As memórias de Marnie | Não tem problema ser introvertida

As memórias de Marnie é o mais novo filme do Studio Ghibli; foi lançado no Japão em 2014, nos EUA no começo de 2015 e chegou agora ao Brasil. Dirigido por Hiromasa Yonebayashi, o filme conta a história de Anna, uma menina adotada, solitária e que tem asma. Depois de ter algumas crises, ela se muda por um tempo para a casa de parentes no interior para tentar controlar a doença. É nesse período que Anna conhece Marnie, uma menina muito bonita que vive numa mansão linda, a protagonista, contudo, vai percebendo que algumas coisas não estão certas naquela história.

Como muitos filmes do Studio Ghibli, esse é um daqueles que terminamos de assistir com lágrimas nos olhos. Pode não ser como viagem de Chihiro, mas mesmo com uma história menos fantástica e mais pessoal, As memórias de Marnie consegue nos envolver na trama e emocionar muito.

A animação não decepciona, como sempre, os traços e os movimentos dos personagens continuam lindos, fazendo uma cena simples de folhas se movendo ser muito gostosa de assistir. A trama nos faz ficar curiosos para ver o que vai acontecer, queremos descobrir qual é o segredo de Marnie e daquela mansão estranha. Nós nos envolvemos com os personagens também, as dores de Anna se tornam nossas e sorrimos quando ela fica feliz.

A jornada pessoal de Anna é o ponto alto do filme. Óbvio que as reviravoltas são o que mantêm o roteiro andando, mas, acima de tudo, é sobre o crescimento de Anna, que passa por uma fase complicada na vida, além de ter que lidar com problemas na família e o fato de não se ajustar às pessoas ao seu redor.

É um filme lindo e que recomendo fortemente: fala sobre amizade, superação, enfrentar fantasmas do passado sem excluí-los completamente, aprender com os erros… E também sobre ser introvertido.

Muitas vezes, quando temos uma garota solitária e introvertida como protagonista, normalmente aparece um garoto que vai ensinar a ela como ela é linda, maravilhosa, inteligente, e faz que a garota crie uma grande auto estima que surge praticamente do nada; assim o amor dos dois vai melhorar tudo. O problema é que, além de batidas, essas fórmulas representam muito pouco o que pessoas mais solitárias e introvertidas realmente sentem. É  nesse aspecto que vou focar, e já fica o aviso de spoilers abaixo.

Quando as pessoas choram vendo As memórias de Marnie, geralmente é no final com a revelação sobre quem Marnie realmente é. Eu comecei a chorar logo no começo do filme. Chorei porque, quando olhei para Anna, na verdade é como se olhasse para um espelho: estava vendo eu mesma sentada e sozinha no banco durante o recreio da escola.

Sou uma pessoa introvertida e muitas vezes solitária, assim como Anna eu olhava os outros e via um mundo do qual não fazia parte, assim como ela passava meu tempo sozinha, ela desenhando e eu escrevendo, e sempre que um professor pedia pra ver, assim como ela eu escondia o que tinha feito, independente de estar bom ou não, dizendo que era ruim por pura vergonha. Assim como Anna, minha baixa auto estima fez que eu me odiasse por anos.

Evitar ocasiões mais sociais, explodir do nada sem querer, se sentir mal… Vi minha vida em Anna: é verdade que não tenho asma nem sou adotada, mas meu estômago nunca foi dos melhores e encarei problemas familiares bem nova. Anna é uma das poucas personagens pelas quais pude me sentir representada no quesito de ser uma pessoa mais solitária, assim como seu arco no filme não é forçado como o amor que melhora tudo na vida da mocinha.

Quando somos pessoas muito fechadas, nos agarramos a certas coisas fora da nossa realidade e aprendemos a nos divertir sozinhas. No caso de Anna, foi uma memória do passado que nem ela mesma sabia que estava ali, uma amiga imaginária e, por mais que a vida de Marnie fosse uma história real, me parece óbvio que Anna projetou na sua nova amiga coisas que queria. Ela queria os pais vivos, queria se divertir em festas, desejava poder ser mais extrovertida…

Anna também tem uma conexão muito forte com a nova amiga, que eventualmente vamos descobrir que se dá porque ela era neta de Marnie, mas também porque ela sabe que, sendo como é, pode ser muito difícil conseguir amigos, então tem muito medo de perder o pouco que tem. Ela grita e chora quando descobre que Marnie vai embora, isso pode ser tanto por ter  medo de perder o pouco que tem como por seu subconsciente não suportar perder a avó mais uma vez.

É genial que o filme não faça Anna virar extrovertida em poucos segundos: ela cria aos poucos uma amizade com a menina que se muda para a mansão, e no final do filme elas não são grandes amigas, mas Anna mostra um grande avanço para quem tinha começado a história tão fechada. Ela conversa com Hisako, pede desculpas para a menina que ofendeu mais cedo… Não é nenhum avanço gigantesco, mas só quem tem muita dificuldade com isso sabe que o passo que Anna deu, além de coerente, é muito importante.

Anna supera os fantasmas de seu passado, mas sem eliminá-los completamente; ela os entende e segue em frente, não está perfeita ainda, mas deu o primeiro passo. Muitas vezes, para superarmos o problema, precisamos encará-lo. Anna encara Marnie, todo o amor que sentia por ela e a tristeza por ela ter morrido. Depois de encarar, ela pode seguir em frente, Anna não podia mais viver com aquilo dentro si, escondido e sem resolução.

É uma história sobre superação do passado, mas para mim o que pegou mais fundo, que me fez chorar e me identificar com Anna como poucas vezes me identifiquei com uma personagem, é que existe outra superação no filme, que passa mais despercebida, mas é igualmente importante: superar os problemas que têm consigo mesma. Anna entendeu que não há problema em ser introvertida, que não precisa se odiar, que aos poucos vai conseguir lidar com seu jeito de ser e eventualmente, do seu próprio jeito, encontrará pessoas que vão gostar dela do jeito que é.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.