feito. O filme conclui com uma mensagem de perseverança, para não desistirmos nunca, mas deixa outras questões interessantes abertas para interpretação.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.