Estereótipos – As caricaturas que pintam de nós

Desde quando comecei a me preparar para participar da mesa sobre estereótipos no Encontro irradiativo  no dia 07 de novembro parei pra refletir muito sobre o assunto, desde a mídia até meus próprios trabalhos e experiências. E claro a mesa em si trouxe muitas outras reflexões e pontos de vista e foi ai que decidi abordar o tema aqui no nosso cantinho.

Sarah Helena elaborou muito bem o conceito de estereótipo em sua matéria pra nossa coluna de RPG aqui no Minas Nerds, porquanto vou começar direto dizendo que estereótipo é uma forma de resumir grupos inteiros em um único “personagem padrão” ou “caricatura”.

E é ai onde mora o problema: se por um lado facilita pras pessoas resumir outras a um conjunto marcante de características também é uma forma de apagar toda a diversidade daquele grupo, e por vezes inclusive ridicularizar, inferiorizar e insultar tal grupo. Um exemplo simples: a imagem estereotipada das mulheres, e aqui falo de forma geral, onde dizem que mulheres são frágeis, instáveis, dependentes, fúteis… e eu poderia citar mais e mais rótulos.

E onde a diversidade entra nisso?

Se estereotipar mulheres é uma forma de opressão machista, como ficamos numa sociedade racista, cisnormativa, heteronormativa? Ficamos no glorioso papel de piada, de aberrações, de indignidade, afinal é super legal que todo gay seja associado a fraqueza, a futilidade, a promiscuidade, toda lésbica a masculinidade, a grosseria, (lembrando que muita gente diz que não pareço lésbica! Mas eu sou… onde está seu deus agora?) e as pessoas bi e trans então? É de bater a cabeça no teclado o nível de degradação.

E os insultos não são todo o problema, mas também a visão limitada que isso gera de nós. Quando digo que sou trans e nerd por exemplo logo ouço “ah você gosta da Poison então? Já pensou fazer cosplay dela?” então… acho a personagem ok e ela ganhou força nos últimos tempos, mas definitivamente não me representa, alias nenhuma personagem trans da grande mídia me representa de verdade, toda personagem com personalidade, estilo ou outras características similares as minhas é cis.

Mas claro, temos artistas independentes, temos pessoas maravilhosas cuidando de quebrar esses padrões limitadores e sempre cito, como fiz na mesa diante da própria autora Germana Viana, a personagem Fran de sua HQ Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço, com quem não só me identifico mas também me trouxe reflexões lindas sobre minha imagem. Mas vou falar mais sobre ela num texto especifico futuramente!.

Um outro problema (sim, os problemas são muitos, observem!) é o quanto os estereótipos se perpetuam socialmente, a ponto das pessoas acreditarem que eles resumem características naturais e compulsórias a todos os membros de um grupo e nos tratam de acordo mostrando enorme surpresa quando nos mostramos diferentes daquilo. Algo como “como assim você é trans e não é barraqueira? Você não briga na rua nem de vez em quando?” ah claro, toda semana eu saio na rua pra provocar briga né? Só que não!

E fica pior quando as próprias pessoas de um grupo internalizam os estereótipos, notem contudo que não critico quem naturalmente se identifica como uma lésbica de cabelo curto, falo de quem acredita que deve se portar e seguir os estereótipos e/ou mesmo julgar outras pessoas por não os seguirem.

Mas estereótipos só servem pro mal?

Ai entra algo que Alliah/Vic Sackville falou na quarta aula de seu lindo curso “Como escrever personagens Trans” (ainda preciso enviar meus exercícios aliás!) “Mas tropos não são necessariamente ruins—você pode subvertê-los, virá-los do avesso, utilizá-los em contextos inusitados. Estereótipos também podem ser explorados com alterações criativas, mas para isso você precisa ter um bom conhecimento deles e se desprogramar de seus códigos.”

É ai onde entram as surpresas inusitadas. É onde com o devido cuidado podemos criar personagens que apesar de passarem pelos estereótipos também os contrapõe de algum modo até por que como mencionei acima, pessoas de um grupo podem sim possuir naturalmente traços de algum estereótipo.

Mas claro, estereótipos não são um problema só de quem cria conteúdo com personagens, é um problema de todas as pessoas, é algo no qual devemos tomar cuidado de modo geral com o que falamos, julgamos, com as piadas que fazemos ou mesmo com como pensamos e enxergamos as pessoas.

É importante vermos as pessoas em sua individualidade, conhecer com empatia, carinho e atenção e não apenas observar “lésbica, trans, nerd, albina” ou “negro, gay, engraçado” e completar as lacunas com os estereótipos referentes a cada um destes rótulos.

Espero que tenham gostado e até a próxima! :3


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3