Mariana (MG): O Brasil que não queremos ver

Para relatar os efeitos do desastre ambiental ocorrido em Mariana (Minas Gerais), convidei Thulla Christina Esteves. Thulla é Geóloga, mestre em Geotecnia pela EESC-USP (Escola de Engenharia de São Carlos – Universidade de São Paulo), e atualmente é vice-Diretora da Faculdade de Geologia da Unifesspa – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

Thula
Thulla Cristina Esteves, Vice-Diretora da Faculdade de Geologia da Unifesspa, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

Thulla Cristina Esteves, Vice-diretora da Faculdade de Geologia da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará).

Por Thulla Christina Esteves

No dia 5 de novembro, ocorreu o rompimento de uma barragem de rejeitos, provenientes da extração de Ferro da Mina Germano, da Samarco Mineração S.A., que pertence à Vale (antes Vale do Rio Doce, triste ironia) e à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa Billiton. Segundo a Samarco, a barragem que rompeu foi a do Fundão, danificando assim, uma outra barragem, a de Santarém.

Como resultado foram despejados, aproximadamente, 60 milhões de metros cúbicos de lama tóxica no subdistrito de Bento Rodrigues (Mariana – MG) e, que pelo Rio Doce, seus afluentes e subafluentes, chegou ao mar.

Os impactos ambientais

Os impactos ambientais, causados nas etapas de instalação, operação, fechamento, ou a algum acidente relacionado à um determinado empreendimento, podem ser classificados de diversas formas: quanto à origem (direto ou indireto); sentido (positivo ou negativo); acumulação (linear, exponencial…); magnitude; temporalidade; extensão (local ou regional); reversibilidade; entre outros.

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Os impactos ambientais NEGATIVOS DIRETOS deste desastre, hoje já classificado como o maior do Brasil, são inúmeros e, até o momento, incomensuráveis: impactos sociais; impactos bióticos (morte da fauna e flora aquáticas, e terrestres); e impactos abióticos (solo e águas superficiais).

O Subdistrito de Bento Rodrigues foi totalmente destruído. Mais de 500 pessoas ficaram desabrigadas, sete mortos e mais de uma dezena de desaparecidos (os números divulgados estão muito abaixo dos citados pela população da região). Ao assistir ao vídeo, é impossível não se comover com o que foi dizimado pela Samarco. Qual é o valor para devolver a vida a estas pessoas? Outras comunidades como a de Paracatu, Pedras, e muitas outras, de Minas Gerais ao Espírito Santo, sofreram, do mesmo modo, danos irreparáveis. Todos os municípios cortados pelos rios e córregos que receberam esta lama tiveram inúmeros impactos.

Imagem de um cartaz no protesto contra Samarco em Mariana

Contrariamente aos comentários feitos pela Samarco, que dizem que a lama é composta por material não tóxico, como água, areia, sílica e óxido de ferro, a ONU afirma que a lama é tóxica. A análise deste material realizada pelo SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Baixo Guandu (ES) mostrou níveis elevados de arsênio, chumbo, cromo, zinco, e manganês. O solo soterrado por esta lama, que quando seca tem um comportamento de um material impermeável como um concreto, perdeu todas as suas funções ecológicas. “Esse resíduo de mineração é infértil porque não tem matéria orgânica. Nada nasce ali. É como plantar na areia da praia de Copacabana“, diz Maurício Ehrlich, professor de geotecnia da Coppe-UFRJ (centro de pesquisa em engenharia da Federal do Rio).

Segundo o Canal Rural, no município de Mariana existem cerca de 1.500 produtores rurais, 90% adeptos da agricultura familiar. A estimativa é que este acidente tenha matado, entre equinos e bovinos, mais de 1.500 animais. Peixes do rio Doce foram dizimados. A Samarco relata que a morte dos peixes foi decorrente do grande volume de partículas finas, produzindo engasgamento dos peixes. No entanto, biólogos acreditam que os animais  morreram devido à diminuição de oxigênio na água, soterramento ou intoxicação.

Agora, falando sobre alguns dos impactos NEGATIVOS INDIRETOS deste desastre, a contaminação dos rios levou à interrupção no abastecimento de água na área.“Sem água tratada, a cidade de Galileia, no Rio Doce, está enfrentando um surto de diarreia e vômito…” ,” …A cidade, de 7 mil habitantes, era abastecida pelo Rio Doce, que foi contaminado com a lama proveniente do rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, na região Central do Estado”.

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Outro exemplo de impacto negativo indireto é citado pelo site www.em.com.br, no qual a interrupção do funcionamento da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga), assoreada pela lama, está trazendo enormes prejuízos financeiros ao Município de Santa Cruz do Escalvado, situado a 100 km da Mina do Germano, que tem na usina a sua maior fonte de arrecadação.

Já sobre os impactos NEGATIVOS CUMULATIVOS, José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia (IIE), falou ao Estado de São Paulo em 14 de novembro: “…a provável contaminação da lama por metais terá consequências em cascata, porque vários animais se alimentam de outros que foram contaminados. Esse ciclo alimentar chega até o ser humano, com efeitos cumulativos. Ignoramos também se essa contaminação química atingiu os lençóis freáticos“.

Soterramento
Soterramento do solo com camada de lama

A lama tóxica, além de afetar a biodiversidade da região de água doce de Minas Gerais, também pode influir na biodiversidade encontrada no estado de Espírito Santo. Para evitar o contato com a água contaminada, filhotes de tartarugas foram retirados de seus ninhos. Biólogos também citam a susceptibilidade da população de anfíbios pela intoxicação por metais pesados devido sua a sua pele permeável.

Planos para sair da lama

Tecnicamente, a recuperação da área atingida deverá ser extremamente complicada e demorada. O primeiro passo, e o mais urgente, seria a delimitação e adequação de uma área viável ambientalmente para o recebimento deste material que está sendo removido, ou seja, um local que possa responder como um aterro industrial.

A Samarco também ainda não sabe para onde irá levar todo este material que está sendo retirado das áreas urbanas de alguns municípios e distritos afetados. Relatos indicam que a Samarco está depositando a lama na entrada de uma cidade próxima à Mariana, Barra longa, nas margens do Rio Carmo.

O segundo passo, seria a elaboração, também urgente, de um projeto de recuperação das áreas degradadas, por equipe multidisciplinar, o qual proponha:

  1. A realização de um diagnóstico ambiental de toda a área impactada, ou seja, de todos os fatores ambientais afetados, através de imagens, levantamentos de campo, e ensaios em laboratório;
  2. A identificação de, no mínimo, uma medida mitigadora para cada impacto ambiental mapeado;
  3. A elaboração de um plano de monitoramento para as medidas mitigadoras escolhidas. Neste, é importante ressaltar que trabalhos de recuperação ambiental, não existem receitas, modelos…O trabalho é muitas vezes comparativo e/ou por tentativa e erro. Segundo o Portal Brasil, o Governo Federal já iniciou ações para enfrentar os impactos causados.

Somos todos culpados

O desastre foi o resultado da trágica combinação de três fatores: O primeiro está relacionado aos pontos negativos do próprio projeto: um projeto de alto risco, devido aos fatores geomorfológicos associados, como o relevo (alta declividade e vale “encaixado”); mal monitoramento; e ausência de sistema de alarme de acidentes. Isso mesmo, acredite! Não haviam sirenes para alertar algum acidente. O segundo, à fiscalização quase inexistente e ineficiente, e também, muitas vezes, corrupta. A Vale doou nas últimas eleições, 80 milhões para campanhas políticas. O terceiro fator está associado à falta de participação da sociedade, economicamente refém destas empresas.

Nossa legislação ambiental, mesmo com  seus pontos fracos, nos dá instrumentos, tanto para cobrar um projeto bom e seguro, como também para cobrar uma fiscalização eficiente. Todo o processo de licenciamento ambiental de empreendimentos, que possam vir a causar significativo impacto ambiental, prevê AUDIÊNCIAS PÚBLICAS. Mas estes instrumentos precisam ser usados. Somos culpados, também, por um modelo de consumo, que só alimenta esta extração mineral desenfreada. Para cada duas toneladas de Ferro (produto final), são geradas uma tonelada de rejeitos. Quando vamos mudar isso? Quando vamos consumir menos ou consumir somente o necessário? Ainda somos culpados por colocar no poder o que existe de pior, os sustentadores da lama tóxica.

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Para finalizar com chave de ouro, a Samarco está chantageando moradores e seus colaboradores, exigindo destas pessoas manifestações a favor da volta das atividades da mineradora: VOLTA SAMARCO; SOMOS TODOS SAMARCO. Ou seja, a Samarco continua despejando outro tipo de lama tóxica nestas comunidades, sem dó nem piedade.

A dimensão do desastre e do descaso fez com que a ONU declarasse que as ações das companhias e do governo brasileiro são insuficientes. A sociedade precisa ser participativa. Portanto, devemos primeiro eliminar um outro tipo de lama tóxica que contamina nossas ações. Parabéns a muitos voluntários que estão ajudando as comunidades locais.

Você está preparado para fazer sua parte?

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Ginásio em Mariana com doações para as famílias afetadas

Fontes:

Clique nas palavras em negrito

Diagrama do desastre “Rastro de Lama”.

Agradecimentos:

Giovanna de Guzzi, fotógrafa e estudante de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, que cedeu o material fotográfico material fotográfico.

Tamiris Santos Pessoa pela revisão do texto.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.