O erotismo de Giovanna Casotto

(Com a colaboração de B.) – ESSE POST É DIRECIONADO A LEITORAS (ES) MAIORES DE 18 ANOS –

Antes de ler este texto, desapegue-se de tudo o que sabe ou considera saber sobre sexo e prazer feminino. Coisas como: “posso ou não posso ?”, “devo ou não devo ?”, “o que vão pensar de mim ?”,” isso não é feminista o bastantezzzz…”

Sexo é sexo.  Ponto final. Taí, desde que o mundo é mundo e é essencial para a continuidade (e prazer, por favor) de nossa espécie.  É primal, é instintivo. O ideal é que não tenha regras, mas se por acaso tiver, elas precisam ser conversadas entre os participantes e o interesse deve ser só deles.

O importante é haver RESPEITO e concordância. Se todas as partes concordarem, tá lindo. Vai ser delícia pra todo mundo. E é isso que o sexo deve ser: uma experiência deliciosa, prazerosa, catártica. Seja como e com quem for: QUE SEJA BOM.

Se depois deste texto houver discordância, faz parte.  Mas espero, de verdade que ele não traga respostas prontas, mas sim caminhos, questionamentos e que, sobretudo, conhecer arte erótica, nos traga uma nova perspectiva de ver e sentir o sexo, que é ao que essa coluna se propõe.

Para embarcar de cabeça (sem trocadilhos) que tal começarmos com uma boa (sem trocadilhos) HQ erótica? Melhor ainda, feita por uma MULHER?

Estamos falando da italiana Giovanna Casotto,  uma das raras mulheres atuantes no gênero erótico, roteirista e ilustradora de HQs pra lá de PICANTES, cujos temas são baseados em fantasias: sexo com o encanador, sexo com o amigo do marido, sexo com a amiga, cenas inusitadas, sexo em locais públicos, enfim, #quemnunca?

Ela tem diversos títulos lançados na Itália, mas aqui no Brasil temos apenas sua graphic novel Giovanna , lançada pela Editora Conrad em 2006, que ainda pode ser encontrada, com sorte, nas melhores livrarias especializadas do país.

Com o pé direito

 

casotto - my foot

Tudo começou em em 1994, durante um encontro de foot-fetish (fetichistas por pés) onde Giovanna conheceu Franco Saudelli, famoso quadrinista erótico, cujas obras eram publicadas na França e Itália e cujos temas se relacionaram sempre ao  mundo do fetiche, como podolatria e bondage, por exemplo.  Giovanna começa a posar para ele, tornando-se a protagonista de sua famosa HQ, La Bionda.

Tal encontro a inspira e então se inscreve na ¨Scuola di fumetto di Milano¨ (Escola de Quadrinhos de Milão)  onde se forma e publica algumas histórias curtas para revistas especializadas como ¨L´Intrepido¨, ainda em colaboração com Saudelli.

Logo é descoberta pela revista de cultura erótica e quadrinhos ¨Selen¨, da editora ¨Edizioni 3tini¨. Com o término desta revista passa para a publicação mensal ¨Blu¨, da Coniglio Editore, e também começa suas obras próprias, ganhando o mundo e deixando sua marca no gênero, tão carente de um olhar feminino.

Um corpo no espelho

Giovanna Casotto original artwork
Giovanna Casotto original artwork

Quem já se olhou no espelho, em busca de um padrão x, y, z, levanta a mão?! o/  Estou nesse meio. No entanto, no mundo dos quadrinhos eróticos, quase 100% dominado por homens,  Giovanna, nos traz – literalmente – um padrão próprio: Ela mesma. Quer mais empoderamento que isso?

Seus desenhos são baseados em fotos suas nua, em poses sensuais ou literalmente praticando ou simulando sexo. Ela geralmente nos apresenta uma mulher voluptuosa, de ancas largas e seios fatos, de etnias variadas, trepando como se não houvesse amanhã e muito importante: dominando e sendo dominada, divertindo-se e sendo diversão e GOZANDO em todas as histórias. Com direito a toda a devassidão, fetiches, gemidos e fluidos que só o sexo real pode nos dar, nesse caso, representados através da arte sequencial.  Não existe história alguma onde ela seja submetida a algo que não queira, ou forçada, ou esteja sofrendo ou em desvantagem. É o bom e velho jogo do sexo, ali. Milenar e conhecido de todos nós.  Prazer consensual, sem máscaras ou  etiqueta. Putaria saudável e feliz. Como deve ser.

As cenas criadas por Casotto são de um realismo impressionante e o erotismo, apesar de ser deliciosamente explícito, carrega uma aura de glamour noir surpreendente, já que  remete às pinups dos anos 50. Os pés, mãos e boca são geralmente destaque, e as cenas de orgasmo feminino ganham uma bela relevância, às vezes de página inteira.

Dá um suadouro às vezes, sabe…? Pois é.

Giovanna Casotto representa, com seus quadrinhos, as diversas mulheres que todas nós somos e podemos ser na cama: ora  submissas, ora dominadoras, BDSM ou vanillas*, dependendo do que ela queira enfocar, através de seu modelo e alter ego: ela mesma.  Mostrando que é possível existir uma infinitude de mulheres dentro de uma só e que todas elas podem sim, gozar e serem plenas sexualmente.

Fica a dica para sua próxima aquisição em quadrinhos eróticos e eu digo, por experiência própria: é uma BELA inspiração  😉

*Vanilla ou Baunilha:

Baunilha é um termo de origem norte-americana que define uma relação “convencional”

É amplamente usado pelo universo BDSM e proximidades para descrever as pessoas que se satisfazem com sexo comum. Quando os baunilhas começam a ver o que existe além disso, e a não se satisfazer mais com relações normais e mornas, passam a colocar um tempero nelas, pegando emprestado práticas e atitudes dos universo BDSM (tapinhas, bondage, fetiches diversos).  Começam a praticar algo que chamam de baunilha apimentado ou “pepper vanilla” para os gringos.

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.