Começando a jogar RPG – alguns pensamentos para quem está chegando agora

Então você quer jogar RPG. Talvez tenha lido algo sobre um cenário bacana. Talvez você jogue RPGs no videogame e tenha decidido dar uma chance para o RPG de mesa. Talvez você tenha amigas ou amigos que ficam falando de um jeito maluco e você queira entender as piadas internas.

De todo modo, você quer jogar RPG. E ai, como começar?

A coisa mais importante para se ter em mente quando vamos jogar RPG, na minha opinião, é que o RPG é um jogo onde a gente cria narrativas de forma coletiva. Um espaço onde um grupo de pessoas cria junto uma história. Unir diferentes vozes para construir esse fio de memórias inventadas. Cada pessoa trás um pedaço, e a Mestre ou Narradora é quem costura esses pedaços para formar a trama. Isso é a base de todo RPG, não importa que regras (sistema) ou que ambientação (cenário) vão ser usados. Pessoas se juntam e contam uma história a partir da perspectiva dos personagens que vão interpretar e da estrutura que a Narradora ou Mestra traz para o jogo.

Usamos ferramentas para facilitar isso: planilhas com anotações sobre as características dos personagens, dados para simular os fatores aleatórios da realidade, livros com referências de subsídio sobre o mundo imaginário do jogo, regras que permitem um certo equilíbrio para o jogo correr de forma justa. Mas é isso que essas coisas são: ferramentas. Os dados, os livros, as miniaturas e mapas, são parte da caixa de ferramentas que faz o jogo acontecer de forma mais fluida.

Digamos que eu precise colocar um prego na parede. Sem um martelo, eu posso improvisar. Com um martelo, fica mais fácil, com certeza. Jogar RPG nessa comparação é bater o prego na parede: fica mais fácil se eu tiver acesso a dados, livros, planilhas, mas é possível jogar sem tudo isso a mão. E assim como existem martelos diferentes para diferentes trabalhos, desde o pequeno martelo de sapateiro até a marreta gigante que se usa para prender trilhos de trem, existem diferentes sistemas e cenários de jogo. Não existe “o melhor sistema”. Não existe “o melhor cenário”. Existe o favorito de alguém, existe o que se adequa melhor ao objetivo daquela aventura, daquele grupo de jogadores, daquele momento.

mulheres coreanas em volta de um tabuleiro de Go, 1904
Os orcs chegaram e estão derrubando tudo. O que você vai fazer?

O elemento que dá vida ao jogo, aquilo que é necessário de verdade, são as pessoas jogando. Algo de fantástico acontece quando a gente senta em volta de uma mesa e sai da realidade consensual de todo dia para mergulhar nessa mistura de faz de conta com improvisação teatral.

Vários povos tem como parte do seu mito de criação a ideia de que o mundo precisa ser falado, que as coisas precisam ser nomeadas, para que passem a existir. No RPG, você vai colocar isso em prática, porque suas ações precisam ser descritas, faladas. Uma coisa curiosa: muita gente tímida que eu conheço joga RPG e mesmo tendo dificuldade para falar em público, se solta na mesa de jogo. Introvertidos e extrovertidos podem se divertir do mesmo jeito e conseguir falar é só uma questão de pegar confiança.

Não tenha medo de falar. Não tenha medo de fazer algo estúpido. Muitos anos jogando e eu continuo fazendo coisas muito estúpidas de vez em quando. E o máximo que acontece é a gente dar risada e tentar de novo. E se não se sente a vontade para falar muito logo de cara, vá observando e devagar, emitindo opiniões, simulando um diálogo aqui, outro ali. Mas fale: é na sua voz que o mundo vai sendo criado.

Não se sinta insegura por não conhecer as regras. O livro está ali para você não precisar ter tudo decorado. Nem mesmo a Mestra de Jogo ou Narradora precisa saber tudo decorado. E existem milhares de sistemas e cenários de RPG. Ninguém conhece todos. Uma das coisas incríveis do RPG é que mesmo jogando uma vida inteira você ainda vai ser um novato em alguma coisa – e isso vai ser muito divertido.

Não se sinta na obrigação de saber tudo antes de começar a jogar, porque o melhor jeito de aprender é fazendo. Crie anotações na sua planilha de personagem de coisas que vai usar sempre (eu costumo grifar e circular, anotar regras que não consigo decorar, marcar números de página e nomes de livros que não posso esquecer – e também faço piadinhas sem graça nas margens). E pergunte se tiver alguma dúvida, sempre. Não só porque está aprendendo, mas sempre. É um jogo cooperativo, então o grande ponto é cada um trazer sua contribuição e aceitar a contribuição do coleguinha.

mulheres jogando mah jong na praia
Deixa eu arrumar o mapa para explicar esse combate direito, Miga.

Um conselho que eu dou é que, se puder, experimente vários jogos diferentes. Não apenas sistemas e cenários, mas também diferentes grupos de jogo. Um mesmo sistema de RPG pode ser percebido de um jeito totalmente diferente dependendo das pessoas que estão jogando.

E as vezes, pode demorar um tempo até encontrar um grupo que tenha o ritmo e o estilo que combinam com você.

Aliás, é bom lembrar que nem todo mundo que joga tem o RPG como o principal hobby da sua vida. Tem pessoas como eu, que fizeram do jogo uma parte importante de si, que conheci o marido jogando RPG e tenho tatuagens que me lembram meus jogos preferidos. Mas tem muita gente que joga RPG do mesmo jeito que eu jogo uma partida de Jogo da Vida ou Banco Imobiliário, uma coisa divertida de vez em quando. Assim como tem gente que gosta de jogar Mario Kart e Just Dance quando junta os amigos, e joga dez horas de videogame por mês e gente que joga online quatro horas por dia, e todas as gradações no meio disso.

Não existe um jeito certo ou errado de se relacionar com os jogos. Você não está fazendo isso errado só porque suas ideias sobre o jogo são diferentes das ideias dos seus amigos ou de alguma figura midiática.

Então, não aceite se tentarem impor algo como “o único jeito bom” ou “o único jeito certo”. Não aceite atitudes que te deixem desconfortável, sejam atitudes dentro do jogo ou fora dele. Quem joga RPG não é uma espécie à parte do resto da raça humana, e assim como em qualquer situação, vai ter gente muito bacana e gente que decepciona. Sinta-se segura para expressar isso, e se o grupo de jogo não te transmite essa segurança, procure outras pessoas para jogar. Mesmo que sejam seus amigos, eles não tem o monopólio sobre suas opiniões.

E onde encontrar grupos de jogo? Procure lojas de livros de RPG, mas também procure os encontros de RPG que acontecem por ai. Tem muita coisa bacana acontecendo, não só nos grandes centros, e a internet é de grande ajuda até para encontrar quem joga na vizinhança.

E as jogadoras veteranas por aí, deem suas dicas para quem está chegando…

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Esse texto é o primeiro feito a partir das sugestões que recebi para a coluna. Como várias pessoas pediram esse tema, não vou citar o nome de ninguém para não correr o risco de esquecer alguém. Mas meus agradecimentos a todas. <3


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