A recessão no mercado de animes no Japão X A situação da mulher na mídia japonesa. Entenda como somos afetadas!

Um dia me deparei com um vídeo muito interessante no tumblr, postado por minha amiga Gabriela Birchal, sobre Por que um bom anime é difícil de produzir? (Why Good Anime Is Hard To Make) e a real situação da indústria de anime no Japão me veio à cabeça. Muito se comenta sobre o fim da era dos animes, além dos ataques de nostalgia como ‘na minha época tudo era melhor’. O que de fato está acontecendo? Por que tantos estúdios estão fechando e autores e diretores conhecidíssimos reclamam da dificuldade de conseguir trabalhar?

 

A maior criação de Hideaki Anno: Neon Genesis Evangelion.
A maior criação de Hideaki Anno: Neon Genesis Evangelion.

Hideaki Anno, criador de Evangelion, declarou que a indústria de animes provavelmente chegará a seu fim dentro de 5 a 20 anos. Sejamos francos, em um período de 15 anos, MUITA coisa pode acontecer. Mas estamos falando do criador de Evangelion, então a gente releva a frase, né?

Ocorreram fortes decaídas na indústria de alguns anos para cá, como consequência de vários fatores. Porém, como sempre, o mais importante é: a crise econômica mundial. Houve a queda do final da década de noventa, seguida de um up em 2006, que mais uma vez caiu para subir novamente em 2012; e a história continua… É um ciclo sem fim, mas que não deixa de ser preocupante. Será que isso vai acabar de vez? Hum, não sei se é por aí.

 

Crise econômica japonesa

Fonte: telegraph.co.uk
Ela não irá embora tão cedo. Fonte: telegraph.co.uk

Vamos tentar entender de uma maneira muito simples a (permanente) crise econômica financeira do Japão para situar ainda mais a indústria de anime.  O país vive uma crise deflacionária gigantesca desde o final da década de 1980. Falando de maneira rápida, isso cria expectativa real e racional de que algo ficará mais barato a curto prazo, o que é péssimo, pois faz com que as pessoas segurem dinheiro e deixem de consumir agora para consumir depois. Uma reversão recente da situação está aparente, mas não se pode dizer com clareza. A partir daí, empresas tomaram como rumo entrar no mercado ocidental, onde de fato havia, até então, um legítimo consumo até meados de 2008, quando o mercado global sofreu um grande impacto que se perpetua até hoje. E com isso vemos que as datas também batem com os altos e baixos da indústria de anime.

Como a indústria lucra

Merchandising levado a sério. Fonte: Pinterest
Merchandising levado a sério. Fonte: Pinterest

O grande responsável em perpetuar, ou não, a indústria de anime é nada mais, nada menos do que o fã. Ou seja, eu, você (assim espero!), e o coleguinha ali do lado que curte também. Contratos de sindicância para exibição em canais de tv não sustentam mais as produções. E nem sequer preciso entrar no mérito de ‘oh, a internet está acabando com as TVs.’ Não, o que estou dizendo é que o que paga MESMO os profissionais do ramo é aquela bonequinha bonitinha que você quer comprar, o card para colecionar na carteira, o sticker que fica legalzinho colado no seu PS3, a roupa que você encomendou da loja oficial e que a receita vai taxar em 480%, o videogame da série que saiu para um console portátil, etc. e tal. Esses são os reais movimentadores de dinheiro na indústria hoje. E dentro da recessão da recessão econômica, está difícil sobreviver. Afinal, ‘está difícil comprar’, já que ‘está difícil para fãs gastarem’.

Alguns estúdios conseguem sobreviver, como a MadHouse. Contudo, muitos estão, inclusive, apelando para o Kickstarter a fim de produzir ou continuar suas séries! Como já mencionado no vídeo que originou toda essa bagunça sobre a qual você esta lendo aqui, os autores explicam que esta é a única maneira de conseguir orçamento para seus projetos, pois o que se ganha na sindicância não é o suficiente para garantir a qualidade de animação que eles querem.

Dentro disso tudo, há um fato preocupante: a roda lucrativa precisa ser reinventada… E rápido! O motivo principal é justamente por hoje se vender tanto sexo em animes, algo jamais visto antes, enquanto que ao mesmo tempo a população do Japão está passando por uma de suas piores taxas de natalidade. Calma que vou explicar um pouquinho mais sobre isso para você.

‘Moe’zação da indústria

Você certamente levou ou levará vários lencinhos ao assistir qualquer obra desse senhor simpático
Você certamente levou ou levará vários lencinhos ao assistir qualquer obra desse senhor simpático. Fonte: Wikipedia.

Segundo Hayao Miyazaki, conhecidíssimo por seu trabalho com o Studio Ghibli, o grande culpado por essa situação atual na indústria de animes é o próprio otaku

Trocando em miúdos, isso não quer dizer que a culpa é minha, sua ou daquele nosso coleguinha ali do lado. O otaku, em sua tradução original na cultura japonesa, é aquela pessoa reclusa que só consome animes e mangás e que não tem ideia do que se passa ao seu redor. É uma pessoa totalmente alienada, inclusive, socialmente falando. E hoje, quem está lá trabalhando e fazendo as coisas acontecerem é esse próprio otaku que acaba só produzindo o que ele gosta e tem interesse. E vale ressaltar que nem sempre o que esse cara gosta é bom, ou até mesmo saudável. No final, ele só produz o mesmo conteúdo over and over again, para um público fixo… E o autoral, a arte, o bonito e o poético vão por água abaixo. Mas afinal, que conteúdo é esse? O fan service! E principalmente o moe.

De acordo com o livro The Moe manifesto, obra de Patrick W. Galbraith, o termo moe se refere “a um quasi-amor por um personagem fictício. Você pode desejar algo no mundo bidimensional que você não deseja no mundo tridimensional. Existe um clichè na cultura otaku que aqueles que sentem um moe por personagens estilo irmãs mais novas em anime e mangá não têm irmãs mais novas. Se esses homens tivessem irmãs mais novas de verdade, então a realidade arruinaria a fantasia”.

The Moé Manifetsto. Sim, o livro existe.
The Moé Manifetsto. Sim, o livro existe.

Pode-se dizer que é uma coisa muito louca, já que cabem diversas interpretações como o de um amor bonitinho e dedicado ou, em contrapartida, como sendo um caso de pedofilia. E o livro não menciona esta palavra uma vez sequer, mesmo que o conteúdo imagético esteja todo lá.

Pressão da ONU para banir anime/mangá com conteúdo pedofílico

Em junho de 2014, foi proibido no Japão a posse de pornografia infantilo que é uma enorme vitória para as entidades de proteção às crianças… Ainda que tenha ocorrido em um atraso enorme em comparação ao resto do mundo desenvolvido. Entretanto, contudo e todavia, NÃO foi proibida a produção ou distribuição de mangás/animes com esse conteúdo.

Após um ano, mais especificamente semana passada, um representante da ONU criticou duramente tal postura do governo japonês. E com razão, afinal, a proibição se faz de fato à material referente à crianças reais, evitando que elas sejam abusadas em frente as câmeras, mas não dentro do ambiente de anime, games e mangas, o que ainda permite que adultos fantasiem assistidamente sobre o assunto e continuem consumindo.  E conosco vivendo em um mundo totalmente conectado, a pressão fica cada vez maior. No entanto, o governo japonês continua indo de encontro às decisões mundiais.

Guinada ultraconservadora na política japonesa

De uns tempos para cá, o Japão tem se tornado mais e mais conservador em sua política externa e até militar, em parte devido à ascensão e expansão chinesa. Essa postura parece também ter refletido culturalmente, visto a maneira como o governo japonês vem resistindo às inteferências externas, como a da própria ONU.

Fica claro então que o Japão está passando por um momento mais conservador, mais reacionário, mais nacionalista. Em síntese, mais voltado para si mesmo. E, em parte, isso se REFLETE nas produções de alguns mangas/animes; que acabam por alienar o resto do mundo por apelarem a sensibilidades japonesas ultraconservadoras, que parecem incluir uma certa preferência pela pedofilia.

O problema é que tudo indica que esses estúdios NÃO mais dependem apenas do consumo japonês para sobreviver. O hype internacional parece ser parte importante da visibilidade dada à mídia, de um modo geral, e isso acaba pedindo por mudanças.

Números e população

Vamos salvar nossa escola de fechar criando um grupo musical para atrair atenção dos alunos e eles se matricularem aqui! -> Love Live! tem um viés bem sério por trás de tanta fofura e músicas animadas. Fonte: love-live.wikia
Vamos salvar nossa escola de fechar criando um grupo musical para atrair atenção dos alunos e eles se matricularem aqui! -> Love Live! tem um viés bem sério por trás de tanta fofura e músicas animadas. Fonte: love-live.wikia

E para quem acha que Love Live! é um anime de idols sem sal, vale a pena conferir a real situação que levou a criação do grupo de idols nessa ficção: há uma baixa demográfica no Japão que está assustando qualquer estatística. Simplesmente não há jovens o suficiente no país para encher as escolas. A maioria da população é idosa e os poucos casais que existem não querem ter filhos. Isso por que não quero citar ou me aprofundar na questão dos altos números de suicídios nesse artigo, caso contrário iríamos todas sentar e chorar.

Isso são dakimaguras. Travesseiros de tamanho humano nas mais variadas estampas e formatos seguindo todas as suas preferencias de 'waifus' e 'husbandos'. Fonte: dannychoo.com
Dakimaguras: Travesseiros de tamanho humano nas mais variadas estampas e formatos seguindo todas as suas preferencias. Fonte: dannychoo.com

Jovens solteiros/as explicam que é muito complicado viver um relacionamento, sendo exatamente o que eles não querem. Isso quando um deles não é otaku e se diz estar plenamente feliz por ter sua vida com seu/sua dakimagura, dispensando assim uma/um mulher/homem de carne e osso. Caso você esteja se perguntando o que é dakimagura, são aqueles “travesseiros para se abraçar”, geralmente de um personagem de anime/mangá ou até mesmo atores/atrizes pornôs.

 

Se tem alguém que entende de Sailor Moon, é essa moça!
Se tem alguém que entende de Sailor Moon, é essa moça!

Conversei com a Letícia Cosmos, uma das maiores fãs e entendedoras de Sailor Moon no país (in my honest opinion), sobre toda essa situação do mercado, já para aproveitar o fato dela ter visitado o Japão recentemente. O que ela me conta chega ao mais incrível: de como ela conheceu a própria autora de Sailor Moon, Naoko Takeuchi; tanto quanto ao bizarro: das várias lojas que vendem artigos de animes que são literalmente uma sex shop.

Ela também nos conta que ao passear em Akihabara, o paraíso de todo fã de anime e eletrônicos, é possível encontrar lojas com todos os tipos de produtos. E os que mais chamam atenção são, como sempre, as action figures de personagens femininas com calcinhas a mostra ou decotes gigantescos… 

Discutimos também o mérito de roteiros x expectativa, aproveitando o gancho da importância da abertura do mercado de anime para o ocidente como forma até de auto sustentação financeira, e o que ela diz é: “Se as personagens (do gênero moe) fossem tratadas pelos diretores mais próximas de uma pessoa normal, e não da mary-sue irreal, acho que a indústria não estaria tão mal das pernas. Essa visão puritana e mega idealizada das personagens, acaba voltando o produto final só pro mercado interno. O ocidente não consegue se relacionar ou identificar com esses comportamentos”

Qual meu maior intuito com essa matéria? Sair com tochas e facões para a porta dos estúdios do Japão e abolir a prática de assistir animes e ler mangás no mundo? Pelo amor de tudo que é bom nesse universo, não! Afinal, eu gosto de anime, manga e suas vertentes. Porém, diante destes fatos fica muito difícil defender a indústria com práticas tão opressoras e objetificantes. Sendo assim, deixo o seguinte questionamento: como você acha que a indústria pode ser salva? Abrir suas portas para o mundo ocidental é uma boa deixa e, para tal, acredito que ela definitivamente vai precisar se reestruturar de forma quase que geral.

(créditos da capa para http://morrow-x.deviantart.com/)


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Rach Asakawa

Amazona em treinamento na ilha de Themyscira, publicadora de abobrinhas do RachAsakawa.com e co-host do podcast Cast 42. Sempre ansiosa pelos próximos capítulos de Akame ga Kill! e Tamen de Gushi.