Mulheres cientistas e filhos

A expressão “maternidade e carreira científica não combinam” e todas as suas variações ecoam nos corredores do ambiente científico como um vento que assobia muito baixo, mas, de forma persistente. Como é constante, muitas vezes deixamos esse tipo de pensamento influenciar decisões em relação ao planejamento familiar e à carreira. A existência do vento fez com que uma de minhas colegas escondesse a gravidez por meses de sua orientadora de doutorado com receio da resposta da mesma perante o fato.

Eu já escutei um dos grandes chefes de departamento dizer : “- Iiiiiiihhhh, depois você tem filho …” quando conversámos sobre meus planos de carreira. Ele sugeriu que eu não conseguiria alcançar meus objetivos se tivesse filhos. O vento que assobiava baixo, agora gritou: “Sua carreira vai acabar”! Já ouvi mentoras dizerem que o sucesso de uma mulher na ciência dependia de uma empregada e uma babá. Também escutei mulheres cientistas dizerem que se sentem culpadas por não dispor de muito tempo com os filhos. Descobri os textos publicados no cientista que virou mãe que relatam as mudanças na carreira devido à maternidade (recomendo a leitura!). A autora do site, Ligia Moreiras Sena, conta que a maternidade a fez mudar seus planos de carreira na área de farmacologia e  inspirou seu ingresso em um segundo doutorado com foco em saúde coletiva. Também li o artigo publicado na revista Nature que descreve depoimentos de uma forma idealizada de futuras mães que supõem que a maternidade pouco irá influir em suas carreiras. Também vi a declaração de uma cientista que descreve como o companheirismo de seu marido na criação dos filhos foi fundamental para ela conseguir uma posição no MIT.

Como é a vida de uma cientista que também é mãe? Desde o início da minha trajetória na ciência, tive oportunidade de vivenciar muitas jornadas de colegas que optaram em serem mães em diferentes fases da carreira científica. Eu convidei a pesquisadora do Instituto Butantan, Ruth Vassão, para relatar brevemente e sem idealização sua experiência em relação à ciência e à maternidade. Ruth conseguiu educar seus filhos que agora estão crescidos e também alcançou o topo da carreira científica em um instituto de pesquisa. Ruth teve seu primeiro filho, Fabiano, enquanto estava na graduação cursando biologia (USP) e sua segunda filha, Carolina, durante o mestrado no Instituto de Ciências Biomédicas (USP), na área de Imunologia. Com filhos pequenos, Ruth ingressou no doutorado também na área de Imunologia. Depois, ela fez seu pós-doutorado na Alemanha no Instituto Max Planck e na Universidade Albert Ludwigs de Friburgo. Durante esta fase, seus filhos já eram adolescentes e ficaram no Brasil com o seu companheiro por 6 meses.

De Ruth, para vocês:

Para você que é (ou pretende ser) cientista e mãe  (o que aprendi):

Foto_Ruth
Ruth Vassão: pesquisadora nível VI do Instituto Butantan. Foto: Fabiano Vassão

Saiba, não são duas coisas excludentes, mas a conciliação absoluta não existe…esqueça!

Você se sentirá sempre dividida: em casa, pensando no laboratório, no que fez, no que deixou de fazer, no que precisaria e/ou gostaria de ter feito… No laboratório, imaginando se as crianças estão bem, no que elas estão fazendo, se precisariam estar sendo assistidas por você naquele exato momento, etc e etc… Ou seja, esteja preparada pra sentir saudades sempre, seja dos seus filhos quando está trabalhando, seja do laboratório quando está com as crianças! rsrs…

A frustração é inevitável e temos mais que nunca que estar preparadas para lidar com ela, porque a conciliação perfeita entre ser cientista e mãe (principalmente de bebês e crianças pequenas) é utópica.

Como pode uma frágil mortal responsabilizar-se por uma tarefa que exige dedicação absoluta, em paralelo com um desprendimento ainda maior?!?

Saiba não se exigir demais, não ser perfeccionista ao extremo, porque do contrário, não só a frustração, como também a temível e tão deletéria culpa fatalmente aparecerá…

Não há receita, meninas, e nem garantia de acerto… mas apesar de todo o medo, quando vocês olharem para trás, verão como é/foi tão absolutamente apaixonante ser cientista e mãe!

Tenham certeza que eu estarei aqui torcendo para que todas vocês vivam ambas as experiências, tão ricas quanto maravilhosamente recompensadoras!

Fontes:

Foto de destaque: Foto modificada que mostra células-filhas ¹, foto original encontra-se no link https://www.flickr.com/photos/uned/5558508448

Para as demais referências: Clique nas palavras em negrito.

¹ Já parou para pensar: Por que no processo de divisão celular as células originadas são chamadas de células-filhas ao invés de filhos? Não é só uma questão de concordância da nossa língua, pois até na língua inglesa  o termo – daughter cells – é relacionado  à capacidade feminina de gerar, isto é: ser mãe. Somente as células filhas poderão ser mães no futuro. 😀

Agradecimento:

Tamiris Santos Pessoa pela revisão de texto.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.