Jogos Vorazes: A Esperança – O Final | Não Esqueça os Erros da Capital

A saga de Jogos Vorazes chegou ao fim. Depois de três anos desde o lançamento do primeiro filme, Jogos Vorazes – A Esperança: O Final conclui a história de Katniss e da guerra dos distritos contra a Capital.

O filme começa de onde a primeira parte parou: Peeta está sofrendo com a lavagem cerebral feita pela Capital, acreditando que Katniss é um monstro, enquanto o Distrito 13 continua bolando planos para derrotar o presidente Snow. Depois de ser ferida em combate e ser usada inúmeras vezes apenas como objeto de propaganda, Katniss foge do Distrito 13 e entra na batalha novamente, fazendo que a maior parte do filme se passe no campo minado que a Capital virou.

A Esperança: O Final se junta a Em Chamas como os melhores da franquia. Apesar de ainda possuir alguns problemas de ritmo e momentos com explicações excessivas que cansam, o último capítulo da saga consegue manter o espectador preso na cadeira. Em certos momentos ficamos tensos com o que acontece na guerra da Capital, e em outros ficamos comovidos com as vidas perdidas.

Jennifer Lawrence carrega o filme nas costas e, enquanto alguns momentos mais românticos entre Katniss e Peeta ainda parecem forçados e desnecessários, a emoção que ela coloca na protagonista é essencial para a história – não só nos momentos em que Katniss chora ou fica nervosa, mas em cada gesto carinhoso com Prim, cada momento de decepção que tem com Gale, cada comentário sarcástico que faz quando é usada como objeto e ignorada como pessoa.

É compreensível que o filme evite violências mais gráficas em seus momentos de ação, considerando o público alvo, mas mesmo assim consegue passar uma sensação pesada de guerra para quem está assistindo. O triângulo amoroso infelizmente ainda está ali, que também existe para agradar o público – apesar de em certos momentos funcionar, ainda passa um ar forçado que poderia ter sido substituído por outros momentos da trama.

Infelizmente, o filme perde o ritmo mais visivelmente no final; mesmo com cenas muito fortes e importantes, alguns momentos simplesmente parecem passar rapidamente. O filme peca, mas conclui bem a trama e consegue trazer críticas à sociedade muito importantes para o olhar de um público mais jovem.

Então vamos nos aprofundar um pouco nessas críticas. A partir de agora, o texto conterá spoilers.

Desde o primeiro momento, a saga Jogos Vorazes fez críticas muito pertinentes à nossa sociedade, como a desumanização das pessoas, transformando-as em entretenimento e o dano que isso pode causar. Os jogos são o maior exemplo disso: crianças são mortas para controlar e ao mesmo tempo entreter a sociedade. Esqueça que você e seus filhos passam fome, vire a cabeça para a televisão e veja como esses tributos querem vencer. Não só as crianças são mortas, mas os tributos vitoriosos sofrem inúmeros abusos, como é o caso de Finnick, que sofria abusos sexuais na Capital.

Esse último filme leva essa questão da sociedade do espetáculo para o extremo: No meio de uma guerra, com pessoas morrendo, existe uma unidade do exército feita para servir de propaganda. Um dos maiores exemplos disso é quando Snow e Coin acreditam que Katniss morreu e, em vez de qualquer um deles checar os fatos e se preocupar com ela (o que não era esperado de Snow, mas era de Coin), eles lutam por espaço na televisão para usar a morte dela como propaganda para um dos lados.

Podemos mesmo sacrificar a humanidade de certas pessoas para manter a máquina funcionando? Essa questão de quanto alguém vale também é mostrada com Gale, que salvou pessoas inocentes no seu distrito e agora abria mão de vidas inocentes porque “a guerra é assim”. Ele vai além disso e diz que qualquer pessoa que esteja na Capital é inimiga, ignorando que muitas não teriam o poder de dizer não. Um faxineiro da Capital teria outra alternativa para alimentar seus filhos? Será que todos que vivem lá podem ser considerados culpados?

Apesar de essas questões serem muito presentes e importantes para o filme, para mim existe mais uma crítica muito importante. Vemos na primeira parte de A Esperança Coin sendo muito diferente de Snow, mas ao longo do filme ela vai começando a fazer algumas coisas que a Capital também faz. Em A Esperança: O Final ela está bem mudada, usando artifícios de manipulações de massa da mesma forma de Snow usa para vencer, inclusive chegando ao ponto de sacrificar os seus para vencer a guerra. Quantas nações atualmente não fazem o mesmo com a sua população?

Katniss percebe que existe um segundo Snow crescendo e ficando até mais perigoso. Na cena em que vemos a execução do ex presidente da Capital, Coin aparece assumindo o lugar de Snow e Katniss vê que o problema vai se repetir, por isso resolve matar o novo inimigo antes que algo pior possa acontecer.

O mais triste e cruel que o filme mostra é que não só Coin é contaminada pela sede do poder, se tornando aquilo que odiava e queria derrotar. Gale, que já mencionei, começou a descartar vidas, algo que ele não aceitaria antes, mas o maior exemplo é uma das minhas cenas preferidas: a reunião entre os tributos no final para decidir se vão continuar existindo Jogos Vorazes. Todos eles tinham passado pelo terror dos jogos, mas muitos não hesitaram em fazer o mesmo com os inimigos. A cada novo ato de vingança, a humanidade vai se perdendo. Muitos dos que lutavam contra as atitudes da Capital foram a favor de um dos atos mais cruéis que ela cometia. Já diria Harvey Dent: ou você morre herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão.

Para concluir, o próprio filme fecha essa reflexão com a frase na carta de Plutarch para Katniss:  “O pensamento em prol do coletivo normalmente possui vida curta. Somos seres volúveis e idiotas com uma péssima capacidade para lembrar as coisas e com uma enorme volúpia pela autodestruição”. Em outras palavras: “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Duvida? É só olhar a perigosa onda conservadora surgindo nos últimos tempos. Não lembramos e estamos repetindo.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.