A Subjetividade do Medo

Eu sempre tive muitos medos. Lembro quando era pequena que eu ficava apavorada de andar pelo apartamento onde eu morava de madrugada, que eu preferia segurar a vontade de fazer xixi e beber água porque sabia que o meu medo me impediria de fazer todas essas coisas. Mas eu acabava fazendo um esforço, e de olhos fechados eu fazia tudo, porque pensava que se eu não visse nada, não iria sentir medo algum.

Hoje, com meus 21 anos, percebo que seria ótimo se todos os meus medos fossem resumidos em ficar de olhos fechados no escuro. Hoje possuo outros, e percebo que são medos relacionados a vida adulta, mas que são principalmente relacionados com o fato de eu ser uma mulher trans.

Recentemente gravei um episódio para o meu podcast onde eu falo sobre relacionamento com pessoas trans, e nele conto alguns relatos que envolvem relacionamentos com mulheres trans. Um deles é de um rapaz que ficou com uma garota trans na balada, sem saber que ela era trans, e depois que ele ficou sabendo, voltou e a agrediu. A agrediu por ela ser trans. “Porque você não me contou que era homem?”, ele dizia. E sabemos bem que ela não é nenhum homem. Se ele, um homem cis hetero, se atraiu por ela, é porque ela está longe de ser homem. E eu tinha esse medo, medo de me envolver com alguém que me violentasse, que me agredisse. Hoje em dia eu namoro e sou muito feliz com meu namorado, que inclusive é um dos melhores (se não o melhor) rapaz com quem eu já me envolvi, e sei que ele nunca faria isso comigo.

Ainda no episódio, contei um relato de uma mulher trans norte americana que, ao andar na rua, foi assediada por um grupo de rapazes, e ao perceberem que ela era transexual, eles deixaram de assediar ela (cantada, assovios, etc) para então agredi-la fisicamente. E eu lhes pergunto: porquê? O que houve com esses rapazes que um interesse nela se tornou um ódio onde eles tiveram que agredi-la? Essa moça, após esse caso, morreu. Morreu por ser transexual. E esse acabo sendo o meu medo, dia após dia. Medo de ser agredida, medo de ser violentada, medo de ser morta, pelo simples fato de ser quem sou.

Um outro medo que eu tenho é o da perda. Tenho medo de perder algumas pessoas, e esse “perder” pode se resumir de várias formas, como “a pessoa sair da sua vida”, “perderem contato”, e outras coisas. Morro de medo de perceber que não tenho certas pessoas em minha vida, principalmente pessoas que servem – de alguma forma – como um pilar pra minha vida. E existem algumas pessoas assim. Por mais que eu tenha pilares, construída por mim mesma, existem pessoas presentes nas nossas vidas que se fazem necessárias estarem presentes, pessoas a quais sentimos falta, pessoas as quais queremos junto, queremos perto.

Porém em nenhum momento me esqueço que nem todas as pessoas possuem os mesmos medos que eu. Existem pessoas com medo de altura, pessoas com medo de não terem dinheiro, medo de se tornarem uma pessoa que vive para o trabalho, medo de nos comunicarmos ou socializarmos, medo das crises de depressão, medo de insetos, medo do esquecimento (de esquecer ou ser esquecida), enfim, são diversos tipos de medos, e ao nossos olhos, quando não possuímos esses medos, eles parecem pequenos. Porquê? Porque o medo de outra pessoa parece pequeno para nós e porque os nossos medos parecem sempre piores? Claro que não há como comparar o medo de sofrer racismo na rua por ser negro com o medo de altura, e é isso que quero dizer quando falo sobre subjetividades, sobre como os medo podem ser diversos, distintos e que afetam as pessoas de diversas formas. É importante pensarmos que o medo dos outros não devem ser desvalorizados (por mais simples que sejam), assim como os nossos não devem também ser diminuídos.

Conversando com algumas pessoas, obtive relatos de que elas criaram mecanismos para se livrar – ou amenizar – seus medos, sejam físicos ou mentais, e creio que isso seja importante, nós trabalharmos mental e fisicamente em relação aos nossos medos. Por exemplo, como citei anteriormente, tenho medo de ser agredida por ser uma mulher transexual, mas se caso aconteça, o que eu devo fazer? Eu devo enfrentar esse medo (e digo o medo, não o agressor) ou não? Sei que uma das formas que eu o enfrento é saindo, tendo uma vida social, me divertindo. O meu agressor pode estar lá fora, na esquina, e até mesmo dentro de casa, mas eu continuar indo em frente é uma forma de enfrentar isso. E falo pessoalmente, enquanto Ariel, pois sei que nem todas as pessoas enfrentam seus medos (e não devem se não estiverem prontas ou preparadas), e você não é uma pessoa fraca ou pior por não enfrentar qualquer medo seu.

Com o tempo comecei a questionar todos esses meus medos, mas tento amenizá-los um pouco, vivendo cada dia o seu dia, na esperança de que tudo fique bem. É um desafio diário, um desafio constante, acordar e perceber que precisamos enfrentá-los, dia após dia. Desafiamos nossos medos, muitas vezes, porque se faz necessário e aos poucos vamos aprendendo a contorná-los, lidando com eles (seja qual for seu medo) de uma forma mais tranquila.

Hoje paro e penso na pequena Ariel andando pela casa com as mãos nas paredes, de olhos fechados, pensando que se não visse nada, nada aconteceria, e penso que desde pequena eu era forte, e aprendi a driblar meu medo de escuro. Agora, já adulta, entendo que isso talvez fosse uma espécie de treinamento para a vida adulta, pois dia após dia continuo driblando meus medos, me mantendo forte e enfrentando-os, dentro de suas subjetividades e dentro da minha capacidade e força.


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Ariel Nolasco

Transfeminista, gamer, aquariana com vênus em aquário. Engajada com questões sociais, faladeira de primeira.