Diversidade 101 – Guia básico sobre respeito e acolhimento num mundo diverso

Oizinho novamente!

Após nossa introdução na matéria passada, gostaria de fazer outra introdução! (Sim eu gosto de introduções!) Dessa vez, contudo, será uma apresentação básica sobre diversidade. Na esperança de responder aquelas dúvidas e questões que ficam na nossa mente e que são até simples, mas que por vezes dá vergonha de perguntar. Também quero esclarecer certos pontos, aquelas coisinhas que são gafes em potencial. Afinal, é bem comum muita gente boa e querida, por desconhecimento, acabar dizendo algo que gera mal estar ou mesmo conflitos.


Vale lembrar que eu tenho vivência, mas não sei tudo de tudo, afinal o ser humano é complexo (o que é maravilhoso) e de aprendermos mais a cada dia sobre questões de gênero e orientação sexual, bem como tantas outras variáveis de personalidade. Então, vamos lá!


Gênero e Orientação sexual são coisas diferentes


Muita gente acredita que uma pessoa trans nada mais é que uma “digievolução” de pessoas homossexuais. Algo do tipo: Nossa a pessoa é tão gay que se veste como mulher!, e com esse engano acaba perpetuando parte do desrespeito com identidade de gênero. Afinal, se é só um “gay vestido de mulher”, então bora tratar no masculino. Aí vai lá a moça trans toda arrumada, fazendo um esforço enorme para se encaixar em um padrão pra ter o mínimo de respeito, e que ouve um Pois não senhor, posso ajudar? ou um Valeu aê mano, cê é firmeza!. Honestamente? Isso é de acabar com o nosso dia, mês, semana… Enfim.


A questão, independente de ser cis, trans ou não binário (já te explico), é que pessoas podem ter atração por diferentes gêneros, por todos ou por nenhum. Uma coisa é quem somos, outra é quem nos atrai. Por exemplo, sou uma mulher trans lésbica. Portanto, me atraio por outras mulheres. Seguindo por esse raciocínio, existem mulheres trans que se atraem por homens e, por isso, são heterossexuais, assim como é completamente possível e normal! que você encontre também uma mulher trans que seja bissexual ou pansexual tendo atração por mais de um gênero.


Cisgênero – esse termo é importante!


Cisgênero é o termo usado para se referir à pessoa cuja identidade de gênero é correspondente ao seu sexo biológico. A palavra cis vem do latim e significa “do mesmo lado”. E assim como heterossexual está para orientação sexual, cis está para identidade de gênero. Quero deixar isso bem salientado, pois já vi pessoas se mostrarem ofendidas com o termo. O que não faz nenhum sentido, já que é apenas uma classificação.


O termo tem um papel social importante, o de não desqualificar o gênero de pessoas trans. Já ouvi frases do tipo: Ah mas isso não é um problema só das trans, isso afeta as mulheres também., o que basicamente diz: mulheres trans não são mulheres… Ou outra clássica: Ah, você é trans, mas e sua esposa é mulher de verdade?. Mulher de verdade? Ok, então eu sou uma miragem, umaholoforma”, ou melhor, uma farsa? Podemos ver claramente aí um total desrespeito conosco! E alguém com qualquer consideração sequer por pessoas trans não vai querer incorrer nestas frases… Certo?

Já com o termo cisgênero temos aquelas situações default: “Ah, mas isso também afeta as mulheres cis.” ou “Ah, sua esposa é cis?”. No entanto, não somos todas mulheres? Mesmo que trans e cis possuam diferentes problemas em certos aspectos, já que uma mulher trans nunca será cis… No final do dia, devemos ter consolidado em nossas mentes e corações que mulheres trans são mulheres, sim! E claro, o mesmo vale para homens trans, que devem ser tratados como homens e com o devido respeito ao seu gênero.


E como eu vou saber em que gênero trato alguém?


Bom, a princípio, tente perceber como a pessoa se apresenta colocando isso acima de características físicas. *É a hora de transpor barreiras físicas!* Uma dica é procurar sempre perguntar o nome ou até mesmo perguntar como a pessoa gostaria de ser chamada. Essas pequenas e sutis escolhas de como agir ajudam muito e evitam, por exemplo, que você confunda uma moça de cabelo curtinho e roupas folgadas com um homem trans.


Lembre-se: se a pessoa lhe apresenta um nome com gênero claramente definido, como Carlos ou Isabela, tome extremo cuidado com documentos, pois o que vale é o que a pessoa afirma e pede para que você use, não o nome que estiver nos documentos. Digo isso, pois no Brasil o processo de mudança de prenome para pessoas trans é complicado e pode demorar muito ou até mesmo ser negado, infelizmente. Por isso a lei da ordem é: vale o que chamamos de nome social. Ou seja, o nome que a própria pessoa escolheu e não o que lhe foi imposto.


E não menos importante, existem também as pessoas não binárias. Ou seja, aquelas que não se identificam com gênero algum. E estas podem preferir pronomes neutros, algo com o qual nossa língua não é em nada gentil. Contudo, é possível *acredite!* e vale o esforço para tornar a experiência de vida dessas pessoas mais tranquila e confortável. Pensando nisso, vocês verão em vários lugares por aqui o uso da terminação “e” em várias palavras generalizantes, como por exemplo: todEs, não bináriEs, amiguEs, etc. É um movimento crescente que tem como intuito principal incluir e abordar a todos, mas principalmente sem ferir ou ofender ninguém. Mas fiquem tranquilos, já que ainda pretendo abordar isso com mais profundidade no futuro.


‘Mas vem cá, quem é o homem/mulher da relação?’


Essa pergunta é particularmente bem problemática. Isso sendo educadinha, pois a vontade real é de liberar a Xena interior nessas circunstâncias… rs Em primeiro lugar, é seguro dizer que o papel de gênero em um relacionamento é algo desnecessário até mesmo em relacionamentos heterossexuais, ainda mais nos dias de hoje. Segundo, em um relacionamento entre duas mulheres não existe homem e em um relacionamento entre dois homens não existe mulher. Afinal, qual o sentido de eu querer um homem na relação se eu me atraio por mulheres? E vice-versa. Pense nisso!


É igualmente ofensivo perguntar sobre o sexo, como em ato sexual, transa, fazer amor, como você prefira chamar. Compreenda, o fato da pessoa ser trans, bi, lésbica, gay, etc não transforma automaticamente a vida pessoal dela em domínio público! Por isso, você não pode e nem deve perguntar qualquer aspecto da vida sexual dela assim, na maior, achando que está tudo “de boas”. Sexo é sexo! Não é por ter uma orientação sexual e/ou preferências sexuais diferentes das suas que ela se transforma em algum tipo de mistério da humanidade. Ah! Mas como pessoas podem fazer sexo fora do moldezinho tradicional? Bem aí cabe o bom senso, não é?


‘E você já operou?’


E por que você quer saber? Vai mudar algo para você? Ter uma genital ou outra vai definir se a pessoa é mais mulher ou mais homem? Não acredito que você seja capaz de dizer ou acreditar que uma mulher que teve de retirar as mamas é menos mulher por isso. Muito menos acredito que diria para um homem que perdeu seu pênis por “x” razão que é menos homem. Pois é, operada ou não uma pessoa trans merece o mesmo respeito. O que temos dentro das calças não valida quem somos! Lembrando, claro, que nem toda pessoa trans opta pela cirurgia de redesignação sexual. Inclusive, muitas pessoas também não fazem tratamento hormonal e os motivos são tão diversos, quanto são extremamente pessoais. Sendo assim, não pergunte; ela irá lhe contar caso acredite ser pertinente ou necessário.


Enfim, sei que para muitas pessoas isso é básico e até repetitivo, mas a internet está cheia de informações erradas e não custa nada espalhar um pouco mais de informação correta para quem tem dúvidas. Tenho certeza de que muita gente não conhecia o termo cisgênero até eu falar e eu mesma só fui conhecer aos 31 anos. Então espero que esse guiazinho seja útil e colabore para o entendimento de postagens futuras. -^.^-


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3