Precisamos falar sobre a diferença salarial entre mulheres e homens em Hollywood

Muito já foi dito sobre como as mulheres, até hoje, recebem salários menores que o dos homens, mesmo quando realizam as mesmas funções. Isso é uma pauta do feminismo há anos e a situação fica ainda pior se olhamos o quanto a mulher negra ganha.

Esse ano, não só o debate feminista ganhou mais força, mas também vimos muitas atrizes de Hollywood falando da questão da diferença salarial. No começo do ano, durante a cerimônia do Oscar, a vencedora do prêmio de melhor atriz coadjuvante, Patricia Arquette, disse que é hora de as mulheres terem igualdade salarial e seu discurso foi muito aplaudido.

O caso mais recente foi o dos e-mails vazados da Sony, revelando que as atrizes ganharam menos que os atores no filme Trapaça (2013). O que trouxe mais atenção ao caso foi a reação de Jennifer Lawrence, dizendo que estava cansada de precisar agir de jeitos específicos para ser “legal” e “adorada”. Jennifer não só ficou frustrada em ter ganhado menos (com toda a razão), mas também se culpou por não ter insistido mais, pois tinha medo de ser considerada muito chata.

Depois disso, várias atrizes apoiaram Jennifer, incluindo Julia Roberts, que aplaudiu a colega por expressar dessa forma algo que a incomodava. Por outro lado, Kate Winslet declarou que acha um pouco vulgar falar dessa questão de dinheiro de forma tão aberta.

De fato, não é todo mundo que se sente confortável falando de dinheiro em público e Kate está expressando sua opinião baseada em sua experiência, mas então por que é tão importante falarmos sobre isso? Por que cada vez mais as atrizes do cinema, olhando suas companheiras falando, começam a fazer coro e a dizer o que pensam, compartilhando suas próprias experiências?

É óbvio que, mesmo ganhando menos, Jennifer Lawrence está numa posição muito privilegiada e ainda ganha uma quantidade absurda de dinheiro, mas não é essa a questão aqui. A questão é que não é justo ela ganhar menos que os atores só por causa do seu gênero. Isso é algo tão importante que, depois de tanto tempo se esforçando para ser “adorada”, ela resolveu deixar isso de lado para expressar uma injustiça.

Quando paramos para olhar mais a fundo, não é só questão de não querer mais que gostem dela. Quando fala sobre o assunto, tanto ela quanto qualquer uma das outras atrizes mencionadas, a mulher corre o risco de ficar conhecida como “chata” ou, como estava escrito no e-mail da Sony, “mimada” por reclamar demais. Exigir receber o mesmo que o homem é “reclamar demais”? Infelizmente, para muitos, sim, a mulher precisa sentar e aceitar, qualquer coisa fora disso a faz uma pessoa irritante.

O pior disso tudo é que a questão não é só na diferença salarial, ainda há muito machismo dentro da indústria do cinema, não só na questão de representatividade das personagens, mas em como as mulheres que trabalham nessa área precisam enfrentar preconceito todos os dias. Enquanto os homens respondem perguntas sobre seus papéis e suas performances, as mulheres precisam falar de seus cabelos e suas roupas, além de terem a aparência julgada constantemente.

Então voltamos para a questão central: em um mercado no qual mulheres ainda precisam lutar pelo seu espaço, no qual, em várias categorias de indicados ao Oscar, não vemos nenhuma mulher, e as que conseguem a indicação, além de terem o trabalho desvalorizado, ao ganhar menos, precisam enfrentar manifestações de machismo diárias, por que falar desse assunto é tão importante assim? Por que correr o risco de falar, ter má fama e ainda mais dificuldade de conquistar seu espaço?

É um efeito cascata. É só ver, depois de Jennifer veio Julia Roberts, várias atrizes apoiando no Twitter, Rooney Mara e Amanda Seyfried falando que também passaram por isso em produções anteriores… E não para nas atrizes. Pessoas fora da mídia olham isso e percebem que não são só elas que enfrentam isso, que essa diferença salarial é um problema que afeta inúmeras mulheres. Então, já que afeta tantas, o que podemos fazer para mudar? É exatamente quando começamos a falar dos problemas e parar de escondê-los que conseguimos caminhar para a mudança.

O que é preciso lembrar é que muitas atrizes são conhecidas no mundo inteiro e, ao se tornarem figuras públicas, o que elas falam pode ter uma repercussão muito grande. Mulheres são ensinadas a aceitarem as coisas quietas, a não incomodarem ou contestarem, não só para agradar, mas também por medo de perderem um cargo ou terem problemas que podem afetar suas vidas.

Quando vemos alguém com a influência e a fama de Jennifer Lawrence, por exemplo, reclamando de tal forma de uma indústria grande e poderosa como Hollywood, não é só uma reclamação para que ela e suas colegas ganhem o mesmo que os homens: é um exemplo para que outras mulheres busquem fazer a mesma coisa. É compreensível que algumas prefiram não falar, na sociedade em que vivemos há milhares de motivos para que nós não nos manifestemos dessa forma, porém o diálogo sobre essas questões é importante. Precisamos falar publicamente sobre esses assuntos, precisamos mostrar que isso acontece e que precisa ser mudado. A representação das mulheres no cinema vai muito além das personagens que vemos nos filmes.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.