Família, casa e lar

 

Há muito tempo eu tenho pensado sobre a realidade das pessoas LGBT quando falamos sobre o assunto família, sobre ter um lar, sobre ter uma casa. E penso também em particular da população T, que geralmente assim que nos assumimos transexuais ou travestis, e decidimos transicionar, ocorrem vários problemas e poucos são os familiares que nos aceitam, que nos respeitam, que tentam nos entender ou nos ajudar.

É muito complicado quando temos que nos afastar dos nossos familiares por ser quem somos, quando temos que mudar de realidade de forma brusca porque não nos enquadramos em uma realidade onde não nos aceitam da forma como somos, quando exigem e esperam tanto da gente, botando expectativas diversas em nós, como se fosse nosso dever cumprir isso.12235718_1075965632415999_252921143_o

Recentemente li um texto da Bell hooks, “Homeland (a site of resistance)”, onde ela fala sobre a importância de você ter um lar, onde ele é seguro, onde você tem amor, onde depois de passar o dia todo na rua sofrendo algum tipo de opressão (no caso dela, racismo + machismo), você chega em casa e sabe que tem um acolhimento, você sabe que tem um porto seguro, você sabe que tem pessoas que te entendem e que te dão apoio e te respeitam, repondo suas energias e te fazendo entender que as coisas que acontecem lá fora são passageiras e que você tem pessoas que prezam por você. É desesperador quando você tem uma casa, quando você tem um teto, mas não tem a segurança e o afeto que se faz necessário para nos sentirmos bem nesse ambiente.

Sou bem próxima de algumas pessoas que sentem isso na pele, que passam ou que já passaram por isso, que sabem como é a sua casa – ou melhor, o lugar pra onde você volta todos os dias – ser um ambiente hostil. Alguns devem estar se perguntando “mas porque ‘lugar pra onde você volta todos os dias’?” e pelo simples fato de que casa não é onde te agridem por você ser o que você é. Casa não é onde te ofendem por ser quem você é. Casa não é onde você sofre agressões psicológicas (tais como “essa casa é minha, siga minhas regras”, “se você quiser ser ~isso aí~, que seja fora da minha casa”). Casa é aquele lugar onde você constrói com amor, onde você nutre sentimentos bons, onde você é acolhido e onde você é aceito, seja como for.

A realidade da população T (e agora especifico pra minha realidade, enquanto mulher trans) é repleta de ausências de casa, de lar. Muitas vezes se faz necessário que nós encontremos família, casa, lar, em outros lugares, que não seja debaixo do nosso teto, ou do teto que vivíamos ou vivemos.

Conheço uma moça chamada Priscila (e aqui estou usando um nome fictício pra preservar a identidade da moça) que sofre violências domésticas (físicas e psicológicas) dos pais. Essas mesmas violências a fizeram sentir medo e tristeza de voltar para casa– e aqui chamaremos de casa, mas pensem no conceito que ‘casa’ é onde tem exatamente o posto do acontece com essa moça. Ela se submeteu a isso, a essas violências, por simplesmente não ter onde morar ou pra onde ir, e ela sabe que enquanto mulher transexual, se ela sair desse lugar, o único outro disponível é a rua, a prostituição, e ela não quer isso jamais. Porém, Priscila namora e tem amigos. E a família de sua namorada e de seus amigos a amam e a acolhem. Por mais que os pais de Priscila lhe dêem “casa, comida e roupa lavada”, ela sente que isso não é o bastante, que afeto, carinho, aceitação, precisam fazer parte desse pacote.
A família da namorada de Priscila a ama do jeito que ela é. Entendem que ela e a filha são muito felizes juntas e que respeito é o mínimo que elas podem dar pra ela. E tudo isso é feito com muito carinho, com muito afeto e naturalidade. Nada é forçado. O mesmo com os amigos de Priscila, que a amam e a aceitam como são. Mesmo que os pais de alguns amigos não gostem dela por ela ser transexual, alguns outros pais a adoram e entendem que ela tem que ter amor vindo de algum lugar, até mesmo da mãe da melhor amiga.

Priscila acha família em outros lugares.
Priscila acha casa em outros lugares.
Priscila acha lar em outros lugares.

E tudo isso é importante. Termos afeto, termos carinho, termos amor, é uma receita de bolo pra uma vida melhor, e temos sim que ser como Priscila, de buscar família, amor e lar em outros lugares, já que não recebemos no lugar onde voltamos todos os dias.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Ariel Nolasco

Transfeminista, gamer, aquariana com vênus em aquário. Engajada com questões sociais, faladeira de primeira.