Festival Internacional de Quadrinhos: Manual de Sobrevivência

Festival Internacional de Quadrinhos. O que falar desse evento que mal conheço e já considero pacas?

Esse foi o meu primeiro FIQ. Eu comecei a fazer HQ em 2013, logo depois do último evento, e cresci como quadrinista ouvindo as histórias desses cinco dias épicos. Por isso, eu decidi finalmente pôr no papel a minha primeira história mais longa, Arquipélago, pra lançar este ano por lá.

Eu sabia que seria intenso. Eu sabia que seria cansativo. Eu sabia que seria MARAVILHOSO. Eu só não sabia o quanto!

O FIQ é gigante! Pesquise autores de que gosta e trabalhos que quer comprar antes do evento.

Segundo os amigos que participaram do último FIQ, esse foi ainda maior. Foram 32 stands e 122 mesas divididos entre algumas editoras e muito, mas muito artista independente.

Eu tinha amigos que estavam participando e algumas ideias do que queria comprar, mas mesmo assim acabei descobrindo trabalhos maravilhosos, como Rainy Day “or not”, da Karolyne Rocha Bastos, que é um mangá erótico.

Comprinhas e trocas feitas no FIQ!
Comprinhas e trocas feitas no FIQ!

Se até pra mim, que faço e estudo quadrinhos, é difícil escolher, imagina pra quem vai no evento por curiosidade e interesse em conhecer coisas novas, mas sem nenhuma ideia do que quer ler? Alguns amigos que foram no FIQ mas não manjavam muito de HQ ficaram meio confusos com o tanto de coisas expostas e acabaram não sabendo o que comprar.

Por isso, se você já curte quadrinhos ou se só está curioso e a fim de experimentar uma coisa nova, acompanhe os sites e páginas no Facebook dos artistas que curte pra saber em que eventos eles vão estar e o que eles vão expor. Além disso, rola pedir recomendações de conhecidos que curtam HQ e que podem saber o que você vai achar legal.

Se ligue na programação! Tem artistas independentes e profissionais consagrados dando palestras e fazendo quadrinhos ao vivo

O FIQ é um evento que investe bastante no quadrinho independente. Por isso, procuram organizar mesas de discussão com artistas locais e auto-publicados, assim como atividades divertidas como o Duelo de HQ e o Oubapo (em que 5 artistas fazem o primeiro quadro de uma HQ e passam pros demais continuarem a história, tudo ao vivo). Além disso, o evento promove a Rodada de Negócios, que consiste em reunir artistas e editoras interessadas em publicar novos talentos. É uma oportunidade incrível pra quem quer ingressar no mercado receber críticas super construtivas e até receber uma proposta de trabalho (mas tem que se inscrever antes do evento através do site do FIQ, fique esperto!).

Uma das páginas criadas coletivamente no Oubapo
Uma das páginas criadas coletivamente no Oubapo

Apesar da moral que deu pros independentes, o evento também promoveu palestras e bate-papos com artistas que podem, sem exagero, ser consideradas grandes DIVAS do cenário internacional de quadrinhos: Gail Simone (que, dentre outros trabalhos incríveis, foi a roteirista responsável pela Batgirl maravilhosa dos Novos 52), Babs Tarr (a ilustradora que deu vida à nova versão da personagem), Jen Wang (roteirista de Hora da Aventura, autora de Koko Be Good e de outras histórias) e Marguerite Abouet (artista africana super premiada que escreveu a HQ Aya de Yopougon, ambientada no bairro popular em que vivia na Costa do Marfim), dentre outras.

Gail, que descobri durante o bate-papo que tem um salão de beleza e é cabelereira de dia e roteirista da DC à noite.
Gail, que descobri durante o bate-papo que tem um salão de beleza e é cabelereira de dia e roteirista da DC à noite.
Babs, que foi super simpática enquanto recebia tudo quanto era HQ de artista independente brasileiro, assinava pôsteres e distribuía bottons da Batgirl.
Babs, que foi super simpática enquanto recebia tudo quanto era HQ de artista independente brasileiro, assinava pôsteres e distribuía bottons da Batgirl.

Deu pra perceber uma coisa interessante aí, né? É isso mesmo: o FIQ 2015 teve uma das listas de convidados mais diversas que eu já vi em eventos nacionais de quadrinhos. Além de muitas mulheres, o evento trouxe artistas de diversas regiões do país e do mundo.

Não obstante, houve um foco grande em incluir nas atividades artistas independentes que vivem em Belo Horizonte, o que promove um diálogo muito positivo dentro da cena local. Eu mesma conheci vários artistas daqui a partir do FIQ, e isso só vai fazer a cena de quadrinhos independentes mineiros, que já é bem agitada, crescer ainda mais!

Participe das oficinas e pegue ingressos para as palestras mais concorridas

É importante se atentar para o fato de que certas atividades, como por exemplo os bate-papos com artistas estrangeiros, são bem disputadas. Por isso, ingressos são distribuídos antecipadamente na bilheteria do FIQ no próprio dia do evento. Eu, que sou uma pessoa completamente perdida, só pude ver a Gail Simone porque ia participar do Duelo de HQ logo depois da palestra dela e consegui me infiltrar no auditório um pouco antes.

Outra coisa legal a notar sobre o FIQ é que todas as atividades são gratuitas. Então, aproveite pra fazer uma aula com um profissional da área! As inscrições acontecem antecipadamente através do site do evento e também no dia, quando sobram vagas. Eu não tive muito tempo livre pra participar de tudo o que eu gostaria (como, por exemplo, layout de página com Fábio Moon, roteiro com Ana Recalde e desenho gestual, com Eduardo Pansica), mas fiz a aula de bico de pena com a deusa maravilhosa Ana Luiza Koehler!

Fique atento aos anúncios de lançamentos! É uma boa chance de conhecer pessoalmente um artista que curte ou um projeto legal

Praticamente toda a produção de ano de FIQ fica agendada pra ser lançada no evento. É uma forma de atingir um grande número de pessoas logo de cara, além de ser uma oportunidade pro artista conversar diretamente com o seu público.

Os lançamentos são anunciados ao longo do dia através do sistema de som do evento, assim como o local e horário onde vão acontecer. Vale a pena ficar atento! Você sai ganhando uma assinatura e um desenho fofo, além de poder trocar uma ideia ou um trampo seu com o autor da HQ.

Eu participei de 3 lançamentos bem legais nesse FIQ: a Revista RISCA!, a Revista Farpa (que é colaborativa e abre seleção pra artistas, fiquem atentos pra mandar trabalhos pras próximas edições!) e a campanha Que Diferença Faz?. Os três projetos tinham o objetivo de debater a diversidade na sociedade e nos quadrinhos, sendo que os dois primeiros tinham foco declarado na produção feminina.

Esses lançamentos deram o tom do FIQ 2015 pra mim: um evento ativamente preocupado em incluir artistas estreantes entre os consagrados, dando visibilidade a trabalhos com pegadas muito diferentes uns dos outros e abrindo espaço pra discussões super atuais e importantes. Esse compromisso fica ainda mais evidente quando notamos que NÃO TEVE ALL MALE PANEL, MINHA GENTE! (All Male Panel são aquelas mesas de discussão só com convidados homens, que são tão frequentes que tem até um Tumblr só pra elas).

Também não teve mesas com temas específicos como “mulheres nos quadrinhos”. Apesar de saber que essa é uma discussão importante, acredito que a repetição desse tópico em eventos acaba restringindo um pouco as artistas a esse tema específico, quando sabemos que as mulheres atuam nas mais diversas áreas e podem falar sobre HQ policial, de terror, erótica, etc. Os questionamentos nesse sentido ficaram por conta dos mediadores dos bate-papos que, dentre outros assuntos, abordavam a questão da representatividade feminina nos trabalhos dos convidados.

A exposição Heroica: foco na produção feminina e na crítica a personagens restritos aos padrões anglo-europeus de beleza

Em pé, as cosplayers que deram vida à Hera Venenosa, Feiticeira Escarlate, Elektra, Mística e Psylocke. Abaixo, eu (criadora do novo design da Hera Venenosa), Ariane Rauber e Cris Peter (idealizadoras e coordenadoras da exposição) e PriWi (criadora da nova Elektra)
Em pé, as cosplayers que deram vida à Hera Venenosa, Feiticeira Escarlate, Elektra, Mística e Psylocke. Abaixo, eu (criadora do novo design da Hera Venenosa), Ariane Rauber e Cris Peter (idealizadoras e coordenadoras da exposição) e PriWi (criadora da nova Elektra)

Há alguns meses eu recebi um convite: redesenhar uma personagem feminina dos comics e reescrever a sua história. A proposta foi feita a mais 4 artistas, todas mulheres, e o objetivo era claro: dar às mulheres total liberdade pra mostrarem como elas querem ser representadas nos quadrinhos.

Eu escolhi logo de cara a Hera Venenosa, porque sou do Amazonas e as regiões de Floresta Amazônica passaram por uma série de episódios extremamente violentos esse ano. Além de chamar a atenção pra esses fatos tão escassamente cobertos pela mídia, eu queria ver a mulher amazonense representada nos quadrinhos.

Capa de Tiki, O Menino Guerreiro.
Capa de Tiki, O Menino Guerreiro.

Não é que não existam obras focando na questão indígena no Brasil; um dos exemplos mais marcantes é Tiki – O Menino Guerreiro, dos italianos Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo (que ainda não li, mas quero muito!). Mas eu queria mostrar a mulher amazônica urbana, de ascendência indígena, porém inserida no contexto da cidade grande (quem se interessar pode ler a história que criei pra personagem e ver alguns estudos preliminares pro design dela aqui).

Outras personagens que participaram da exposição foram a Mística, reimaginada como uma dalit indiana pelo fantástico Studio Seasons, a Elektra, que virou uma ninja pequena e ágil nas mãos da PriWi, a Psylocke da Pri Tramontino e a Feiticeira Escarlate da Mary Cagnin. As roupas que desenhamos viraram cosplays e as personagens foram personificadas por cosplayers experientes, que manjavam muito de HQ e responderam super positivamente às mudanças propostas (a cosplayer que representou a nova Feiticeira Escarlate inclusive já tinha feito a personagem antes e observou que o novo design da roupa era muuuito mais prático).

hera venenosa
Hera Venenosa reimaginada como um membro da tribo Kamayurá.

Pra encerrar…

O FIQ é cansativo: são 13 horas de evento por dia, faz calor e lota à beça. Mas, ainda, assim, no último dia, suada e exausta, eu desejava que ele durasse o ano inteiro. É bonito ver tanta produção independente, artistas que vieram do Brasil inteiro, crianças curtindo os quadrinhos e os cosplays. As atividades gratuitas também são um ponto super positivo, que torna o evento muito mais do que um lugar pra gastar dinheiro: o FIQ é um lugar pra que entusiastas dos quadrinhos se reúnam, conversem, aprendam, conheçam coisas novas e troquem experiências.

FIQ 2017, chega logo!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.