Os grilhões da Slave Leia

Adrianne Curry

Com a chegada do novo filme de Star Wars, era inevitável que nos deparássemos com novas polêmicas em volta da franquia, mas a grande surpresa nos últimos dias, veio do assunto mais constantemente abafado pelo mercado nerd: o biquíni da Slave Leia (manterei em inglês por ser mais comum que “Leia escrava” entre os fãs). Quando me refiro a ser um assunto abafado, é porque não é, nem nunca foi novidade discutir a objetificação da Leia no mundo nerd (e não no contexto do filme, vejam bem). O que pouco se fala aqui no Brasil, é sobre como o assunto reflete diretamente nos eventos afora, quando o assunto em foco é o cosplay! Lá fora, o assunto já levou à palestras e brigas, o que com certeza me fez pensar muito se deveria ou não tocar no assunto…

Para quem participa ou acompanha ativamente do hobbie, sabe que esse universo está sempre exposto a todo tipo de crítica (quase sempre não construtiva) a cerca de muitos aspectos, entre eles o mais comum é a condição física do participante. Já ouvimos TODO tipo de observação absurda, seja sobre tamanho, cor, religião, sexo etc. Não há quem se salva quando o assunto é o chorume nerd, que ganha ainda mais força na internet. No entanto, é conhecido que a maioria das críticas se referem a qualquer cosplayer que não esteja da condição de “mulher sexy” (salva exceções do slutshaming, que vamos trabalhar no futuro), sendo que entendemos como “sexy” aquilo que atende aos desejos comuns à maioria dos homens héteros. A essa altura não é preciso explicar qual a conexão do assunto com a Slave Leia…

Existe uma tradição nas Comic Cons gringas de reuniões largas de cosplayers de Slave Leia. Elas são lindas, posam sensualmente, e levam a platéia ao delírio, juntas e acorrentadas,
sorriem para a foto. Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que isso NÃO é um ataque às cosplayers, ou àqueles que acham o biquíni uma coisa bonita de se ver. Não posso, não devo e nem vou dizer que escolha é certa ou errada, mas pretendo discutir um pouco sobre a divergência de opiniões, e eventuais complicações. Busquei alguns argumentos contra e a favor do uso desse cosplay, e gostaria de apresentá-los a vocês:

Porque usar a Slave Leia?

Ashlynne Dae, Elizabeth Rage, Rian Synnth e Hendo.

Por que eu quis! Assim mesmo, pura e simplesmente!! A motivação para a escolha do cosplay é muito particular… cada cosplayer tem seu próprio motivo para fazer qualquer personagem, que seja, e cabe somente a ele reconhecer sua motivação, até por que, não existem muitas opções comportadas no universo geek como parece…. E daí que possui uma conotação sexual? O desejo sexual é algo inteiramente natural, e as práticas dos fetiches mais diversos podem sim ser praticadas de forma saudável, com o comum acordo dos participantes. Desde que seja consensual, está valendo, e portanto se uma cosplayer escolhe por si só fazer uma Slave Leia, é consentido por dela!

A maior bandeira em defesa do uso do cosplay sexy, sem dúvida é o “empoderamento”, e a defesa do “meu corpo, minhas regras”. A mulher pode sim, se desejar, usar a roupa que lhe convém, e se ela tem total segurança de mostrar seu corpo por que lhe faz bem, ela tem esse direito. Ela passa a estar no controle decidindo por si só como quer ser vista ou lembrada, e ninguém tem nada a ver com isso.

De certa forma, é com o biquini que a Leia estava num de seus piores momentos, e mesmo assim superou ele destemidamente, agarrou as correntes e com as próprias mãos deu cabo de seu algoz. A simbologia das correntes sendo usadas para enforcar o opressor é tão forte, que é impossível não achar genial (não entrando no mérito de ter sido ou não intencional), e para muitas cosplayers, esse é o ponto que lhes traz total confiança, de estar lá, exposta mas nunca derrotada, pronta para revidar. É ver a Leia vencer essa criatura nefasta e desagradável, um dos vilões que certamente mais atrai asco da platéia, e ela é maior que ele.

E convenhamos… ela é muito sensual e bonita.

Poque não usar a Slave Leia?

Scruffy Rebel

Ok, você tem um fetiche pela Slave Leia… mas se estamos falando de um evento aberto ao público (no caso do exemplo, uma Comic Con qualquer), não é um local ideal para externar suas fantasias sexuais. Que tal mantê-lo para as festas apropriadas ao tema, ou para o particular? As pessoas precisam aprender a respeitar o espaço público, é uma questão de bom senso. O limite de sua liberdade é a liberdade do outro, e insinuar poses explícitas e interpretar momentos íntimos em público é bem invasivo, especialmente para crianças que ainda estão em formação. Não está simplesmente no que usa, mas como se porta com o traje.

A linha que divide o empoderamento da auto-objetificação é muito difícil de definir estando fora do contexto, apesar de termos alguns pontos a se considerar : quem detém o poder daquela situação. Ao buscar a própria sensualidade, muitas vezes caímos na armadilha de seguir exclusivamente a regra dos objetificadores, e não é difícil notar como os homens defendem assiduamente que uma personagem feminina tem que andar semi nua por “empoderamento”. É um argumento bem conveniente, um cara defender o feminismo somente nessa perspectiva. Acredito que o grande segredo está na postura: agir como dominadora, e não dominada é um bom começo…

Kiddo Cosplay

Sobre os momentos altos da Leia, eles são muitos! Em três filmes, ela demonstra ser auto confiante, determinada e inquebrável. Ela luta, atira, responde e nunca é abatida, até que alguém resolve colocar ela numa corrente, para ela quebrar e se vingar no final. De tantos momentos poderosos, de tantas roupas usadas, porque o mais lembrado, usado e citado, é justamente da escrava sexual? Vamos deixar bem claro aqui, escravidão sexual é uma realidade, não é como sabres de luz e droids de batalha! E é uma realidade bem grave! Quando as pessoas nos lembram que Vader também cometeu chacinas, ninguém acha que aquilo pode ser legal, ninguém (saudável) usaria com prazer uma camiseta com crianças padawans mortas cruelmente, por que então nós temos que ignorar que aquela cena trata de escravidão sexual para fazer dela algo legal?

Jabba era um vilão, e no contexto de vilão ele cumpriu muito bem seu papel levando a Leia ao seu estado mais humilhante, mas porque então achamos completamente natural uma multidão de nerds achando maravilhoso ver sua heroína rendida, pronta para satisfazer todos seus desejos mais profundos? Leia não escolheu estar naquele biquíni, ela foi obrigada!

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Independente das opiniões sobre o uso ou não uso do cosplay da Slave Leia, temos que respeitar todos os cosplayers. Mas talvez possamos usar o caso para refletir um pouco sobre empoderamento, objetificação, e como uma simples ficção pode afetar diretamente nossas vidas. Mas gostaria de deixar uma última conclusão, com talvez a única pessoa que merecia ser ouvida sobre o assunto:

Com a palavra final…

Niki Nix

Carrie Fisher: “Você deveria lutar pelo seu traje. Não seja uma escrava como eu fui...”

Vivemos num mundo cada vez mais desprovido de significados… levamos tudo por impulso, e pensamos pouco sobre a importância das coisas, a origem, a história, e o que ela pode representar. Convido a todas as cosplayers a pensarem sobre o por que de suas escolhas para um cosplay. Quem decidiu que aquela roupa era ideal para você? Quem te impediu de usar algo? O que ela realmente significa para você? Você realmente gosta dela, ou te fizeram acreditar que ela era ótima?

Seja qual for sua escolha, garanta que ela seja SUA, e de mais ninguém!

Libertem-se dessas correntes.

 

 

Alguns links em inglês:

Resolvendo o problema da Slave Leia

Slave Leia enfraquece ou empodera as mulheres?

Como o cosplay empodera as mulheres


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Dandi

Ilustradora, designer, cosplayer, gamer, fissurada em RPG e cinema. facebook.com/DandiCosplayer/