Você está invisível no seu trabalho?

Certa vez uma mulher, head da área de tocava na empresa que trabalhava estava almoçando com os diretores e sócios dessa empresa. Não era um almoço formal, e sim um almoço corriqueiro, entre colegas pois ela fazia parte desse grupo – 6 pessoas, ela única mulher – por trabalhar diretamente com eles.

Seu cargo na empresa, assim como outras 9 pessoas – incluindo mais 4 mulheres além dela – eram gestores sênior, isso significava que eram responsável por uma equipe e pelos resultados. No caso dela especificamente, podia-se dizer que a equipe e o trabalho (que ultrapassada mais de 54 horas semanais) estava indo bem e os clientes desta empresa reconheciam o valor do trabalho da área que esta mulher liderava.

Pois bem, voltando ao tal do almoço, todos conversavam coisas do cotidiano: fim de semana, televisão, cinema, notícia; quando um dos sócios checa o celular e anuncia que a sede do grupo a qual a empresa pertencia estava organizando um encontro entre as mulheres de cargos de liderança e gestão de todas as empresas do grupo e pediam neste email os nomes das mulheres que deveriam convidar. Após a leiturado email, um dos sócios fundadores presente na mesa riu com desdém e falou “Líderes e gestoras, rá! Não temos.”. Na sequência um outro sócio comentou “Na [nome da tal empresa], nunca vamos ter mulheres líderes.”. Todos os homens riram e por fim o CEO responde ao sócio de leu o email “Eles querem mulheres? Mande a Fulana, que é casada e com filho, mulher mesmo, só pra não falar que não mandamos ninguém”. Tudo isso com uma mulher líder e gestora da empresa à mesa, que de tão chocada com os comentários se calou e foi engolida pela invisibilidade que a cercava.

Os graus de surrealidade desse fato é triste, ainda mais se situarmos os acontecimentos em 2015 e não em 1930 ou 1877. Mais triste é dizer que essa empresa é da área de tecnologia e comunicação, mercados de “vanguarda”. Infelizmente relatos como estes acontecem com uma frequência intensa como temos registrado no projeto Liga das Heroínas.

Há muito que se discute a Síndrome da Mulher Invisível nas empresas, onde as colaboradoras mulheres assumem e desempenham muito bem o trabalho à espera de reconhecimento, que não acontece por motivos “politicos”/sexismo. Isso é reflexo de um trabalho enorme cultural e de longo prazo que a sociedade inteira está realizando, porém se você neste exato momento encontra-se numa situação de invisibilidade no seu trabalho, o que fazer?

  1. Reflita: qual o seu grau de desconforto?

Este é o momento o qual você realmente deve ser sincera e realista: te incomoda estar invisível no momento em seu trabalho? Ou não, essa insivibilidade no momento é o principal obstáculo para atingir seus objetivos?

      2.   Alie-se

Não importa o seu grau de desconforto com a situação, é importante ter aliadas em ambientes de trabalho que não enxergam mulheres. (Na verdade tenha sempre aliadas em qualquer ambiente de trabalho). É importante que todas tenham conhecimento dos objetivos, sonhos, ambições de cada uma não para competir, mas sim se apoiarem. Você, por exemplo, pode sinalizar que uma colega está com uma ótima ideia para contribuir num projeto que está envolvida e articular para agregá-la ao grupo e o mesmo pode acontecer com você!

Busque diálogos maduros entre as mulheres e criem uma rede de compartilhamento e segurança para que aos poucos sejam capazes de aparecer com solidez. 

       3.   Apareça

Muitas de nós pensamos que a hora de relevar aos nossos gestores nossos objetivos, ambições, planos para o futuro e sonhos é no momento da entrevista de emprego, porém a sua resposta à clássica pergunta “Como você se vê daqui 5 anos?” não está anotada em um post-it na mesa de seus chefes ou RH. Ou mesmo que “aparecer” seja um grande ato de rebeldia. Não é.

Aparecer como uma profissional com ambições, planos e sonhos acontece por meio de conversas. Do mesmo jeito que somos orientadas a pedir feedback sobre nosso desempenho na função que ocupamos, podemos aproveitar esse momento para pedir feedback sobre sua atuação frente ao seu objetivo de carreira. Por exemplo, algo a ser perguntado num momento de feedback: “Para eu me tornar uma gerente daqui uns 2 anos, quais habilidades devo desenvolver mais?”

Reforçar no dia-a-dia onde você quer chegar para seu gestor, pedir para aprender, observar, seguir, é uma ótima maneira de deixar claro que você tem um plano e que você ficará no emprego o qual te der mais suporte para você se tornar o que deseja.

Posturas assim quebram a falácia que “no fundo, toda mulher quer mesmo casar e ter filhos, por isso nem adianta oferecer promoções e grandes desafios pois há qualquer momento ela pode largar tudo e nos deixar na mão”. Homens em especial ainda são criados para acreditar e este é o auge da conquista de uma mulher é o romance e a família. Pode até ser em alguns casos, mas como gestores, eles jamais podem assumir que esta é a regra que se aplica a todas as mulheres fazendo com que elas sejam meros recursos a serem geridos e em algum momento rotacionados, esmagando suas ambições.

             4.  Observe atentamente as novas oportunidades

Caso você perceba que está num ambiente cuja a invisibilidade torna impossível seu crescimento – como no caso da história acima – não tenha o menor medo de começar a buscar novas oportunidades. Pesquise, converse e busque referências de lugares e profissionais capazes de enxergar e reconhecer seus objetivos.

 

Essas 4 dicas são apenas o início de ações que podem te ajudar a sair da invisibilidade e acredite: ter consciência dela e tomar a decisão de como agir fará toda a diferença. Tomando o exemplo da história acima, soube que a mulher que estava na mesa pediu demisão deste emprego para seguir outra oportunidade e, logo após ela, mais 3 das outras 4 mulheres extremamente competentes que também tinham cargos de liderança e gestão seguiram seu exemplo, mostrando que para empresas que se dizem preocupadas com a retenção de talentos é preciso sim ser feminista, atenta e sensível.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Sylvia Ferrari

Relações Públicas formada pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo com especializações em Branding e Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas. Escreve e fala sobre seriados intensamente aqui nos MinasNerd e em sua newsletter The S Files.