Prepare-se para Jessica Jones

Em 1974, a filha de um dos maiores magnatas americanos foi raptada por um grupo de ativistas. Após uma sucessão de ameaças, privações e abusos, Patty Hearst se converteu aos ideais dos militantes e participou de um violento assalto à banco assumindo a alcunha de Tania. Um ano depois de uma fuga pelo país e com vários “camaradas” mortos, entre eles seu principal sequestrador, Donald DeFreeze, Patty foi presa, julgada e se tornou um dos mais notórios casos de “síndrome de Estocolmo” do mundo.

Não é a toa que seu nome é mencionado de passagem durante a primeira metade da temporada de Jessica Jones, a nova série da Marvel produzida pela Netflix, que estréia no dia 20 de novembro. Mesmo para os que não são familiarizados com a personagem, trailers e sinopses já deixaram claro que a personagem vivida por Krysten Ritter tem uma história muito similar à de Hearst. Apesar de ser dotada de super-força, Jessica Jones foi vítima de uma doutrinação violenta e decidiu viver seus dias posteriores tentando superar os meses nas mãos de um maníaco, enquanto investiga casos na vizinhança de Hell’s Kitchen, a mesma em que Matt Murdock, o Demolidor, dá seu sangue (literalmente) para tornar segura.

Apesar de não podermos entrar em detalhes sobre as tramas dos primeiros sete episódios liberados pela Netflix, é possível dizer que a nova empreitada da Marvel é talvez um de seus melhores produtos. Inúmeras explicações justificarão seu sucesso.

 

Para começar, a escolha de Ritter para o papel principal. A série utiliza o que a atriz, geralmente conhecida por comédias leves como Don’t Trust the B—- in Apartment 23, já havia mostrado de potencial para o drama em pequenos papéis como em Breaking Bad e na dramédia pouco popular do Starz, Gravity, em que ela vivia uma sobrevivente de suicídio que buscava a ajuda de um grupo de apoio. Papel do qual ela tira parte da força para lidar com as circunstâncias extenuantes vividas por sua personagem Jessica Jones.

Origem, pra quê?

Desde a mais famosa adaptação de quadrinhos, o Superman de 1978, tornou-se praxe que todo super-herói deve ser introduzido ao mundo por uma história de origem. Temos que saber em que circunstâncias ele nasceu ou passou a infância, quais eram seus modelos familiares, quando obteve seus poderes (ou super-treinamento) e qual foi o estopim para entrar no ramo do super-heroísmo. Não por acaso, a grande maioria das adaptações de super-heróis tinha homens como protagonistas. Com raras exceções como o filme da Supergirl em 1984, a adaptação de Elektra em 2005 e a recente Agent Carter, também da Marvel, em 2015, mulheres quase nunca são o centro dessas histórias e quando o são, ou repetem a narrativa heróica ou são versões feminilizadas de suas contrapartes masculinas. Mesmo Peggy Carter teve sua origem intimamente ligada à do Capitão America.

Entretanto, foi necessário uma mulher para quebrar esse combo que nem mesmo o mais forte dos super-heróis consegue romper. Jessica Jones não é uma história de origem. Em sete episódios, não espere ver um “Jesse Jones” que modelou sua personalidade e nem flashbacks com o acidente que lhe concedeu poderes, ou grandes sacrifícios que a fizeram optar pela defesa dos fracos e oprimidos. Esses elementos são mencionados, mas não são o ponto. Tal como veio ao mundo, numa série em quadrinhos escrita por Brian Michael Bendis em 2001, “Alias” (não confundir com a série televisiva da Jennifer Garner), Jessica é uma ex-heroína que agora tenta viver um dia após o outro. O foco de sua história e da série da Netflix é justamente o que acontece quando alguém com o potencial de se tornar um membro dos Vingadores (que em seu universo existem), decide ganhar a vida como alguém que não é nem digna de nota.

Criada por Melissa Rosenberg, roteirista experiente que trabalhou como produtora executiva de Dexter por 4 anos e já esteve envolvida em projetos com super-heróis – a adaptação de Birds of Prey, série a frente do seu tempo da antiga The WB -, Jessica Jones está plenamente consciente do desafio que é quebrar todos esses dogmas do gênero para introduzir algo novo e demasiadamente adulto ao público do universo cinematográfico da Marvel.

Visual distinto

Do tema de abertura que começa com tons detetivescos e alusões visuais à profissão de Jessica, mas se converte numa guitarra alta e num verdadeiro tema de heroísmo às escolhas estéticas que separam uma cena da outra, Jessica Jones continua o legado deixado por Demolidor no sentido de manter níveis altos não apenas em roteiro, como também em produção. Enquanto Demolidor caprichava numa ambientação sombria em que sons eram minimamente inseridos para espelhar as habilidades de Matt Murdock (e o modo como ele percebia seu mundo), em Jessica Jones o ponto é a visão de sua personagem principal: fora de foco, lutando por clareza cena após cena.

Reprodução

Tudo sobre a personagem reflete essa escolha visual. Suas roupas – diferente do padrão colorido ou super sexualizado de outras heroínas – são jaquetas escuras, jeans surrados e botas militares. Para Jessica, se vestir como uma pessoa real e inconspícua é não apenas uma questão de profissionalismo como também uma externalização do trauma que permeia suas ações. Não por acaso, no quesito ação, a série não possui cenas tão caprichadas quanto Demolidor. Jessica não é uma perita em artes marciais, mas é isso que faz dela uma lutadora mais real do que seu vizinho famoso. A protagonista luta como uma pessoa normal que ganhou super força. Ela empurra, ela chuta, ela não promove espetáculos coreografados, ela encerra assuntos brutalmente.

Um elenco afinado

Como toda boa história de super-herói, ela só é tão boa quanto a história de seus super-vilões. David Tennant, o eterno décimo Doctor de Doctor Who, se despe de toda sua simpatia orgânica e utiliza seu carisma para “o mal”. Como Kilgrave – vilão menor das HQs do Demolidor, criado nos anos 1960 por Stan Lee -, Tennant é magnético, mas não é sexy. Sua frieza é evidente tanto nas cenas em que apenas sua voz se destaca tanto em suas aparições sob a luz do dia. Como um homem capaz de controlar mentes por um artificio que – tal como os poderes de Jessica – não é esmiuçado, Kilgrave não é somente uma ameaça sexual e predatória, que pode evocar inúmeros paralelos com criminosos do mundo real, mas também representa algo maior. Cheio de soberba, o vilão é quase um símbolo do patriarcado já que, ao ser estripado de uma origem e motivações pessoais, ele representa todos os homens que usam a força para exercer seu máximo controle sobre aqueles (em especial, aquelas) ao seu redor.

Controle que, na verdade, pode ser entendido como o grande tema da série. A falta dele é não apenas o que motiva e perturba Jessica, como faz o mesmo com quase todos os personagens ao seu redor. Do vizinho viciado em drogas, passando pela melhor amiga que sobreviveu a inúmeros abusos dentro de casa, Trish Walker (nos quadrinhos, uma super-heroína conhecia como Hellcat) e pela advogada dúbia Jeryn Hogarth (Carrie-Anne Moss), cujo próprio divórcio está além de seu poder, até o problemático par romântico, Luke Cage, interpretado com segurança por Mike Colter (o perigoso Lemond Bishop de The Good Wife) que tenta refazer sua vida meses depois de ter perdido sua esposa. Não bastando seus dramas humanos, Luke Cage – que logo terá sua própria série da Netflix – é também um super-herói “em treinamento” cujos poderes também são deixados sem grande explicação.

Caso alguém que nunca tenha se familiarizado com os quadrinhos, ou mesmo com os filmes, esteja pensando se pode ou não assistir a série, a resposta é uma só: Com certeza. Jessica Jones, tal como sua personagem principal, anda com suas próprias pernas, tudo o que não está explicado em cena pode ser subentendido e a história se sustenta a ponto de, provavelmente, se tornar um dos melhores binges do ano para quem se arriscar a ver tudo de uma vez.

[Crédito das imagens: Reprodução e Divulgação/Myles Aronowitz/Netflix]


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