As 10 heroínas mais feministas dos quadrinhos

Se você é menina padawan nessa coisa de ler quadrinhos e ainda acha que o gênero se resume a super-heróis, machistas e excludentes em sua grande maioria, com milhares de músculos ilustrados de forma exagerada e desproporcional, cuecas por cima das calças e roteiros rocambolescos impossíveis de serem acompanhados, bem, você está certa.  

Grande parte das histórias em quadrinhos de heróis AINDA é assim, sim. Infelizmente.

Mas, existem as super-heróinas. Certo? Onde elas estavam esse tempo todo?  Elas sempre existiram, na verdade. Para  fazer um breve resumo; as super-heroinas clássicas foram criadas nas décidas de 40-50, incluindo personagens que mais tarde se tornariam icônicas e famosas como nossa querida Mulher Maravilha e até mesmo a Supergirl. Todas elas, nessa época, foram criadas por roteiristas e artistas do sexo masculino para um público essencialmente masculino.

Como toda a arte, as histórias em quadrinhos também refletem seu tempo, de modo que, a forma como as mulheres foram retratadas na  mídia em questão, até então, não foi das melhores (sarcasmo mode on).

Já nos nos anos 60-70,  com a segunda onda do feminismo, começamos a ver algumas pequenas melhorias aqui e ali, tais como a transformação da Garota Marvel em Fênix (com um boost considerável de poderes), e uma mulher de QI elevadíssimo como um dos membros fundadores dos Vingadores, como é o caso da Vespa, por exemplo, apenas citando algumas.

Apesar da esmagadora falta de profissionais mulheres no mercado de HQ naquele tempo e com e por isso, a crescente falta de  interesse do publico feminino no gênero, ainda, no finalzinho dos 70, começo dos 80 vimos lampejos de diversidade com heróinas como a diva disco Cristal e a rainha negra de Wakanda, Tempestade, citando um exemplo de heróina negra mais conhecida do grande público, apenas.

Porém, apesar de décadas de sexismo e machismo acachapantes nas HQs, existem hoje MUITAS mulheres e muitos títulos que estão mudando o mercado, trazendo renovo, personagens femininas empoderadas e empoderadoras, disseminando o feminismo, representando  diversidade de gêneros, etnias, credos, opiniões, abrindo caminho nessa mata cerrada de intolerância e misoginia do meio nerd, mostrando que as mulheres sim, tem vez, tem voz, como produtoras e criadoras de quadrinhos e como consumidoras. Estamos e sempre estivemos aqui.

É um novo mundo e um novo mercado que desabrocha e ele é CHEIO de mulheres incríveis que podem servir de exemplo e inspiração para muitas meninas (e mulheres) por aí.

Listamos (eu e a Louise Raphaella Carvalho, minha co-editora) as 10 personagens femininas nas HQs de heróis mais empoderadoras do momento. Alguns títulos não chegaram aqui no Brasil ainda mas você pode baix.. queremos dizer, comprar, online. 🙂

Gostaríamos apenas de avisar que  foi muito difícil  restringir a lista a apenas dez, portanto, não nos xinguem nem  venham com –  “ah, mas faltou fulana” – já que estamos  pensando numa “As 10 super heróinas femininas mais empoderadoras parte II”  porque é realmente impossível selecionar um número tão pequeno. E esse problema, por si só, pensem bem… já é maravilhoso 🙂

Vamos lá:

#10 Sonja

Red Sonja
Red Sonja

Por onde começar: Red Sonja Vol. 1, “Queen of Plagues,” de Gail Simone e Walter Geovanni. (Dynamite Comics)

Red Sonja é uma personagem criada por Roy Thomas para Marvel Comics, inspirada em contos de Robert E. Howard e ligada ao universo de Conan, o Bárbaro. Ela foi livremente inspirada em “Red Sonya de Rogatino”, do livro de Howard, “The Shadow of Vulture”. Atualmente é publicada pela Dynamite Entertainment em histórias magistralmente escritas por Gail Simone, onde chuta todas as bundas possíveis e imagináveis, and THERE’S BLOOD, BABY. Recentemente a personagem também voltou a ser notícia por ser alvo de críticas machistas por conta de seu uniforme, que foi reformulado, ideia de Simone para livrá-la da sexualização, já que o antigo era um simples biquíni de aço. Arrasou.

#9 Barbara Gordon

Batgirl
Batgirl

Por onde começar:  “The Batgirl of Burnside,” volume 1 – Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr (DC Comics)

Batgirl já foi várias garotas: Cassandra Cain, Helena Bertinelli, Bette Kane e Barbara Gordon. Criada por Bob Kane nos anos 60 para ser um dos sidekicks de Batman, hoje Barbara Gordon é um sucesso, apontada com um dos principais destaques feministas entre as super-heroínas. Após se recuperar de uma lesão na coluna que a deixou paralisada por três anos, Barbara se forma em psicologia forense na faculdade e tenta viver uma vida típica de uma garota de 20 anos em Burnside, uma “versão” de Gotham, no Brooklyn, NY. Ao mesmo tempo, caça um psicopata que envolve mulheres em pornografia na internet e usa jaqueta de couro e coturnos Doc Martens <3. Super atual, super empoderada. E uma dica, a saga começa com Brenden Fletcher, mas Gail Simone (que já tinha arrasado em Birds of Pray) assume depois. Enfim, LEIA!

#8 Suzie Dickinson – Sex Criminals

suze

Por onde começar: Criminosos do Sexo  Vol. 1, “Uma Estranha Habilidade,” de Matt Fraction e Chip Zdarsky (Image Comics) – (Lançada no Brasil pela Devir)

Pode até parecer poético quando alguém te diz que sente o tempo “parar” quando tem um orgasmo. Well, para Suzie essa metáfora é literal. Esse é seu “poder”: ela consegue congelar o tempo quando goza. E então ela conhece Jon, que incrivelmente tem a mesma habilidade e juntos eles decidem sacanear muita gente simplesmente TRANSANDO. Prepare-se, as atualizações de “juntar o útil ao agradável” foram ativadas. É sensacional e é HOT. 18+, é claro, e é maravilhoso ver uma mulher protagonizando uma HQ onde o SEXO é o tema central.

#7 Hannah, Violet, Dee e Betty

Opa, são 3. Roubamos um pouco na lista. Foda-se.
Opa, são 3. Roubamos um pouco na lista. Foda-se.

Por onde começar: Rat Queens Vol. 1: Sass & Sorcery por Kurtis J. Wiebe, Roc Upchurch, Laura Tavishati e Ed Brisson (Image Comics)

As Rat Queens chegaram para acabar com a ausência de personagens femininas, fortes e divertidas nas séries de fantasia medieval. A HQ não apresenta somente uma, mas QUATRO protagonistas mulheres representando as classes que você ama dos seus tempos de D&D: Anã Guerreira, Ladra, Necromante e, logicamente, a Sacerdotisa Élfica – todas lindas e mortais. Rat Queens não tem nada a ver com as séries medievais tradicionais, com escrita rebuscada e personagens altivos. A revista apresenta inúmeras referências à temas adultos como violência extrema, sexo e drogas, tudo muito bem contextualizado e inserido na trama elétrica protagonizada pelas “Rainhas”. Rat Queens ajudou a redefinir o formato das novas HQs independentes protagonizadas por mulheres e está abrindo portas para autores que querem explorar o gênero.

Essa versão moderna de um gênero já antigo nas histórias em quadrinhos é uma violenta caçada a monstros. É como se Buffy encontrasse a Tank Girl no mundo de “O Senhor dos Anéis”. Além de uma leitura leve e divertida, é um marco para o papel feminino no quadrinhos nesta década.

#6 Penny Rolle

Essa Penny é bem diferene daquela que você conhece...
Essa Penny é bem diferene daquela que você conhece…

Por onde começar: Bitch Planet, Vol. 1: Extraordinary Machine por Kelly Sue DeConnick e Valentine De Landro (Image Comics)

Imagine um futuro onde as mulheres são escravas sem algemas dos homens, aquelas que se recusam a obedecer seus maridos são enviados para uma prisão galática vulgarmente conhecida como “Bitch Planet”. Lá, todas as mulheres ficam à mercê dos guardas, enquanto monitores supervisionam tudo. As mulheres da Bitch Planet vêm de todas as esferas da vida, todas as etnias e tipos de corpo. Há mulheres difíceis que estão procurando uma oportunidade de lutar, mulheres heróicos que defendem os fracos, mulheres que nunca viveram dificuldades em suas vidas e, de repente, encontram-se apavoradas e humilhadas, e mulheres que cuidam da própria vida na esperança de sobreviver. E a sobrevivência não é uma garantia em Bitch Planet.

Considero todas as mulheres de Bitch Planet como grandes ícones feministas, mas Penny Rolle  merece uma atenção especial. Ela pode não ser a heroína principal (você precisa ler a HQ para descobrir quem é), mas tem um papel fundamental no quesito representatividade. Penny foi enviada para a prisão por insubordinação, múltiplas acusações de agressão, desfiguração capilar e obesidade desenfreada. Em um mundo onde as mulheres são consideradas “úteis” por serem magras, de pele clara e cabelos lisos, Penny não se encaixa nessa “beleza ideal” – e tampouco quer se encaixar. Desde sua infância, Penny sofre com a pressão dos homens de sua sociedade por causa de sua aparência, mas o que eles não percebem é que ela ama a si mesma, pura e simplesmente. Na edição #3, ela é submetida a uma tecnologia que projeta a imagem de como ela se vê, e essa imagem é ela mesma, sem mudar nada. Ela não está magoada, se achando nojenta e definitivamente não está sofrendo com auto-aversão. Ela tem confiança e amor próprio, e uma mensagem assim pode mudar a vida das pessoas.

#5 Faith Herbert

Keeping the Faith <3
Keeping the Faith <3

Por onde começar: Harbinger #4 (2012) por Joshua Dysart e  (Valiant Entertaiment)

Faith Herbert é uma das apostas mais ousadas da nova editora Valiant e da carreira do autor Joshua Dysart. Uma adolescente nerd, solitária, leitora de quadrinhos e que sofre de obesidade,  escrita de uma forma tão natural, desnuda de estereótipos e real que fica impossível não se apaixonar pela personagem e pelo que ela representa. Não há nada forçado em Faith que faça o leitor se compadecer ou torcer por um arco de superação de adversidades, pois a jovem é um exemplo de auto-aceitação, positividade e uma declaração ao mundo de que ser você mesma é o que te faz ser especial. Faith ainda serve como bússola moral de sua equipe e geralmente é a voz da razão que guia os planos e equilibra as coisas no grupo. Recentemente a personagem foi recrutada para a equipe dos maiores heróis da editora Valiant, chamada “Unity”. Faith Herbert é um ícone da nova nerd, e a nova nerd não poderia estar melhor representada.

#4 Thor

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Por onde começar: Thor (2014) #1 por Jason Aaron e Russell Dauterman (Marvel Comics)

Uma das mudanças mais radicais que a Marvel fez em seus quadrinhos nos últimos tempos, foi tornar o Filho de Odin indigno e uma mulher levantar o Mjölnir em seu lugar. E ela não é She-Thor, Miss Thor ou Lady Thor; ela não é uma ajudante ou a versão feminina de Thor. Ela é THOR!

O que poderia ser apenas uma mudança no sexo do personagem principal se tornou rapidamente um símbolo de empoderamento feminino. Ela é abertamente feminista, tendo inclusive ensinado lições aos seus inimigos por terem associado o feminismo a algo ruim. Embora tenha dúvidas no início de sua jornada, Thor logo assume seu lugar de direito, enfrentando até mesmo o Filho de Odin em certo ponto. E o mais interessante sobre ela é que sua origem é humana. Quem levanta o martelo é Jane Foster, outrora apenas um interesse amoroso do Filho de Odin, provando que nós, mulheres, podemos alcançar o lugar que quisermos na vida.

Uma mulher sendo a Deusa do Trovão é extremamente importante no âmbito da representação, e o fato de que as revistas protagonizadas por ela superaram as vendas das protagonizadas pelo Thor anterior em uma indústria que às vezes usa vendas fracas como motivo para cancelar uma série, torna difícil ignorar o quão poderosa está sua influência globalmente.

#3 Kamala Khan

Kamala contra todas as formas de preconceito
Kamala contra todas as formas de preconceito

Por onde começar: Miss. Marvel Vol. 1 “No Normal,” por G. Willow Wilson e Adrian Alphona (Marvel Comics)

Kamala mudou para sempre o estereótipo de heróinas nos quadrinhos. E isso é simplesmente maravilhoso. Nota 10 no quesito diversidade e empatia, acertou em cheio meu coração. Ela é uma adolescente americana, muçulmana, de origem paquistanesa, obcecada pelos Vingadores e vive em meio a problemas diários e discussões que se desdobram sobre a criação ultra rigorosa de seus pais versus a liberdade sedutora do “american way of life”, em Nova Jersey.

Uma noite, decide contrariar as ordens de seus pais e foge para ir a uma festa, quando se vê envolta em um estranho nevoeiro  (Névoa Terrígena) que dá a ela super-poderes (e a torna uma Inumana) entre eles o de se esticar e mudar de forma. E aí tudo muda. O melhor de suas histórias, no entanto, são justamente os momentos em que ela precisa se deparar com dificuldades de uma adolescente comum, do sexo feminino, sendo criada sob as rígidas leis do Islã, que escreve (também, escondida dos pais) fanfics homoeróticas com o Wolverine e Ciclope e que, de repente, ganha super­poderes. Detalhe: a roteirista, G. Willow Wilson é mulher e muçulmana <3­ HQ mandatória. Uma das MELHORES SACADAS da Marvel. Incrívelmente empoderadora que acerta em cheio novas leitoras.

#2 Capitã Marvel

Carol "fucking badass" Danvers
Carol “fucking badass” Danvers

Por onde começar: Capitã Marvel  Vol. 1 “A Heroína mais poderosa da Terra”  por Kelly Sue DeConnick e  David Lopez (Marvel Comics) – (Lançado no Brasil pela Panini Comics)

Posso estar sendo levemente tendenciosa aqui, mas sinceramente, Carol Danvers elevou as heroínas a uma categoria em que vai ficar difícil superá-la. Ela já era uma mulher foda muito antes de receber seus poderes, quando era apenas uma piloto da Força Aérea Americana capaz de deixar Tom Cruise, de Top Gun, no chinelo. Faz parte dos Vingadores, sua melhor amiga é a Mulher-Aranha e tem um gato chamado Chewie (ou seja, é fã de Star Wars). Este primeiro volume mostra sua relutância em receber o manto de Capitã Marvel e é uma viagem no tempo sensacional destacando momentos ótimos e ultra feministas, como a luta pelos direitos das mulheres de voarem na Guerra, por exemplo. Carol vai ganhar um filme em 2018 e é uma das mulheres mais fodásticas da face da Terra. O quê? Eu, fã? Magina.

#1 Mulher­Maravilha

Grande guerreira, inspiradora para todas nós. HAIL, DIANA!
Grande guerreira, inspiradora para todas nós. HAIL, DIANA!

Por onde começar: Wonder Woman, Vol. 1: Blood por Brian Azzarello e Cliff Chiang (DC Comics)

A Mulher­Maravilha foi uma pioneira feminista nos quadrinhos, sendo considerada um dos maiores ícones pop do sexo feminino. O criador da personagem ­ o psicólogo William Moulton Marston ­ criou a Amazona em 1941. Por mais de 70 anos a princesa Diana foi o alicerce para a definição de “super­heroína”. Durante seis anos, até a morte de Marston em 1947, a presença da Mulher­ Maravilha foi crucial para a mudança radical na dominação masculina dos quadrinhos de super­heróis que se estabeleceria com o passar dos anos. Assim como Superman, a Mulher­Maravilha está na Terra para propagar a verdade e a justiça, mas ao contrário do Azulão, Diana perseverou em seu papel anti­patriarcal. Princesa e embaixadora das Amazonas da Ilha de Temíscira. Filha de Hipólita, a rainha das amazonas. Foi para o “mundo dos homens” com a missão de propagar a paz, sendo a defensora da verdade e da vida na luta entre os homens e o firmamento, entre os mortais e os deuses. Essa é a Mulher­ Maravilha, uma mulher poderosa que se tornou parte da Trindade da DC Comics e apesar das mudanças em sua origem e comportamento ao longo dos anos, nunca deixou sua essência para trás. Se as mulheres existem e ganham destaque hoje nos quadrinhos, é por causa da Mulher­ Maravilha.

 

 

 

 

 

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.