Fosfoetanolamina cura mesmo o câncer de pacientes humanos? TRUCO! Quero ver para crer!

Fosfoetanolamina é uma das moléculas que compõem a membrana celular. Pesquisas científicas mostram que a forma sintética da fosfoetanolamina diminui a viabilidade de células tumorais e tem ação de retardar certos estágios da progressão tumoral em camundongos.

Quem se beneficiaria do tratamento com a fosfoetanolamina ?

Ainda que você tenha um camundongo (nome: Bubbles) com tumor, não significa que Bubbles será curado com a administração da fosfoetanolamina. Os dados científicos mostram que este composto tem atividade antitumoral em apenas algumas circunstâncias:

  • Camundongos injetados na cavidade abdominal com uma linhagem de câncer de mama (Ehrlich). Qual é o valor desse modelo na clínica? Câncer de mama é localizado na mama e se espalha preferencialmente no pulmão, cérebro e ossos. Há modelos animais de câncer de mama que refletem melhor a evolução da doença em humanos.
  • Camundongos, que possuem deficiências no sistema imune, injetados com células leucêmicas de camundongo transgênico.

Há uma grande diversidade no câncer. Isto significa que uma droga pode ser eficiente para um tipo de câncer e não para outro! Um bom exemplo é a existência de inúmeros medicamentos para tratamento para câncer de mama. Em nossas pesquisas com tumor de mama realizadas na Universidade da Califórnia, San Diego (Estados Unidos), nós levamos em consideração o tipo de tumor. Por que isso é tão importante? O tratamento escolhido pelo médico vai depender do tipo molecular do tumor. Pacientes que apresentarem o tumor positivo para receptor HER-2 são tratados com o anticorpo anti-HER-2 (trastuzumab). No entanto, aqueles que apresentarem tumores positivos para o receptor de estrógeno serão tratados com agentes hormonais.

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Fale com seu veterinário para saber opções de tratamento para ajudar Bubbles se recuperar.

No caso de Bubbles, o tumor que se desenvolveu espontaneamente no nosso querido companheiro muito provavelmente é diferente daqueles inoculados nos camundongos utilizados nos testes da fosfoetalonamina. Ah, mesmo em animais, para usar a fosfoetanolamina, você também precisará de um aval da comissão de ética de animais.

O que é necessário para testar uma nova droga em humanos?

Primeiro, um processo de pedido de investigação de uma nova droga deve ser encaminhado para as agências reguladoras. No Brasil, a Anvisa, aqui nos EUA, FDA e na Europa, EMEA. As agências reguladoras têm a função de avaliar se um medicamento tem eficácia e quais são os possíveis efeitos colaterais. Esses órgãos operam independentemente e com regras similares.

O processo deve conter dados científicos referentes aos testes pré-clínicos (células e animais de laboratório), como também, documentos que mostram o consentimento  da Comissão de Ética. Com isso, as agências reguladoras estudam a possibilidade de conceder a permissão da realização dos testes em humanos. Veja a figura com as etapas no processo de descoberta e desenvolvimento de uma nova droga (com mais detalhes em um futuro texto).

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PK-PD: Estudos de Farmacocinética e farmacodinâmica. Imagem produzida com auxílio: http://www.servier.co.uk/content/servier-medical-art

Os resultados publicados são suficientes para iniciar os testes em humanos?

Em relação à fosfoetanolamina, ainda faltam muitos dados provenientes da fase pré-clínica: estudos de farmacocinética que relatam como a droga é distribuída pelo corpo e o tempo de duração que a droga permanece na corrente sanguínea e no tumor; testes toxicológicos que determinam quais são as doses tóxicas e quais são os efeitos colaterais; estudos de farmacodinâmica que determinam qual é o efeito produzido.

Até agora só foi verificado que o tratamento de fosfoetanolamina promove a morte de células tumorais e o mecanismo como esse composto age ainda não foi decifrado.

Qual é o mecanismo de ação da fosfoetanolamina?

As doses utilizadas de fosfoetalonamina nos testes in vitro (em células) são extremamente altas, na faixa de miliMolar.

As doses ideais de um composto com uma ação promissora antitumoral devem estar na faixa de nanoMolar-microMolar (1.000 ou 1.000.000 vezes menos!). Os ensaios em culturas celulares mostram que esta droga não é muito eficiente em matar as células tumorais diretamente (em concentrações altas até a água pode diminuir a viabilidade celular de células tumorais na cultura). Qual é o problema disso? Vai ser muito difícil atingir essa concentração de fosfoetanolamina  no sangue e no tumor dos pacientes.

Interessantemente,  a fosfoetanolamina na dose de 40 mg/Kg (dose não muito alta) é capaz de promover morte de células tumorais em modelos animais. Portanto, a morte de células tumorais ocorre nos animais com tumor tratados com a droga. Muito provavelmente a ação antitumoral seria proveniente de algum mecanismo indireto desencadeado pela fosfoetanolamina no organismo. Dados indicam ação da fosfoetanolamina no processo de angiogênese (formação de novos vasos que tem função de nutrir o tumor) pela sua ação nas células endoteliais (células formadoras de vasos). Porém, mais uma vez, as doses utilizadas foram altíssimas (miliMolar).

Portanto, os experimentos realizados deixam claro que ainda não existe consenso com relação a quais tipos de tumores seriam suscetíveis à fosfoetanolamina nem qual seria a dosagem da droga necessária para o tratamento.

Quanto custa a etapa de testes clínicos em humanos?

O custo inclui a fabricação da droga, salários de pessoas que trabalharão para elaboração dos testes clínicos, custo na divulgação dos testes, pagamento da infraestrutura (materais de coleta, testes laboratoriais, tratamento caso os pacientes apresentem algum efeito colateral) e, algumas vezes, pagamento aos pacientes recrutados (no Brasil, isso é proibido).

Centros de profissionais na área de saúde realizam os testes clínicos com um protocolo padronizado (doses, tempo de duração de tratamento e método de avaliação da resposta – Raio X, teste de sangue, tomografia, etc). Esses custos se traduzem no valor final da droga. Quem pagaria as pesquisas se a droga gerada for entregue gratuitamente à população?

Geralmente, as grandes indústrias farmacêuticas financiam as despesas dos testes em humanos que custam de 1 a 2 bilhões de dólares.

Esse valor também inclui os custos das drogas que falharam. Estudos indicam que de 10.000 novos medicamentos produzidos na fase inicial de descoberta, somente 1 é aprovado para o uso em humanos (a maioria dos drogas falham!). A duração é de 8 a 10 anos, pois tem que se assegurar que o tratamento aumenta o tempo de sobrevida dos pacientes e isso só o tempo pode responder…

Quem aprova um novo medicamento para o uso em humanos?

No caso de uma droga antitumoral, o veredito final é anunciado pelas agências reguladoras com base nos resultados apresentados nos testes clínicos. Resposta parcial, resposta completa e o aumento da sobrevida do paciente são resultados promissores, isto é, dados que mostram o impacto do novo medicamento na evolução da doença. Além disso, esses órgãos também têm que se assegurar que a droga não induz sérios efeitos colaterais. Resumindo, para uma droga ser aprovada, ela tem que ser eficiente e ter baixa ou (de preferência) nenhuma  toxicidade.

Palavras finais:

Até então, não há nenhum relato científico que mostre que a fosfoetanolamina atue de forma benéfica em pacientes humanos com câncer e o mecanismo de ação da fosfoetanolamina é desconhecido, fato destacado na revista  Nature, nesta semana. Os únicos relatos são provenientes dos próprios pacientes. Estes dados serão valiosos quando pareados com outros dados, como: tipo de tumor, tempo de uso, quais os outros tratamentos aos quais o paciente também foi submetido, entre outros. Devemos esperar o andamento do processo, que visa investigar o efeito da fosfoetanolamina em pacientes com câncer,  realizado e coordenado pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer) e pela Fiocruz.

Muitas e muitas pessoas estão trabalhando neste momento para descobrir novas drogas promissoras para o tratamento de câncer. A cada ano, são aprovados mais medicamentos. Portanto, devemos ter esperança, sempre.

Para saber onde estão sendo realizados testes clínicos de novas terapias para câncer e outras doenças, veja o site: https://clinicaltrials.gov/

Não tenho nenhum vínculo com a indústria farmacêutica.

Fontes:

Fonte da imagem com o camundongo: https://www.flickr.com/photos/21560098@N06/3796822070

Para as demais: clique nas palavras em negrito.

Para mais informações sobre o processo de descoberta e desenvolvimento de novas drogas: assista as aulas do curso online: Drug Discovery, Development & Commercialization 

Assista também o vídeo de Drauzio Varella

Agradecimentos:

Helen Miranda e Tamiris Santos Pessoa pela revisão do texto.

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Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.