Resenha: Shiroma, Matadora Ciborgue, de Roberto de Sousa Causo

Arte completa de Vagner Vargas para a capa de Shiroma, Matadora Ciborgue.
Arte completa de Vagner Vargas para a capa de Shiroma, Matadora Ciborgue.

Shiroma, Matadora Ciborgue é o novo livro de Roberto de Sousa Causo, um romance fix-up, isto é, formado por contos e noveletas que podem ou não ter sido inicialmente interligados. Neste caso, com certeza fazem parte de uma história maior desde o começo: contam a trajetória de alguém cuja vontade e identidade outros tentaram anular, para substituir com obrigações e objetivos que servem a conveniências alheias. Ou seja, a história de muitas mulheres da vida real.

Só que Shiroma é uma pós-humana, alguém com capacidades físicas e intelectuais aumentadas – e muito, muito perigosa.

O livro é a junção de onze histórias de ficção científica sobre a personagem título. Cinco são inéditas, e as outras já foram publicadas em coletâneas. Podem ser lidas de forma aleatória, mas, na ordem, contam a jornada linear de Shiroma, uma garota aprimorada genética e ciberneticamente, entregue a um destino que ela nunca quis.

Em anos anteriores eu já havia lido alguns desses contos. Lembrava-me deles justamente por serem narrativas de ação centradas numa personagem feminina que não estava ali nem para ser salva, nem para servir às vontades românticas ou eróticas de ninguém. Das onze histórias, só uma não é contada do ponto de vista dela.

No Brasil do século 25, parte da Latinoamérica, nasce Bella, filha da militar Mara Nunes e do geneticista Perseu Sunne. Um dia, a menina é sequestrada por Tera e Tiago, um par de misteriosos foramundos, humanos que habitam colônias extraterrenas. Mara é chantageada e, para resgatar a filha, deve roubar do ex-namorado Perseu dados secretos sobre uma nova tecnologia de aperfeiçoamento genético.

É aí que começa o primeiro conto. No ímpeto de reaver a criança, Mara obtém os dados à base de violência, deixando um rastro de veículos destruídos e policiais mortos. Mas as dificuldades não acabam aí. Por que os foramundos terminariam o negócio tão cedo, quando ainda podem exigir muito mais da mãe e, principalmente, da promissora filha?

Bella é levada por Tera e Tiago. Sabendo que a menina é, na verdade, um ser biocibernético, com potenciais físicos e mentais inalcançáveis para pessoas comuns, os foramundos a treinam para absorver conhecimento, desenvolver múltiplos talentos, extrair informações, mentir e matar. Fazem dela uma espiã e assassina.

Bella é, assim, roubada não só da mãe e de seu mundo natal, mas de si mesma. Mudam seu nome e dão-lhe um propósito, sem jamais consultá-la. Ela agora é Shiroma; sua função é eliminar alvos e sobreviver para fazer tudo de novo; sua vontade não conta. É criatura e refém de seus captores. Tera e Tiago são a um só tempos pais e carrascos.

Mas Bella se lembra. Não esqueceu a mãe, nem a infância, nem o gosto da liberdade. Não entende a própria origem. As perguntas que lhe povoam a mente são muitas, e ela às vezes parece à beira da loucura, procurando consolo nas vozes do passado, que julga escutar dentro de uma concha marinha encontrada numa praia desconhecida. Quando decidir usar todas as habilidades que tem para obter respostas, ai de quem estiver no caminho.

Considerando que pessoalmente não sou muito afeita a histórias de ação, gostei do livro. As aventuras recheadas de colônias extraterrestres, espécies alienígenas, armamentos, nanotecnologia, conspiração, trans-humanismo e dilemas morais proporcionam uma leitura divertida.

Como pontos a aperfeiçoar, menciono a falta de uma dinâmica mais complexa entre os personagens (o que talvez se deva ao fato de que, a cada conto, a maior parte das pessoas que interage com Shiroma morre); e o incômodo com o conto “Os Fantasmas de Lemnos”, por mostrar que as ideias sobre o que são as mulheres e os homens, e sobre a necessidade da mulher de lutar por seu espaço (e como lutar), parecem ter parado no século 20. Era de se esperar que no século 25 a humanidade já tivesse superado a separação entre os gêneros, bem como a noção de binarismo absoluto. Mas, considerando os retrocessos legais e sociais do mundo real já no século 21, talvez eu não deva duvidar do contrário…

O livro, com capa do artista plástico Vagner Vargas, será lançado oficialmente neste sábado, 5 de dezembro, às 17 horas, no stand da editora Devir na Comic Con Experience!


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Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.