Entrevista com Ana Luiza Koehler, autora de HQs e curadora do Festival Internacional de Quadrinhos

Posso dizer sem pestanejar que Ana Luiza Koehler é um dos grandes nomes do quadrinho brasileiro atual. Com seu traço deliciosamente caricato e o cuidado com os cenários e perspectiva (afinal, ela é formada em arquitetura), Ana Luiza vem se destacando no meio pela produção da HQ Beco do Rosário, que se passa na sua Porto Alegre natal e possui um elenco super diverso de personagens.

Além de um dos meus ídolos em matéria de quadrinhos nacionais, a Ana também é uma artista reconhecida no mercado europeu. Ela já ilustrou pra editoras e museus alemães, publicou HQ na França e participou de muitos projetos legais aqui e lá.

Por isso, ao saber que ela faz parte da equipe do Festival Internacional de Quadrinhos como curadora, pensei duas coisas: 1) a organização do evento mandou MUITO bem na escolha e 2) uma entrevista é o pretexto perfeito pra eu tietá-la!

Imagem da HQ Beco do Rosário
Imagem da HQ Beco do Rosário

Como você veio a fazer parte da equipe organizadora do FIQ? Você acha importante que uma das pessoas responsáveis pela curadoria do evento também produza quadrinhos?

Foi com muita surpresa e satisfação que fui convidada pelo Afonso Andrade e integrar a equipe de curadoria do festival. Desde que participei do evento pela primeira vez percebi uma preocupação e mobilização do evento no sentido de abrir espaço à diversidade nos quadrinhos, e a ouvir as mulheres. Assim, abracei esse trabalho com muito entusiasmo!

Sim, como curadora acho importante produzir quadrinhos também, pois isso me permite trazer à discussão os problemas e demandas que essa atividade requer. E, naturalmente, essa problemática e anseios são os de muitos outros quadrinhistas.

A participação feminina na programação no FIQ deste ano aumentou? Você acha que ter uma mulher na organização de um evento deste porte aumenta a visibilidade dos trabalhos de outras mulheres nos quadrinhos?

Não cheguei a fazer uma comparação ponto a ponto com a programação das outras edições, mas posso dizer que o esforço e as discussões da equipe no sentido de trazer mais mulheres ao festival foi intenso. Desde as últimas edições temos a política de disseminar a participação feminina em todos os setores do festival, e acredito que a escolha de ter mais mulheres na equipe de curadoria pode sim aumentar bastante as decisões de trazer e promover outras mulheres que atuam no meio.

Você percebeu alguma mudança no cenário de mulheres que produzem HQ no Brasil nos últimos anos? O FIQ terá espaço para discutir a produção de quadrinhos por mulheres?

A minha impressão é de que a presença de mulheres quadrinhistas no cenário Brasileiro cresceu, e em grande parte isso se deve à constante troca de idéias, projetos e encontros, como o promovido pelo Lady’s Comics em 2014, e o encontro com a quadrinhista e historiadora norte-americana Trina Robbins em 2015, promovido pela pesquisadora Natania Nogueira. Há mais exemplos em que meninas e jovens mulheres possam se espelhar para ingressar neste meio como autoras, editoras, tradutoras, roteiristas, coloristas, etc, e o efeito disso se faz sentir hoje.

O FIQ busca não tratar a produção dos quadrinhos feitos por mulheres como uma produção de “nicho”, ou que requeira um exame à luz do gênero de suas autoras. Antes, o festival busca colocá-las como participantes em todas as suas atividades, o que faz com que as suas vozes também sejam ouvidas sem que para isso um espaço especial seja necessário.

O fato de que a produção de quadrinhos no Brasil é algo que acontece em uma variedade de mídias não-tradicionais – especialmente nas mais variadas plataformas da Internet – dificulta a curadoria?

Acredito que não, ao contrário: a internet permite a visibilização e a divulgação de inúmeros autores e autoras que antes teriam, necessariamente, de passar pelo crivo de uma editora tradicional para chegar ao seu público. Isso permite também à curadoria do evento diversificar a presença de autores, buscando formar um panorama o mais abrangente possível do cenário brasileiro de quadrinhos.

Alexandra Moraes, autora d'O Pintinho, que é sucesso absoluto na Internet, também é uma das convidadas do FIQ
Alexandra Moraes, autora d’O Pintinho e sucesso estrondoso na Internet, também é uma das convidadas do FIQ

Ao ver o quadro de artistas convidados, fico impressionada não apenas pela variedade de estilos e públicos contemplados, mas também com o cuidado em trazer muitos quadrinistas de BH, que é onde acontece o festival. Existe essa preocupação com a valorização dos artistas locais?

Certamente. O festival também é um espaço de valorização dos autores locais, que com o seu trabalho também impulsionam não só esse cenário como também o regional e o brasileiro. Creio que há um dever primordial do festival para com a sua cidade, fazendo-a ver e prestigiar os seus artistas.

O cronograma do FIQ também é super variado! Além de oficinas e debates com artistas estrangeiros e locais, o festival organiza duelos de HQ e outros desafios do tipo. Você acha importante que os eventos de HQ, além de prestigiar a cena já existente, estimulem a produção de quadrinhos?

Uma das principais preocupações do festival é também difundir as técnicas de produção de quadrinhos tanto para o público que nunca fez uma história quanto para os autores que querem continuar se aperfeiçoando. Quem produz sabe como pode ser difícil acessar conhecimentos e materiais que dêem uma formação nesta área, e o festival é sem dúvida uma oportunidade de colocar estes conhecimentos ao alcance de todos os interessados.

Percebo na organização do FIQ um esforço pra manter o evento atualizado e atento aos novos artistas, às novas propostas e às novidades do meio em geral. Isso, pra mim, diferencia vocês de outros eventos brasileiros sobre quadrinhos. Vocês consideram que essa é uma prioridade do festival?

Eu acredito que este é o propósito principal do festival: estar em sintonia com o cenário de quadrinhos brasileiro e internacional, mostrando e discutindo as mudanças que estão ocorrendo, os seus novos atores, as novas maneiras de publicar, etc. E principalmente, fazer isso de modo a que essas atividades estejam ao alcance de todos, atraindo mais público para esta cena, fazendo com que novas pessoas participem tanto dos debates como das produções.

Na última edição do FIQ aconteceu um incidente em que uma cosplayer foi exposta de maneira constrangedora por um dos frequentadores do festival e isso gerou uma mobilização. A organização fará alguma campanha ou alguma ação para tentar evitar que esse tipo de situação se repita?

Sim, o festival já divulgou uma nota no sentido de se posicionar quanto ao respeito à diversidade e, principalmente, às mulheres. Ainda que o problema do assédio persista, esse comportamento não será tolerado no festival. Para isso, a sua organização estará à disposição do público, através de seus canais de comunicação e presencialmente, para esclarecer qualquer incidente.

Para encerrar, algumas perguntinhas sobre você e o seu trabalho. Você pode contar para a gente quais artistas te inspiram e influenciam? E quais trabalhos de mulheres dos quadrinhos nacionais merecem destaque?

Artistas como Beatrice Tillier, Julia Bax, Isabelle Dethan, o duo Kerascoët, Bilquis Evely e tantas outras me inspiram imensamente, e me fazem buscar desenvolver o meu trabalho constantemente. Impossível dizer quais trabalhos de mulheres dos quadrinhos nacionais merecem destaque, a cada dia descubro mais uma autora com trabalhos belíssimos em cores, roteiro, desenho… só posso dizer que o FIQ terá muitas e muitas delas presentes para quem quiser conhecer os seus trabalhos!

Imagem da HQ Beco do Rosário
Imagem da HQ Beco do Rosário

Tem havido alguma resistência ou dificuldade quanto ao Beco do Rosário por abordar a questão negra no Brasil, que é praticamente um nervo exposto de nossa cultura e história?

Ao contrário, vejo que a maioria das pessoas reagem com interesse agudo ao projeto justamente por tratar, ainda que parcialmente, deste tema! Creio que há uma imensa demanda reprimida ansiando para que essa questão seja tratada nos quadrinhos aqui no Brasil, e estou fazendo uma pequena parte no sentido de trazer isso ao debate. No mais, a dificuldade é minha como autora mesmo: como uma pessoa branca, é muito difícil escrever sobre uma experiência que não é a sua. Por isso, cuidado e estudo redobrado, sempre sabendo que nunca poderei tratar do tema com a mesma autoridade que uma pessoa negra. Ainda assim, creio que quanto mais visibilidade dermos à população negra e à cultura afro-brasileira, melhor. Somos ainda um país que não reconhece o imenso aporte e contribuição da cultura africana à sua própria, e, enquanto isso persistir, teremos sempre uma imagem distorcida de nós mesmos como brasileiros.

 

O FIQ acontece este ano em Belo Horizonte, de 11 a 15 de novembro, e a entrada é franca. Quem tiver a oportunidade de ir, aproveita e me dá um alô! Estarei participando do Duelo de HQs (dia 14 às 14:30hs) e do Oubapo – improvisação em quadrinhos (dia 15 às 14:00hs). Também vou estar na banquinha Múltipla Escolha com um monte de gente legal vendendo zines e HQs.

*Obrigada à Gabi e à Roberta pela ajuda na formulação das perguntas!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.