Por que representatividade diversa incomoda tanto?

Oizinho novamente! Estava refletindo e me preparando para a mesa sobre diversidade da qual participarei na CCXP, hoje quinta-feira, e achei que seria bom aproveitar e ensaiar um pouco… Mas também ir além, pois não é um assunto que eu tenha tocado diretamente por aqui, já que amigas de outras editorias o fizeram muito bem e até abordaram representatividade de gênero e sexualidade.


Pois bem ou mal, na verdade, apesar de progressos recentes, a representatividade de minorias ainda está mais para algo vagamente equilibrado, por isso digo: Queremos mais! Queremos mais, pois queremos nos ver também inseridEs na cultura pop. Queremos mais, pois diversidade existe, está aí e não se restringe a questões de gênero e sexualidade! Vai muito além, com diversidade étnica, deficiências, tipos físicos e uma infinidade de outros fatores.


Já ouvi muitos argumentos no meio nerd, sejam gamers, leitores de Hqs, ou do meio Sci-fi entre outros, como: “Ah, mas esse pessoal nunca gostou de HQS mesmo, pra quê precisamos de personagens gays/lésbicas/bissexuais/trans?”. E nem vou me aprofundar em questões como indivíduos não-binariE, já que em geral as pessoas se valendo de lançam tais argumentos nem sonham em entender o conceito existente além do binarismo. É nessa hora que respiramos bem fundo antes de responder, não é? Pois precisamos de paciência… Tem que ser jedi consular com convicção para segurar o veneno ao responder. rs


Contudo, hoje dei minha “respirada” e lá vai: Será que somos nós quem não gostamos de HQ ou eram elas que não gostavam de nós? Ou melhor… A bem da verdade é o mercado mainstream e a mídia que não gostam de nós até hoje. E sendo bem honesta, é o público que, em boa e abundante parte, fica entre o “não se importar” e/ou “não gostar”. Se eu não me vejo, se eu não vejo um pedacinho do meu universo representado, e pior: se quando vejo ainda está cheio de conotações de que minha existência, minhas convicções, minha aparência são erradas e/ou só servem como motivo de piada… Fica difícil, para não dizer impossível, gostar! Mesmo que haja outros atrativos.


“Ah, mas então você não gosta o suficiente!” – contra argumento velho conhecido que já ouvi e muito… (E a barrinha de especial vai ficando cheia…) Enfim, muitas pessoas, eu inclusa, vemos o que dá, na base do “quem não tem dragão, caça com lagartixinha de parede mesmo!”. Porém, muitas pessoas ainda não chegaram a ter um contato maior, quem dirá profundo, por um simples motivo: preconceito. Pessoas que poderiam ser fãs ávidas se houvesse uma abertura correta para conhecer; uma abertura que para quem está nadando em privilégios, já é comumente garantida.


Sim, temos tido mudanças! Mudanças lindas, várias coisas maravilhosas rolando no meio
indie; seja com fanzines ou webcomics (Hqs na internet). Já citei Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço antes (e não fui só eu quem citei, você pode encontrar um pouquinho mais a respeito aqui), mas vou falar da primeira webcomic onde eu me vi de algum modo representada: Venus Envy, por Erin Lindsey. A história é sobre uma adolescente trans descobrindo a si mesma e, inclusive, ainda incerta de sua orientação sexual. Tem ainda de lidar com os fantasmas de um abuso que sofreu.


Vocês não tem ideia de como é impactante você ler uma história, já aos 30 anos, e finalmente se identificar tão nítida e fortemente com uma personagem. Para mim, o mais especial era o fato de falar diretamente sobre o início da minha própria transição. E digo mais, para que fique bem claro: se a Fran de Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço é alguém com quem me identifico hoje, já em um estágio confiante da transição; a Zoe de Venus Envy é o meu equivalente no inicio, quando eu estava insegura, perdida e ao mesmo tempo ansiosa e vislumbrada com as possibilidades que a vida me reservava.


Agora, lhe pergunto: como alguém pode se incomodar com a representatividade de outros que não a deles… Quando esta gera sentimentos tão calorosos e provê tanta paz para pessoas que já vivem e lutam uma batalha a cada dia só por serem e para terem a “permissão” garantida de ser quem são? Já que na sociedade em que vivemos hoje, por muitas vezes precisamos pedir a permissão de ser, de termos nossos direitos mais básicos garantidos.


E hoje, apesar da grande mídia ainda não morrer de amores por nós, começamos a ter representatividade e pontos bonitinhos surgindo com cartoons, como Steven Universe e A Hora da Aventura. Com personagens de HQ introduzindo a diversidade, como até nos quadrinhos de Transformers com Chromedome e Rewind—os quais, aliás, me fizeram chorar litros. É o inicio de algo importante, mas o público ainda resiste um bocado bem expressivo.


Lembro-me do tempo que saiu a imagem do Wolverine e Hércules se beijando e toda a bagunça que rolou na época. E uma pessoa me vem com o seguinte argumento: “por que eu tenho que ver essas coisas nos meus quadrinhos heterossexuais?” Acredito que só isso já reafirma o que falei anteriormente sobre como a cultura pop mainstream era (e ainda o é, mas com mudanças como ressaltei a pouco) excludente a ponto de homens cis/hétero se acharem os proprietários supremos do mercado das HQs.


Tendo isso em mente, insisto em perguntar: qual o real motivo disso incomodar tanto? Não me identifico com vários tipos de relacionamentos (basicamente tudo que envolva homens romanticamente) por não ter atração pelo gênero masculino. Porém, isso não me causa ódio e nem repulsa. Como “aparentemente” pessoas não cis/hétero causam. Digo ainda que acho muitos casais cis/hétero fofos tanto na ficção, quanto na vida real. Admiro o amor em sua totalidade: independente de gênero, raça, credo… Então, qual o problema?! A pessoa não vai ser menos hétero por que existem personagens gays ou bi! Não vai ser menos cis por existirem personagens trans. Quem essas pessoas são em seu íntimo e suas convicções são tão frágeis assim ao ponto de serem ameaçadas por meramente lerem sobre tais personagens ou conviverem com pessoas diversas?


Finalmente, ao mesmo tempo em que fico feliz pelas novas e mais variadas possibilidades de representatividade, fico triste em ver o quanto o público padrão normativo ainda resiste tanto e luta contra estes novos tempos apontam no horizonte. Contudo, saibam: eles virão, queiram estas pessoas ou não! Ninguém vai segurar nossa Aliança Rebelde! (Há! Turn down for what!)

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3