Irradiações – Estereótipos na construção de personagens de RPG

Nos dias 7 e 8 de novembro aconteceu o Encontro Irradiativo. Caso você não tenha lido ainda, vale muito a pena ler o Manifesto Irradiativo, inspirador do evento. O grande ponto do encontro era falar de produção cultural, mas se tem algo que eu aprendi é que muita coisa que se aplica a literatura, quadrinhos e assemelhados, pode ser usado no RPG.

Uma das mesas me trouxe vários insights a respeito da forma como construímos nossos personagens na hora de jogar RPG. Foi uma mesa sobre os malefícios dos estereótipos, que inclusive contou com uma das nossas Minas Nerds, a Cecilia Favo de Mel (as Minas estavam em peso lá).

Uma coisa para se ter em mente sobre estereótipos é de onde vem essa palavra. Um estereótipo é a mesma coisa que um cliché: uma placa de metal para impressão em massa. Um uso que eu vi muito de clichés quando era criança era que quando meu avô preparava uma página com tipos móveis, as imagens eram essas plaquinhas de metal, presas a uma base de madeira, parecidas com carimbos.

Todo o ponto de usar um estereótipo, a peça de impressão, é que você pode reproduzir centenas, milhares de vezes, a mesma imagem, sem variações.

clichê de impressão e exemplo
Um clichê de impressão, ou estereótipo, e a imagem que ele reproduz.

Quanto maior vai ser a tiragem, o número de cópias, mais você tem um sacrifício dos detalhes na imagem. A imagem tem algo de borrado que é difícil explicar: é uma imagem tosca, forma geral.

Um estereótipo é a tentativa de enfiar todo mundo de um grupo social em um mesmo molde. Um molde massificado e repetitivo, e que ignora as diferenças individuais. E pessoas que gostam de RPG, games ou qualquer tema “nerd” “geek” ou outro rótulo similar, já viram como é fácil para a sociedade tentar fazer qualquer subcultura ou tribo urbana se encaixar no estereótipo esperado dela. Isso é muito mais intenso para grupos sociais mais amplos e mais marginalizados.

O maior problema dos estereótipos também é visível lá na origem da palavra. Com um estereótipo eu posso imprimir centenas de vezes. Posso espalhar aquela imagem até o infinito e além. Nosso cérebro usa essas noções simplificadas para resolver aqueles dilemas do tipo “posso enfiar a mão no óleo fervendo?” – toda vez o óleo fervendo vai queimar, então eu posso classificar essa informação simplificada e ver a frigideira de óleo no fogo já vai disparar um alarme no meu cérebro para evitar uma queimadura. Nossa mente cai fácil na armadilha do estereótipo. É familiar, trás uma falsa sensação de segurança.

Estereótipos são terríveis por um motivo muito simples: eles grudam na gente. Criam expectativas sociais. As pessoas querem que você se encaixe no estereótipo, mesmo que isso não faça o menor sentido.

Quando estamos falando de mundos ficcionais, onde se tem uma ou duas páginas para explicar a cultura de uma espécie inteira, uma página para explicar um grupo social como uma tribo de lobisomem ou um clã de vampiros, meia página para definir as pessoas de uma religião, é muito fácil se deixar levar pelos estereótipos. E acabamos com o bônus de associar os estereótipos ficcionais com os do mundo real… e até mesmo sem querer, reproduzindo preconceitos e reforçando os clichês.

Mas não precisa ser assim. Mesmo quando pegamos aquela breve descrição sobre um arquétipo ou classe de personagem, vale o exercício de se observar e pensar: como seria se eu estivesse nesse lugar, nessa situação? E meus amigos, nesse mesmo arquétipo, como expressariam esse conceito? E meus familiares? Quais as variantes possíveis?

Pense por um minuto nas pessoas que você conhece que compartilham uma mesma religião, de preferência uma que seja familiar à você. Elas agem todas do mesmo jeito? A relação com o divino é igual só porque seguem a mesma divindade? Não, né? Mesmo que alguns pontos sejam comuns ao grupo, outros aspectos vão ser únicos.

A mesma coisa vale para a profissão. Todos as dentistas são iguais? Todas as arquitetas enxergam a arquitetura como a mesma coisa? Cada confeiteira vai ter sua própria forma de trabalhar e criar suas receitas. Eu trabalho como professora de arte, e posso dizer que por mais que tenhamos alguns elementos em comum, não encontrei nunca dois professores de arte que fizessem seu trabalho do mesmo jeito.

Muitas vezes, o preconceito está tão introjetado que os jogadores criam estereótipos que não estão nos livros. O mundo ficcional se mistura ao mundo real na categoria apagamento da individualidade. Quer um exemplo?

símbolo tribal das Fúrias Negras
As Fúrias Negras

As Fúrias Negras, uma tribo exclusivamente feminina do cenário de Lobisomem – O Apocalipse, são descritas nos livros como incríveis guerreiras, sim, mas acima de tudo, guardiãs dos locais ainda preservados do mundo, sábias cuidadoras que se dedicam a criar oportunidades para as mulheres em situação de opressão. O tempo todo os livros reforçam que as ações das Fúrias são em sua maioria ações políticas, que sua honra e senso de proteção são suas marcas registradas. Claro que existem ações violentas – lembra que estamos falando de lobisomens? – mas são quase sempre ligadas a vingança, ou às vivências violentas de uma espécie que vive em constante estado de guerra.

Mas a maioria dos jogadores transforma as personagens e NPCs Fúrias Negras em estereótipos da feminista babando sangue e odiando homens que é incapaz de racionalizar um argumento. E o que é uma tribo centrada nas mulheres e nas experiências do feminino é retalhado por estereótipos para ser sobre… os homens que elas enfrentam.

A visão distorcida das mulheres, do feminismo e das lutas sociais fazem com que até mesmo aquilo que os livros explicam com detalhes seja ignorado em prol do achatamento para caber no molde em que mulheres ligadas à causas políticas são espremidas no nosso mundo.

E como fugir disso? Quando vou criar meus personagens para jogar (ou meus NPCs) como evitar os estereótipos?

O cenário de Pathfinder tem entre seus personagens icônicos ótimos exemplos de como escapar da estereotipia. Um dos meus favoritos é o Harsk, o anão que é o personagem exemplo de Ranger. Um anão que gosta de beber chá ao invés de álcool e que prefere as vastidões selvagens do que os claustrofóbicos corredores sob a montanha. A descrição de Harsk inclui uma frase que gosto muito “Sem interesse na cerveja associada aos anões na mente da sociedade humana”. Quer dizer, o apreço de Harsk por chá ao invés de cerveja não tem nada de estranho, exceto na percepção estereotipada que humanos tem dos anões. Ele não é “um anão diferente dos outros”, ele é um anão diferente do que os humanos esperam dos anões.

Harsk, o anão ranger
Harsk, o anão ranger

Forma geral, os personagens icônicos de Pathfinder mostram que mesmo uma história que pode ser resumida em três ou quatro parágrafos um personagem pode ter etnia, espécie, identidade de gênero, orientação sexual que não se prendem ao molde do estereótipo. Porque eles são vistos como tridimensionais. Seelah, a paladina icônica, não é só paladina, mas também um indivíduo com vivências próprias. Assim, a forma como ela usa seu cabelo, sua percepção de mundo, se costuram para formar uma personalidade que vai além de sua devoção à deusa da justiça.

Para evitar os estereótipos e enriquecer seus personagens, alguns pontos de partida são:

  • Pesquise sobre o conceito que quer usar. Procure mais de uma visão sobre o tema, e construa seu personagem fundamentado nessas experiências. Isso vale para aspectos do nosso mundo (jogar com um personagem com uma expressão de gênero ou etnia que não é a sua) ou aspectos específicos do mundo fictício onde vai jogar.
  • Entenda o conceito de individualidade. Ninguém é um único aspecto de personalidade o tempo todo. Tente criar seus personagens com habilidades que reflitam sua história pessoal mesmo que isso não signifique uma vantagem óbvia para rolar dados. Pense em algumas perguntas simples que ilustrem como seu personagem vive e pensa fora dos momentos em que está no meio de uma aventura.
  • Respeite e vivencie a diversidade. Além de voltar para o ponto “Pesquise o que pretende fazer”, é importante lembrar que personagens diversos vão estar ancorados em uma realidade diversa. Todos os seus amigos pertencem exatamente ao mesmo grupo? Está na hora de ampliar suas vivências, heim. Todos os livros que lê tem os mesmos conceitos? Precisa ler umas autoras diferentes. Não é ser politicamente correto: é uma questão de verossimilhança. Somos pessoas de todos os tipos, e nossos universos ficcionais ficam mais ricos quando nos lembramos disso.
  • Saia da zona de conforto. Não se apegue a fórmulas que já usou. Gosta de jogar sempre com a mesma tradição/tribo/classe/raça? Comece a variar as possibilidades de variantes dentro disso. Será que todo elfo precisa mesmo ser aquela criatura exotificada com jeito de objeto sexual? Será que você precisa mesmo jogar de novo com um personagem que é do mesmo gênero e orientação sexual de todas as outras vezes? No que mudar isso pode trazer de interessante para o jogo? (eu incluiria aqui experimentar sistemas de jogo e cenários que valorizem a diversidade. Eu falei de Pathfinder e de Lobisomem (apesar de uns probleminhas), mas Blue Rose merece uma longa análise uma hora dessas, e existem mais centenas de sistemas e cenários para experimentar).
    Kyra, a clériga icônica.
    Kyra, a clériga icônica.
  • Tenha empatia. O que para você é só um jogo, uma experimentação lúdica em um ambiente seguro, pode ser a vida real de alguém. Então pense antes de dizer ou fazer algo que pode machucar seus companheiros de jogo, respeite as experiências de pessoas do mundo real que estão relacionadas aos temas do jogo (que podem ir de crianças em zonas de guerra, abuso físico ou psicológico, até a violência urbana, mas também relacionamentos complicados ou experiências com doenças, adicção ou situações familiares) seja não tratando de assuntos quando assim for pedido ou pesquisando para não repetir na construção do personagem preconceitos que você pode ter introjetados. E aproveite o ambiente seguro e lúdico para expressar essas possibilidades e por algumas horas, vestir as sandálias do outro.

Por hoje é isso, mas poderíamos ir muito mais longe nessa conversa. Espero encontrar suas opiniões a respeito por aí.


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