Palavra de tradutora

Regiane Winarski, tradutora

Boa parte dos livros que lemos (principalmente os relacionados à cultura nerd/geek) é de origem estrangeira. As editoras se esforçam para trazer ao Brasil best-sellers internacionais, a imensa maioria em língua inglesa. Edições bonitas são um chamariz a mais, principalmente para os leitores que colecionam livros e autógrafos. E dá-lhe título chamativo, capa caprichada, diagramação primorosa, revisão de texto impecável. No meio desse processo há uma figura essencial que, com frequência, é esquecida pelos leitores: o tradutor.

A boa tradução engrandece a experiência da leitura. Já uma tradução descuidada pode arruiná-la. Afinal, quando lemos um livro fluido, impossível de largar, tendemos a elogiar o escritor. Quando, ao contrário, o texto mais tropeça que caminha, aí, sim, lembramos de voltar à folha de rosto e conferir o nomezinho de quem cometeu a tradução. Do contrário, não prestamos atenção nele.

Vamos testar: quem aí, que não trabalha na área editorial nem tem parente ou amigo no ramo, lembra o nome do tradutor dos seus livros gringos preferidos? Não vale consultar. Poucas pessoas, aposto.

(Não se culpe se for o seu caso, tá? Eu mesma, antes de começar a trabalhar como revisora e, depois, tradutora, também não prestava muita atenção. Olha o vexame. Mea culpa. Mea maxima culpa. O importante é evoluir. Vam’bora.)

Então, para dar destaque a pelo menos uma entre os muitos profissionais responsáveis pela chegada de tantos livros queridos às nossas mãos, trago a vocês esta entrevista com a tradutora Regiane Winarski. Ela me contou um pouco sobre sua trajetória profissional e, de quebra, indicou livros que as minas vão adorar. Confira!


Regiane é freelancer. Entre suas traduções mais recentes está A Espada do Verão, primeiro volume de Magnus Chase e os Deuses de Asgard, nova série de Rick Riordan (Intrínseca). Também traduziu Doctor Who – Cidade da Morte, de Douglas Adams e James Goss (Suma de Letras) e contos do mesmo universo (Rocco), vários livros de Stephen King (Suma de Letras/Objetiva) e diversas obras de literatura fantástica, como a série Os Sete Reinos, de Cinda Williams Chima (Suma de Letras), além do belíssimo Livro das Criaturas de Harry Potter (Galera Record).

Sou apaixonada por livros, mas tenho uma predileção por fantasia, sci-fi, terror, suspense e livros para jovens.

 

Vamos começar pelo básico: como e quando você se tornou tradutora?

Sempre gostei muito de línguas e sempre me interessei por tradução, mas minha vida deu uma volta até eu chegar aqui. Primeiro, fui fazer faculdade de Engenharia Química, mas um tempo depois resolvi trocar por Produção Editorial, porque os livros tinham mais a ver comigo. Pesquisei muito sobre tradução nessa época e até fiz meu TCC sobre isso. Mas a realidade das editoras era complicada na época, e a minha paixão pelo inglês tinha me levado a fazer um curso de licenciatura curta (que nem existe mais) em paralelo à faculdade de PE, para poder dar aulas. Quando ainda estava na faculdade, comecei a dar aulas de inglês em dois cursos grandes do Rio, e acabei ficando nisso por 10 anos. Só quando minha filha nasceu e comecei a ter dificuldade de conciliar horários, pois queria também me dedicar a ela, foi que resolvi parar de dar aulas e investir em tradução. Foi o momento certo para mim. Passei o ano de 2007 estudando e procurando oportunidades, e em 2008 consegui ir entrando aos poucos no mercado. Comecei traduzindo romances de banca da Harlequin e fazendo legendas para canais Globosat, e algum tempo depois as oportunidades em outras editoras foram surgindo. A partir daí, eu me encontrei e nunca mais pretendo parar.

 

Você traduziu um pouco de tudo, mas no seu histórico chamam a atenção sagas de literatura fantástica. Tem predileção por esse gênero? Foi escolha ou acaso?

Eu sou uma apaixonada por livros, mas, sim, tenho uma predileção por fantasia, sci-fi, terror, suspense, e curto demais livros para jovens. É um grande prazer poder trabalhar justamente com os tipos de livros que mais amo. Quando a gente começa no mercado editorial, não tem muito como ficar escolhendo o que vai fazer, então eu diria que foi uma certa dose de sorte mesmo. Acho que faço bem o meu trabalho porque faço com muito amor.

Toda leitura ajuda a combater preconceitos. A informação e o conhecimento são as melhores armas.

 

Também traduziu Garoto Encontra Garoto e Dois Garotos se Beijando (Galera Record), de David Levithan, romances celebrados pela forma como retratam a diversidade sexual entre os jovens. Acha que o público de hoje recebe melhor livros que lidam com a homossexualidade? Acredita que essas obras ajudam a acabar com o preconceito?

Sim! Acho que o público não só está preparado para esse tipo de livro, mas também precisa deles. A gente cai naquela questão da representatividade, no quanto ela é importante. Fico pensando em quantos amigos meus teriam se beneficiado com leituras como essas na época em que eu era adolescente, no final dos anos 80 e começo dos 90. Os jovens de hoje querem ler sobre isso, têm mais coragem e mais espaço pra se revelar, têm mais espaço pra serem solidários, e eu acho isso tudo muito lindo. Nem tenho como descrever a alegria imensa que foi traduzir esses livros (fora que o Levithan é um escritor genial, com textos maravilhosos, um desafio e um prazer sem fim de trabalhar). Dois garotos se beijando é uma das coisas mais incríveis que já passaram pelas minhas mãos. Além desses dois, traduzi One Man Guy, do Michael Barakiva, outro excelente livro LGBT para adolescentes, e o “livro-musical” Me Abrace Mais Forte, também do Levithan, que é o roteiro do musical que retrata a vida de Tiny Cooper, um personagem (gay) do livro Will & Will, que ele escreveu com o John Green. (Tem mais um desse gênero que ainda está no prelo e é muito lindo, torço para que saia logo.)

E acho, sim, que a leitura, toda leitura, sobre tudo, ajuda a combater preconceitos. A informação e o conhecimento são as melhores armas pra lutarmos contra isso. Fico feliz cada vez que traduzo um livro que desvia um pouco da curva-padrão justamente pelo tanto que ele pode levar o leitor a repensar e reavaliar suas opiniões.

 

Aqui no Minas Nerds a gente se preocupa bastante com a representatividade das mulheres — na literatura, no caso desta coluna. Por favor, recomende às nossas leitoras algum livro com personagens femininas que você tenha traduzido e ache que nós precisamos conhecer!

Taí outra coisa que eu amo: traduzir livros com personagens femininas fortes. Precisamos de mais minas poderosas na literatura, sem dúvida, mas, no meu histórico de trabalho, tenho duas a recomendar que acho incríveis. Primeiro, tem a série Ordem da Leoa, da Diana Peterfreund, que até o momento conta com dois livros, Caçadora de Unicórnios e Alma da Fera, ambos publicados pela Galera Record. A personagem principal, Astrid, é uma caçadora de unicórnios, que não são seres fofinhos e bonzinhos e cintilantes, mas sim criaturas do mal que matam sem piedade. Gosto muito do desenvolvimento da personagem, da força dela, de como ela vai se conhecendo e se descobrindo e fazendo suas escolhas. A série ainda não foi concluída, a autora não escreveu o último livro ainda, então aguardo ansiosamente para saber como ela vai fechar a história da Astrid. A outra série que recomendo é justamente Os Sete Reinos, da Cinda Williams Chima, publicada pela Suma de Letras, que tem toda uma visão atípica das mulheres na literatura de fantasia. Para começar, o reino principal dos sete da história tem rainhas como soberanas! A linha de sucessão é toda feminina, e a Raisa, personagem principal, é uma adolescente/mulher incrível. Nessa história, gosto de como ela percebe seu lugar na sociedade em que vive e decide se impor e não se deixar levar pelos homens, que sempre querem manipulá-la.


 

Torço para que você tenha achado as respostas da Regiane tão inspiradoras quanto eu achei. E faço um convite: toda vez que você topar com uma boa tradução, DIGA ISSO. Elogie. E, se topar com um livro traduzido e não creditado, avise à editora e peça que esse erro seja corrigido. Confira a campanha Nome do Tradutor, criada este ano pela Abrates para dar mais visibilidade aos profissionais do ramo, com as hashtags ‪#‎nomedotradutor‬, ‪#‎cadeotradutor‬ e ‪#‎quemtraduziu‬. Valeu!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.