The Walking Dead: o Apocalipse Zumbi da Representatividade

Depois de seis temporadas como o programa de televisão mais assistido nos EUA, The Walking Dead finalmente aprendeu a ser mais do que uma série de zumbis e vem se tornando um produto da cultura pop com representatividade interessante de gêneros, diversidade sexual e racial. O caminho foi longo e ainda está longe de ser o ideal, mas TWD tem acertos que valem a pena serem destacados – e alguns erros que já não deveriam mais acontecer.

É óbvio que o personagem principal da série é o Rick, e isso em si não é um problema. O problema mora no fato de que a série levou mais de três temporadas para construir personagens femininas tão complexas e verossímeis quando o protagonista.

Nas primeiras temporadas a única personagem que realmente se destacava era Lori: depois de descobrir que seu marido supostamente estava morto e ficar com Shane, o melhor amigo de Rick, Lori era chamada de vários nomes não tão educados pelos fãs da série, destacando-se por não se posicionar nem como vítima e nem como santa – como todas as outras personagens se posicionavam até o momento. Apesar de Lori não ser uma personagem querida e extremamente mal construída, foi a primeira a causar algum tipo de sentimento diferente de apatia no público, e por muito tempo foi só isso que tivemos.

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Na segunda e terceira temporada fomos apresentadas a duas personagens que vieram para mudar o jogo: Maggie e Michonne. Elas representavam uma evolução na forma de retratar mulheres na série, fugindo dos tipos unilaterais de “vítimas”, “santas”, ou até mesmo “vadias”, e sendo retratadas como… seres humanos, complexos, e com profundidade.

Maggie morava em uma fazenda com seu pai e apesar de fazer o estereótipo de filhinha de papai que cuida da casa e da irmã mais nova, aos poucos foi se mostrando uma personagem que tinha desejos, sentimentos, medos e certeza sobre quem ela era. Aos poucos ela e Glenn foram se tornando mais próximos, trazendo uma boa evolução para os dois personagens. Hoje Maggie é uma das personagens que mais passou por desgraças e perdeu pessoas, sempre seguindo em frente e crescendo com o que tinha que enfrentar. Às vezes é fria, às vezes extremamente sentimental, tem dias bons e dias ruins, dias em que tem esperança e outros em que acredita que nada vai dar certo.

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Já Michonne chegou ocupando o cargo de BAMF da série, e por muito tempo ela era apenas isso. Uma assassina com sua espada vivendo em solitude, estabelecendo relações por necessidade e não por opção. Depois de perder Andrea (que foi quem a introduziu ao grupo), Michonne evoluiu como personagem. Apesar do pontapé de seu desenvolvimento ter sido meio forçado, a mudança que isso trouxe é positiva, pois hoje ela é a bússola moral do grupo. Pouco a pouco ela se conectou com cada personagem de forma única, ocupando o cargo de “otimista do grupo” e transformando não só a si mesma, mas aos outros também.

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Desde então, tivemos outras personagens que contribuíram consideravelmente para a trama com suas histórias, como foi com Sasha, Tara, Rosita, Beth, Lizzie, etc., mas o caso mais notável que devemos apontar é o de Carol, que está conosco desde o início da série – para os que não se lembram, ela tinha uma filha chamada Sophia e um marido abusivo.

Durante as primeiras temporadas, ela exerceu o papel de mãe e mulher submissa, sempre ajudando os outros no lugar de si mesma, e sempre no papel de vítima. Sofreu muitas perdas (entre elas seu marido e sua filha), aproximou-se de outros personagens como o Daryl, tornou-se uma voz forte, ativa e respeitada dentro do grupo de sobreviventes, ganhando tridimensionalidade e passando a ser não só a mãe, mas também aquela que toma as decisões difíceis e controla tudo enquanto ninguém mais tem forças para tal. Queimou os corpos infectados na prisão, matou Lizzie após descobrir que ela tinha algum tipo de sociopatia, resgatou seus amigos no Terminal e, mais recentemente, foi quem vestiu ~literamente~ a camisa e se tornou a matadora #1 dos invasores de Alexandria. Ou seja, ela é uma personagem em constante mudança e evolução, com um dos arcos dramáticos mais fortes da série.

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Além de todas as personagens que foram muito bem adaptadas das HQ’s para a televisão, TWD fez algo relativamente raro no mundo de adaptações: mudou o gênero de um personagem masculino de destaque. Deanna, a “prefeita” de Alexandria, nos quadrinhos era um homem chamado Douglas, que entre outras características, era sexista, abusivo e, apesar disso tudo, considerado um bom líder. Ao inverter o gênero da personagem, a série coloca mais uma mulher no papel de liderança, com constante apoio e força de sua comunidade para seguir no seu posto.

Não basta termos personagens femininas na televisão para contar como exemplo de representatividade. Elas precisam ser bem desenvolvidas!

Por mais que The Walking Dead ainda não possua a diversidade cultural, étnica e de orientação sexual que outras séries como Jane The Virgin, Crazy Ex-Girlfriend ou How To Get Away With Murder tenham, não se pode negar que a série dos zumbis tenha algumas das personagens femininas mais bem construídas da televisão atual, e o mais interessante é que cada uma tem sua história única, desafios que tiveram que vencer sozinhas, conquistas, defeitos, tragédias e outros pontos narrativos que as tornam complexas e verossímeis. Nada mais justo para a série mais assistida na televisão americana.

[Créditos das imagens: Reprodução/AMC]


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