#SomostodasJessicaJones

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– Com Louise Raphaella Carvalho –

Em 2001, a Marvel Comics resolveu lançar uma linha de quadrinhos “proibidos” para menores de idade, intitulada “Marvel Max”. – Eram  histórias com conteúdo adulto, explícito, violento e sexual – beeeem diferentes dos quadrinhos coloridos de super-heróis com capa e uniformes espalhafatosos, que construíram a popularidade da marca.

O primeiro título dessa nova linha foi “ALIAS”, escrita por Brian Michael Bendis e ilustrada por Michael Gaydos. A ideia primária para ALIAS era ter como protagonista Jessica Drew (Mulher-Aranha), mas com o passar do tempo e o desenvolvimento da história (que acabou envolvendo muito do Universo Marvel e corria o risco de gerar falhas de continuidade), Bendis decidiu criar uma personagem totalmente nova. Jessica Jones fez sua primeira aparição em “Alias #1” no ano de 2001 – embora mais tarde tenha sido dito que a personagem aparece em “Amazing Spider-Man #4”, de 1963. Para afirmar a linha do tempo apresentada em ALIAS, uma garota não-identificada que aparece rapidamente no meio de outros alunos, instigando uma luta entre o Homem-Aranha e o Homem-Areia, foi apontada como Jessica Jones. Mas isso não faz tanta diferença assim, então bola pra frente:

Jessica Jones é uma personagem bastante poderosa. Além de força sobre-humana e resistência a ferimentos, ela tem o poder de voar. Também é uma ótima detetive (uma das melhores, senão a melhor, da editora) e talentosa jornalista. Assombrada por traumas do passado, é uma das personagens mais complexas da Marvel, tendo que se esforçar para vencer a si mesma e aos desafios em seu caminho para viver.

E já está na hora do mundo conhecer sua história.

LAR MOORE PARA CRIANÇAS REBELDES

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Jessica Campbell Jones cresceu cercada pelos personagens populares da Marvel. Ela estudava em Midtown High, a mesma escola de Peter Parker – tendo inclusive um crush no futuro Homem-Aranha – e estava presente no dia em que ele foi picado pela aranha radioativa. Um dia depois disso, Jessica e sua família (pai, mãe e irmão) partiram numa viagem de carro para a Walt Disney World, pois seu pai havia ganhado tickets de seu patrão, Tony Stark. Jessica não tinha uma relação muito saudável com seus pais e irmão mais novo, mas também não desejava nada do que aconteceria com eles.

Durante a volta para casa, Jessica se desentendeu com seu irmão e isso distraiu seu pai, que o levou a se envolver em um acidente, colidindo com um comboio militar que transportava material radioativo. Sua família inteira morreu na ocasião, mas Jessica sobreviveu e entrou em coma.

Depois de passar cerca de 6 meses em coma, a adolescente desperta no dia do primeiro combate entre o Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado contra Galactus – evento que espalhou uma enorme quantidade de radiação cósmica no planeta Terra. Sozinha no mundo, Jessica é enviada ao “Lar Moore Para Crianças Rebeldes” e, posteriormente, adotada pela família Jones. Ao se recuperar totalmente, ela descobriu que o material radioativo que matou sua família lhe presentou com habilidades sobre-humanas, tais como resistência, força e voo.

Sua nova família a re-matriculou em Midtown High, onde foi isolada por seus colegas, sofrendo bullying de Flash Thompson. Peter Parker tentou fazer amizade com Jessica nesta ocasião, sentindo que poderia ajudá-la a superar sua tragédia, já que cresceu sem os pais. Mas ela não admitiria que ninguém sentisse pena dela, nem mesmo ele e fugiu dali. Durante sua fuga, Jessica descobriu que tinha o poder de voar, mas acabou perdendo o controle e caindo no rio Hudson, onde foi resgatada por ninguém menos que Thor.

Embora tivesse cortado relações com Peter, mal sabia ela que seria ele sua inspiração para lutar contra o crime. Bem, não exatamente Peter, mas seu alter-ego, Homem-Aranha, em uma batalha contra o Homem-Areia. Jess, então, resolveu usar suas habilidades para fazer o bem.

Jessica Jones assumiu o codinome “Safira” e deu início à sua vida heróica. Com o cabelo pintado de rosa e uniforme branco, ela foi feliz durante 4 anos lutando contra o crime. Claro que Jess não era uma heroína famosa, como Homem-Aranha por exemplo, mas fazia sua parte salvando vidas aqui e ali. Durante essa época, ela fez amizade com vários super-heróis, se tornando melhor amiga de Carol Danvers, a Miss Marvel (agora, Capitã Marvel).

Mas, nossa vida dá voltas. E o que aconteceu com ela enquanto tentava lutar contra o crime, a mudou  para sempre.

ZEBEDIAH KILLGRAVE – O HOMEM-PÚRPURA

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A vida de Jess Jones é dividida em praticamente duas fases : antes e depois de Killgrave. Para entender o que se passou, é preciso conhecer este vilão:

Zebediah Killgrave era um espião internacional que, em uma de suas missões, se infiltrou em uma refinaria química e acidentalmente teve contato com o material nocivo.

Os efeitos causados por esse contato fizeram com que sua pele e cabelo adotassem a coloração roxa. Capturado e interrogado, Killgrave apresentou um álibi fraco e inadequado para seus captores e se surpreendeu por eles terem acreditado no que disse e o soltado.

Foi preciso que  outros acontecimentos semelhantes ocorressem  para que ele percebesse que o material químico não havia afetado seu corpo apenas superficialmente. Ele havia adquirido o poder de controlar pessoas mentalmente. Sendo um homem sem escrúpulos, megalomaníaco e cruel, isso o transformou em um vilão extremamente perigoso.

Autointitulando-se Homem-Púrpura, Killgrave deu início à sua carreira criminosa, que figurou as páginas do Demolidor, Age of Apocalypse, Emperor Doom, entre outros.

Em um de seus ataques, seu destino cruzou-se ao de Safira. A heroína atendeu a um chamado da polícia para controlar uma briga generalizada que acontecia em um restaurante. Chegando, Jessica deu de cara com um homem de pele roxa, vestido elegantemente e que não pensou duas vezes para transformá-a em sua vítima e escrava mental.

O poder de Killgrave é diferente da maioria dos demais controladores de mentes que vemos nos quadrinhos, porque ele não “aprisiona” ninguém, as pessoas sob seus comandos não agem como autômatos e suas ordens não são executadas contra a vontade da vítima.

Ele trabalha no mais profundo de subconsciente.  De alguma forma, o criminoso entra na mente das pessoas e faz com que elas queiram executar suas ordens e sintam que estão fazendo tudo por vontade própria.

Killgrave faz com que as pessoas SINTAM como se quisessem ter feito aquilo, o que torna a já terrível experiência de ter a mente controlada por outra pessoa, em uma obscura confusão mental, cujo limiar entre vontade e indução é incerto.

As vítimas de Killgrave geralmente eram usadas e descartadas rapidamente, mas Jessica Jones, até por ser uma super-heroína, tornou-se sua preferida. A partir de então, um roteiro perturbador, macabro e violento toma conta da vida da personagem, trazendo à tona assuntos profundos e muito importantes, como veremos a seguir.

É O JEITO DELE

Por que a série da Jessica Jones vai ser TÃO importante para tantas mulheres? Porque todo esse papo de controle mental e fazer a vítima sentir como se quisesse ter feito algo que na verdade não queria  é, INFELIZMENTE, muito comum para nós, mulheres.

Obviamente, no caso dos quadrinhos é uma alegoria, um poder fantástico, simbólico. Mas na vida real ele é presente, de outras formas, naturalmente, mas igualmente  DEVASTADOR. Causador de muita dor, humilhação, traumas, depressão e morte.

Durante 8 meses Jessica Jones foi obrigada a viver com Zebediah, sendo torturada física e psicologicamente por ele. Killgrave fazia com que ela sentisse vontade de assistir a suas orgias com garotas menores de idade que ele também controlava; pior, ele fazia com que ela também desejasse participar de tais orgias; desejasse transar com ele; sentisse que estava loucamente apaixonada por ele. Fazia com que ela o admirasse  total e cegamete,  implorasse por sexo; era induzida a dar banho nele; deitar aos pés e preferir dormir no chão e a machucar pessoas. E ele fazia com que ela sentisse que queria, muito, fazer tudo isso. Abuso puro. Violência pura.

Agora digam: Frente a tantas atrocidades, abusos e femicídios com os quais nos deparamos todos os dias, pelas redes sociais e até na vida pessoal : Quantas mulheres são vítimas de violência hoje, no Brasil e no mundo? Essa violência É a MAIOR causa de femicídio registrada até então. Cerca de 83,5% das mortes de mulheres envolvem familiares ou parceiros. Segundo a ONU, 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram violentadas ou VÃO ser, em algum momento de suas vidas.

E quando falamos sobre violência, não estamos nos restringindo somente à física. Sabemos que, por violência, definimos por qualquer  espécie de coação ou forma de constrangimento, posto em prática para vencer a capacidade de resistência de outrem.

A violência psicológica é velada, silenciosa e tão destruidora quanto a física. Cerca de 31% das denúncias anônimas são sobre abusos psicológicos, segundo dados da Central de Atendimento à mulher,

Por ser subjetiva e, por isso, de difícil percepção alheia, a violência psicológica, na maioria dos casos, é subestimada e negligenciada até por quem a sofre – afinal, muitas mulheres acham que se trata de ciúmes, controle, humilhações, ironias e ofensas “naturais” de qualquer relacionamento. “É o jeito dele”- é que o que a maioria diz. Até porque muitas meninas/mulheres não possuem referência do que seria um relacionamento saudável.

E como saber se o seu relacionamento é saudável?

Segundo a OMS, é identificada como VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA:

“Qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”

Ou seja, se ele:

-Quer ditar ou critica de modo grosseiro, o jeito como você se veste, pensa, come ou se expressa. (fala, anda, se mexe, etc)

-Critica toda e qualquer coisa que você faz; tudo passa a ser ruim ou errado.

-Desqualifica suas relações afetivas, ou seja, amigos, colegas de trabalho  ou mesmo sua  família “não prestam”, fazendo você se afastar de todos

-Te xinga de “vadia”, “imprestável”, “retardada”, “vagabunda”, “burra”, “incapaz”, “feia”, “gorda” “magrela” ou usa  qualquer outro apelido depreciativo, considerando tudo uma brincadeira…

– Te expõe a situações humilhantes e chama sua atenção em público

-Critica seus gostos, crenças, medos e traumas. Te ameaça, caso você não aja de acordo com o que ele quer/pensa.

-Quer te “ensinar” tudo sobre toda e qualquer coisa. O tempo todo.

– Já te fez desistir de sonhos, carreira, planos e outros relacionamentos em detrimento ao relacionamento de vocês

-Quando você reclama de seu comportamento ou quer discutir sobre a relação ou sobre  algo que te machucou ele diz que você está: “louca”, “delirando” que não foi “nada disso” e te faz duvidar até de sua própria memória ou cognição das coisas.

Bem, caso disse SIM a qualquer uma dessas frases, você está sofrendo abuso psicológico em seu relacionamento. E precisa de ajuda.

Jess só conseguiu se livrar da escravidão de Killgrave durante um acontecimento ainda mais traumático.

JESSICA JONES vs VINGADORES

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Certa vez o vilão ficou descontrolado com uma manchete jornalística envolvendo o Demolidor, e enviou Jones com a missão de matar o Homem sem Medo. Confusa e sem discernimento, a heroína acaba atacando a primeira pessoa com uniforme vermelho que aparece em sua frente. Neste caso, foi a Feiticeira Escarlate.

Assim que ataca Wanda, também conhecida por seus poderes psiquicos, Jessica recupera o controle de sua mente e, assustada com a possibilidade de ser atacada pelos Vingadores e/ou Defensores, tenta fugir. Contudo, é encontrada e brutalmente espancada por Visão e Homem de Ferro – que não sabiam de seu estado de controle mental.

Foi  só com a ajuda da mutante Jean Grey que, entrando em sua mente, forneceu um interruptor psíquico para impedir que o Homem-Púrpura a controlasse novamente, que Jessica conseguiu despertar. Depois de vários meses em coma e recuperação, os Vingadores pediram desculpas a ela e, inclusive, convidaram-na  a participar do grupo como uma ponte com a SHIELD. Contudo, toda a experiência traumática que viveu fez com que Jessica recusasse a oferta e largasse de vez o manto de Safira e a vida como heróína.

Ela resolveu se tornar uma detetive particular, viver longe desse mundo heróico e abrir seu escritório.

ALIAS Investigações

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Rapidamente ela se tornou implacável em sua nova carreira, já que utilizava não apenas sua inteligência, mas também suas habilidades para resolver os casos de seus clientes. Infelizmente a ferida aberta por Killgrave nunca se fechou totalmente e Jessica não voltou a ser o que era antes. Para anestesiar a dor, ela usa álcool, cigarros e sexo casual. E será a partir daí que a série vai mostrar toda sua luta para recuperar sua verdadeira identidade e quem sabe, encontrar a paz interior.

Jessica Jones é, sem sombra de dúvidas, uma das heroínas MAIS HUMANAS da Marvel. O retrato da mulher REAL, comum, vítima de abuso, de um relacionamento-prisão, que se sente humilhada e culpada por ter acreditado, por não ter percebido, por ter deixado que as coisas chegassem a esse ponto, que se esquece de si mesma, que tenta seguir sua vida e encontrar seu caminho e sua identidade depois de ter tido seus sonhos e espírito esmigalhados por um relacionamento abusivo.

Não à toa Brian Michel Bendis ganhou duas vezes o prêmio Eisner com Alias, em 2002 e 2003.

Jessica esteve presente em grandes sagas da Marvel como Guerra Secreta, Guerra Civil, Invasão Secreta, Reinado Sombrio e se tornou líder dos Novos Vingadores.

SEJA SUA HEROÍNA

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Se você é vítima de violência psicólogica e quer ajuda, s Secretaria de Política para Mulheres tem um disque-denúncia que funciona 24 horas por dia. Basta discar o número 180 para ser atendida. As denúncias são recebidas e encaminhadas à Segurança Pública e ao Ministério Público de cada estado. E lembre-se: Você NÃO TEM que aguentar nada. A culpa NÃO É sua. Existe uma LEI em vigor e ela é válida para você. A delegacia e qualquer orgão público relacionado ao assunto são OBRIGADOS a te atender.

E você não está só.  A internet é fonte de muita coisa ruim, mas de muita coisa boa também e hoje temos grupos de apoio e coletivos feministas que atendem mulheres vítimas de violência física e psicológica como o Mulheres.org

E o MinasNerds vai estar aqui para você, sempre, se quiser conversar sobre isso em um ambiente seguro e acolhedor. – facebook/groups/minasnerds


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop. Criadora do MinasNerds. "Out here, everything hurts. You wanna get through this? Do as I say."