Selvagem, histérica e a cavalo

A amazona que foi salva de um destino pior que a morte. Um apólogo sobre game design e representações equivocadas de gênero.

Esta é a história que nunca foi da fictícia Xantipa, personagem de um RPG indubitavelmente fictício que jamais será publicado, o Badernas & Badalações. É um jogo sobre brigas de bar, mas tem temática medieval e toques fantásticos, então talvez fosse mais preciso dizer que seria um jogo sobre escaramuças na taverna.

O moço que quase desancou Xantipa, é preciso dizer, se impressionava facilmente com coisas nada impressionantes. Depois de assistir a Lobo de Wall Street, aquele filme de um tal Martin Scorsese, passou uma semana comentando com as amigas:

— Mas, oi, eu não fazia ideia que Leonardo DiCaprio sabia atuar.

As amigas reviravam os olhos, mas explicavam com toda a paciência ao moço impressionado que ninguém substitui Robert de Niro no coração de Scorsese só por ser um “rostinho bonito e congelado desaparecendo nas profundezas do Atlântico Norte”. O moço coçava a cabeça. Era para fazer alguém revirar os olhos o fato de que ele, no ano da graça de 2013, ainda achasse que DiCaprio fosse só um galãzinho de chick flick?

Ah, chick flick, esse rótulo anglófono que vamos traduzir mal e porcamente por “filme de menininha” só para ressaltar o uso pejorativo que se faz do termo. Se é para menininha, é ruim: o filme, a produção, o elenco todo. Ou não?

 

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Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em cena famosa de “Titanic”, o filme dirigido por James Cameron (1997).

 

Mas então, o moço criou um RPG sobre escaramuças na taverna. E os frequentadores do boteco eram guerreiros fortes e parrudos, bruxos poderosos, monstros assustadores; elfas ágeis e delicadas, feiticeiras de formas voluptuosas, anjinhas benevolentes. O moço andava nas nuvens, feliz com sua criação. Ele tinha certeza de que Badernas & Badalações era o RPG que agradaria todo mundo e todo o mundo. Por quê?

— Porque B&B tem tudo que os jogadores gostam.

Moço impressionável, eu gosto de orcs bárbaras. Tem?

— Tem.

Cadê? Só tou vendo bárbaro orc macho.

— É que não fica bem na ilustração uma orc fêmea e musculosa. Estraga a estética do jogo.

Nem tou vendo opções femininas de vampiros, lobisomens, lichs, anões, demônios…

— São monstros.

E?

— São monstros, ué? Mas tem tanta mulher bonita aí para você escolher. Olha, por exemplo, as sacerdotisas dos quatro ventos.

Bacana, mas eu quero uma mulher porradeira. B&B é ou não é um RPG sobre cerveja, cabelinho nas ventas e pancadaria?

— Você pode fazer uma amazona.

Folheia. Folheia. Folheia. O manuscrito de B&B é volumoso e não tem índice. Folheia.

A–.  Amazona.

(E as amigas reviram os olhinhos.)

As amazonas do nosso colega impressionável são mulheres altas e esbeltas, bundão, peitão, cabelão comprido e pouquíssima roupa. Armadura que é bom? Nenhum grama de aço. Músculos? Nenhum que faça volume. Elas usam lanças com pontas de pedra e montam cavalos em pelo. Crânios de pequenos animais e penas são usados como adornos.

Olha o sonho do moço impressionável caindo por terra. Ele quer agradar todo mundo com seu jogo, mas Badernas & Badalações começa mal. A “estética” do jogo parece ser mais importante que a verossimilhança. Já perdeu todas as pessoas que não só acreditam em verossimilhança, como gostam dessa característica e fazem questão que ela exista numa obra de ficção, mesmo que a tal obra seja uma sessão de RPG. E a “estética” do jogo é meio… como dizer?… dirigida aos gostos culturalmente construídos de apenas uma parte do potencial público-alvo.

— E aí? Criou sua personagem? A amazona?

Xantipa. Vamos chamá-la de Xantipa.

 

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Anônimo. Amazonomaquia: peleja entre guerreiros gregos e amazonas. Mármore, painel de sarcófago, circa 160–170 d.C. Museu do Vaticano. Fonte: Wikimedia.

 

— Hã? Ih, xá pra lá. Então, as amazonas têm estes talentos aqui, ó: Instinto Selvagem, Força Primeva e Cavalgada Furiosa.

Ah, não.

— Hein?

Xantipa não será descrita como selvagem, primeva e furiosa. Não vou fazer uma “amazona”.

— Que é isso? As amazonas são tão legais!

Você chama isso aí de amazonas? Mulheres seminuas e histéricas lutando dentro de uma taverna… a cavalo?!?!

— Histéricas? Mas onde você enxergou histeria nesta ilustração bonita aqui?

Não é a imagem. Quer dizer, a ilustração também tem vários problemas, mas a histeria está no seu texto, nessa lista de poderes que você deu às amazonas de B&B. Você está afirmando que uma mulher combativa não luta com técnica, disciplina, tática e inteligência, como outros personagens porradeiros do seu jogo, e sim com o intestino. Ou o útero. Só faltou dar o nome de TPM Braba para um dos talentos.

— Mas elas são muito boas em combate. Estão bem equilibradas com os outros guerreiros e talz.

Amigo, a mulher guerreira de Badernas & Badalações se dá bem na luta e tá em pé de igualdade com os caras por ser irracional e usar o cérebro reptiliano.

O moço pisca.

— Olha o exagero. No meu jogo não existe sexismo.

Peraí. B&B retrata como selvagens, furiosas, primitivas e irracionais as mulheres de uma cultura matriarcal da mitologia grega que teria fundado várias cidades, era formada por guerreiras organizadas e tão capazes e habilidosas que meros homens mortais não conseguiam confrontá-las. Tiveram de mandar heróis de primeiro escalão fazer isso: Belerofonte, Teseu e Hércules.

Amazonas selvagens e histéricas (e a cavalo… dentro de um bar!, mas isso é mero detalhe). Não tem outra palavra para definir isso a não ser sexismo.

— Mas as amazonas são assim mesmo. É senso comum. É o que os jogadores gostam. Se você fizer uma busca no Google Images, vai ver que elas são mesmo selvagens.

 

Não é em força que somos inferiores aos homens; iguais são nossos olhos, iguais nossos braços e pernas; a mesma luz enxergamos, é idêntico o ar que respiramos; em nada difere o alimento que comemos. O que, então, o céu a nós negou e concedeu ao homem?

— Pentesileia, rainha das amazonas. In: A queda de Troia, de Quinto de Esmirna.

Moço, querido moço, não repita a amazonomaquia. Você tem a oportunidade de mostrar as amazonas como feministas avant la letre, mas prefere reproduzir o velho padrão: Mulheres em pé de igualdade com homens? Só se forem como símbolo da barbárie que precisa ser vencida pela força civilizatória do patriarcado. Estamos aqui destrinchando o seu jogo, apontando o problema, esfregando o sexismo na sua cara para ver se você o enxerga.

E o melhor argumento que você nos apresenta para defender B&B é “não tem problema as amazonas serem desse jeito, porque todos os outros jogos sexistas fizeram igualzinho”.

Areje esses pensamentos.

O moço coça a cabeça. E a ficha cai.

— Mas… Oi! Eu não fazia ideia!

*
*   *

 E foi assim que Xantipa, a amazona, se salvou de um destino pior que a morte.


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MC Zanini

Profissional do texto no Zombie Dodo Studio, mãe, RPGista e peã de tabuleiro.