Divertida Mente | Às vezes precisamos ficar tristes

Depois de meses que foi lançado, finalmente sentei pra assistir a Divertida Mente, e confesso que me arrependi por não ter feito isso antes. O filme, é com certeza, uma das melhores produções da Pixar e, arrisco dizer, um dos melhores filmes infantis que já vi.

Divertida Mente personifica cinco emoções na cabeça de uma menina de 11 anos chamada Riley. Como até o momento a vida de Riley foi feliz, a emoção “principal” dela é a Alegria, mas nela também convivem o Raiva, a Nojinho, o Medo e a Tristeza. A família da menina muda de uma pequena cidade de Minnesota para a movimentada San Francisco e, enquanto as emoções tentam reagir ao acontecido, Tristeza acaba tocando uma das memórias principais de Riley, causando uma confusão na sala de controle do cérebro e fazendo Alegria e Tristeza irem parar na área das memórias, deixando apenas Medo, Raiva e Nojinho no comando. Além de Alegria e Tristeza precisarem retornar, elas devem levar as memórias principais de volta para o centro de controle antes que todas as ilhas de personalidade sejam destruídas.

O filme não tem um vilão, é o interior de uma pessoa tentando se manter de pé enquanto várias coisas acontecem ao mesmo tempo ao seu redor. É divertido assistir, faz rir e chorar, ao mesmo tempo que também explica conceitos que podem ser difíceis para crianças. O mais legal é que Divertida Mente é um filme para adultos também, há piadas que agradam à plateia mais velha. O subconsciente é o lugar onde guardamos o que causa problema? Ri disso tanto quanto ria quando Tristeza se jogava no chão e falava que não ia andar.

Os personagens são marcantes, até mesmo os que estão fora da mente de Riley. O show mesmo, porém, acontece com as emoções e é interessante ver como cada pessoa se identifica mais com uma emoção ou como reage às outras. Acabei me pegando várias vezes no filme dizendo o quanto a animação de Alegria incomodava e o quão irritante Tristeza podia ser. Isso fora do universo personificado também faz muito sentido. A alegria é uma emoção que pode incomodar outros ao seu redor, a tristeza dos outros pode nos irritar, o medo é exagerado, a raiva nunca está feliz com nada e o nojo é… Bem, é nojento.

É boa a escolha de uma menina para protagonista – sermos chamadas de “sentimentais” e “confusas” e transitarmos de crianças para adolescentes pode ser algo muito difícil na sociedade machista em que vivemos.

Não são só as piadas e a esperteza do filme fazem Divertida Mente ser legal tanto para crianças quanto para adultos, mas também a mensagem principal. Antes de falar sobre isso, vale lembrar que o resto do texto possui spoilers do filme.

A tristeza pode até parecer ruim, mas ela precisa ser sentida para que possamos seguir em frente e superar o problema. Não são poucos os adultos que não aprenderam isso, várias pessoas vão dizer que a tristeza deve ser evitada a qualquer custo; afinal, ela machuca. Mas quando colocamos isso em um filme e personificamos essas emoções, parece fazer muito mais sentido. Apesar de Alegria parecer ser a única que podia resolver a questão, tanto ela quanto a plateia aprendem que na verdade é Tristeza quem tem o poder de consertar as coisas.

Enquanto Nojinho, Medo ou Raiva tentavam controlar a situação, Riley continuava tendo problemas, nenhum deles tinha ideia de como fazer a menina superar o que estava passando; no final das contas, nem Alegria tinha. Tudo o que Riley passou, todas aquelas bolas de memórias que foram aos poucos deixando de ser tão amarelas, tão alegres, não vão simplesmente sumir: ela não pode encarar isso e se forçar a ficar feliz ou com raiva. Riley precisa sentir aquilo, e só Tristeza tem a capacidade de fazer isso, porque é só quando a sentimos que tudo pode voltar a ficar alegre.

Há também a questão de como certas memórias podem mudar ou ter vários sentimentos envolvidos, e é interessante que Riley tenha passado por isso com 11 anos. Ela é nova, suas emoções não entendem que uma memória pode trazer vários sentimentos. Também não entendem que uma memória não precisa ser só triste ou só alegre, que Tristeza pode sim tocar em memórias que um dia foram alegres e talvez só a partir disso Riley consiga olhar para essas coisas novamente e lidar com elas.

Tristeza é irritante sim e ela machuca, uma vez que quando toca em algo vai se alastrando por toda a nossa mente, mas é só depois que essa onda azul vem, só depois que choramos e deixamos toda a tristeza sair, é que podemos voltar a ficar felizes, é que podemos olhar para a memória azul, passar o dedo nela e vê-la amarela, com alegria. É bom que as crianças tenham essa visão mais saudável da tristeza, mas também é importante que os próprios adultos parem de fugir dela.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.