Para conhecer e ler: Jane Austen

por Tamires de Carvalho

Jane Austen faleceu há quase dois séculos, mas ainda consegue conquistar fãs ao redor do mundo. Nascida em Steventon, Inglaterra, no ano de 1775, já desde a adolescência mostrava sinais de seu grande talento para a escrita. Sua fórmula era a crítica social através da ironia e, claro, alguma história de amor.

O que se sabe de sua vida e história, publicada em inúmeras biografias, não é o bastante para conhecer a fundo a sua personalidade. A escritora era membro de uma família numerosa, filha de um pároco anglicano, e nunca se casou. Sabe-se que ela mantinha correspondência regular com a irmã e confidente Cassandra, que destruiu muitas das cartas que trocavam após a morte de Jane Austen. Pouco sabemos sobre os seus amores, se ela teve algum. Apenas que teria aceitado um pedido de casamento, mas se arrependeu logo no dia seguinte e desfez o compromisso.

Em sua época, na Inglaterra georgiana, não havia um sistema educacional como conhecemos hoje, com diretrizes e bases para a instrução do indivíduo. Os jovens eram educados na igreja ou tinham tutores, como o pai de Austen. Para as mulheres, o foco era a educação doméstica, com trabalhos de bordado, pintura, etc., que tornavam as moças prendadas. Havia escolas para moças, mas não forneciam uma educação tão avançada, além de oferecer péssimas condições de estadia para as suas internas. Ter um pai muito instruído pode ter contribuído para que Jane Austen tivesse uma educação acima da média para uma mulher da época.

A autora passou por dificuldades financeiras por não se casar e foi constrangida (inclusive entre os seus irmãos) por querer ser publicada e ganhar dinheiro com isso. Mesmo que a qualidade de suas obras fosse reconhecida, não era de bom-tom uma mulher ter lucro com atividades como a escrita. Jane Austen foi uma mulher à frente de seu tempo, pois enfrentou todas as dificuldades e nos deixou de herança um legado de força e independência, além de magníficas histórias.

Atualmente temos uma vasta oferta de edições em português dos romances publicados em vida e dos póstumos, além da juvenília e das histórias inacabadas escritas por Austen. As obras mais conhecidas são: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, Persuasão e A Abadia de Northanger. Seus livros são muito adaptados para diversas plataformas, então, sempre há alguma novidade no mundo Austen. O romance Orgulho e Preconceito, por exemplo, ganhou várias versões e adaptações, inclusive uma para o Youtube (The Lizzie Bennet Diares), e muita gente suspira com o filme homônimo protagonizado por Keira Knightley e Matthew Macfadyen (2005).

Fazendo uma análise superficial do conjunto da obra de Austen, sobretudo de Orgulho e Preconceito, talvez o mais conhecido dentre seus romances, vemos que suas histórias vão além dos momentos românticos, casamentos e fuxicos. Ela consegue retratar a sociedade em que viveu com todos os elementos que a compunham. Mas a questão do casamento acabou por ser a que mais se destacou em suas obras, por mostrar o matrimônio como o único destino honrado para uma mulher daquela época; caso contrário, passaria fome. Austen pertencia a uma classe chamada gentry, uma espécie de baixa nobreza rural da Inglaterra da época. Muitas pessoas leem Orgulho e Preconceito e se perguntam: por que essas garotas não trabalham? Poderiam fazer alguma coisa? Certamente, nada que fosse condizente com sua posição social ou seus talentos, haja vista que foram criadas e educadas para serem boas senhoras casadas, nada muito além disso. Mesmo as mulheres mais pobres, que trabalhavam suas 18 horas por dia, não tinham liberdade para ser relacionar. Sendo empregadas, elas eram subordinadas também aos seus patrões. Dá para imaginar como era, não é mesmo?

Sabendo um pouco sobre a vida da autora, já dá para perceber quão relevantes suas histórias podem ser. Jane Austen escolheu escrever quando não era permitido a uma mulher fazer essa escolha. Seus livros hoje são considerados clássicos da literatura mundial. E clássico não vira clássico à toa.


Tamires de Carvalho é estudante de Letras (Português/Literaturas de Língua Portuguesa), apaixonada pelo universo dos livros e colaboradora do site Escritoras Inglesas. Acha estranho falar de si mesma na terceira pessoa, mas já está se acostumando.


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