Sobre o desprestígio da inteligência e o problema da mídia com os Cosplays

Na minha época, ser nerd era ruim, agora tá na moda”.

Vocês já devem ter ouvido, ou mesmo citado essa frase antes. Em um sentimento de nostalgia e aversão às mudanças que o tempo traz, os mais velhos dos “nerds” tendem a separar os novos nerds do seu passado, talvez numa tentativa de valorizar sua luta por ter sofrido tanto por simplesmente gostar de algo que não era considerado legal, ou na moda. Eu já fui adepta dessa frase… lia escondida meus quadrinhos para não ser aloprada pelos colegas (até não dar mais a mínima), e era ofendida por jogar RPG como se fosse a coisa mais idiota do universo… pior, tirava notas boas! Mas notei com o tempo que não havia nada errado em “nerd estar na moda”, era ótimo para mim! Ter tudo ao alcance num curto clique na internet, e não através de longas viagens de ônibus para adquirir uma fita de fansub e assistir na solidão da minha casa. Mas a verdade é que nenhum de nós estava certo… ser nerd NUNCA passou a ser legal, porque a moda ainda é, e sempre será a ignorância! Com a pequena diferença que, agora nós estamos em contato um com os outros, e não escondidos e envergonhados em nossos cantos. Agora, nós podemos revidar com mais força…

Aquela foto ilustrativa…

O cosplay, como qualquer outro hobbie, não está isento das influências sociais de nossa cultura. Nós estamos expostos aos mesmos preconceitos e problemas que qualquer um poderia estar, com a diferença que nós… bem, somos bem mais circenses, como um prato cheio pra mídia. Armaduras brilhantes, peles coloridas, perucas e lentes exóticas. Quando comecei o hobbie em 2003, era claro o brilho nos olhos dos repórteres que faziam cobertura nos eventos. Eles não faziam idéia do que era aquilo, mas apontavam com veemência para nós e gritava às câmeras: “Filma eles!”. Por vezes éramos cenários de fundo: “Faz alguma pose aí enquanto entrevistamos o dono do evento”, por vezes éramos a piada: “Sua mãe deixa você sair assim na rua?”. Depois de 2007, quando eu só me dedicava a cosplays de Comics, a procura era maior… ninguém conhecia aquelas personagens dos animes, então a TV queria os super heróis, e foi assim que conheci uma parte considerável das mídias… Cultura, SBT, Sesc, Globo, Band, Rede TV, Estadão, Veja…. Uma parte delas só queria uma foto para ilustrar, pouquíssimas queriam nos conhecer de fato, outros só queriam gente fantasiada em programas competitivos (é, nunca ganhei nada, mas era divertido admito). Nesse tempo aprendemos quem queria mesmo nossa presença, e quem queria nos humilhar… até por que, conhecíamos bem a humilhação dos tempos de escola. Começamos a recusar algumas mídias, ganhamos experiência, e começamos a revidar…

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Matéria do UOL dizia que cosplayer tem transtorno de personalidade.

A verdade, é que o meio nerd também pode ser bem hostil entre si, mas todos sabemos que é preciso um inimigo em comum para que adversários se unam em um objetivo único. Bastou que o UOL praticasse da mais porca prática jornalística, para que os cosplays se unissem em prol de sua imagem! Em poucas horas, a internet estava cheia de protestos, com o apoio de jornalistas e psicanalistas prontos para contestar a posição do UOL de tirar as frases dos cosplayers de contexto somente para chamá-los de loucos. Não demorou muito até que a retratação chegou! Aquilo era algo novo, um grupo de pessoas hostilizadas até mesmo por outros nerds, se unindo para exigir o devido respeito a um grande portal de notícias, e conseguindo! Nós descobrimos que existia muito mais poder nessa união, e não ficaríamos mais calados, não poderíamos mais ser os palhaços da mídia!

Mas vamos voltar um pouco para o nosso universo agora…

Panico se vangloriando de fazer fama de forma negativa…

Dentro desse mundinho de lycra e durepox nós encontramos amigos com gostos em comum, ideologias semelhantes, e passamos a nos focar apenas nos assuntos de nosso interesse. Não somos mais obrigados a conviver com aqueles que querem nosso mal, logo podemos viver aliviados com quem realmente nos importa. Temos o poder de mudar a posição das mídias, recusar entrevistas, ler somente as notícias das séries, quadrinhos e filmes que amamos, além das notícias sobre tecnologia, ciência, e geografia que costumam servir no pacote de um nerd mais tradicional. Mas o que nos passou desapercebido, é que nos “isolamos” no quesito “mídia”. Nós não somos mais forçados à programação popular que bebe da vulgaridade humana, e quase não sabemos mais quem são os rostos das pseudo celebridades que emergem da futilidade midiática numa tentativa patética de se tornarem famosos. Eu particularmente nunca tinha ouvido falar ou visto os “““““““jornalistas”””””” Lucas Maciel e Aline Mineiro, até que ocorreu a polêmica matéria do Pânico na Band durante a Comic Con Experience. O que eu jamais poderia imaginar, era a repercussão que o ocorrido teve depois dos protestos em massa que os cosplayers fizeram mais uma vez (graças à denuncia de Myo Tsubasa)!

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A denuncia de Myo Tsubasa sobre o abuso do programa Pânico

O Pânico já é popularmente conhecido pela sua “qualidade” de humor. Bundas expostas, humilhação dos participantes, e uma vergonhosa disputa para aparecer na TV da parte de entrevistados bêbados. No entanto, eles decidiram explorar um mundo que não era deles, eles tomaram a falha decisão de entrar num evento nerd, e aloprar todos que estavam em seu espaço, onde seu hobbie é aceito e apreciado, para apontar o dedo e nos lembrar de que ser nerd não está na moda. Os “entrevistadores” puxavam os participantes sem se identificar ou pedir autorização de imagem e começavam a cuspir aloprações aos cosplayers no local que deveria ser seguro para eles. Eles vieram para nos lembrar que zoar o nerd é comum, e tão aceitável quanto lamber uma menina sem a permissão dela e colocar na TV…. Pera? Não é aceitável não! Todos nos focamos em falar da lambida (que concordamos, foi a perda total de limites), mas o que nem todos repararam foi como todos os entrevistados foram sumariamente diminuídos e isso foi encarado como… normal! “O Pânico humilha todo mundo, é assim mesmo”, mas não deveria ser! E ninguém mais que o nerd, excluído, aloprado, diminuído e humilhado ao longo de toda sua vida, deveria entender melhor que isso NÃO DEVERIA ser normal!

Há algum tempo, “nerd” era sinônimo de inteligente. Era a pessoa que estudava, que pesquisava, e que nas horas vagas se divertia com produtos pops recheadas de fantasia e ficção científica. O que entrou na moda hoje, foi a cultura pop que permeia nosso universo, mas nunca quem somos! Ser inteligente não é moda, e não é difícil entender por que… é muito mais fácil controlar um público ignorante. Segundo Chomsky, uma das ferramentas mais eficientes da manipulação das massas está em valorizar a ignorância e mediocridade, e desprestigiar a inteligência. O programa Pânico na Band é a paródia dessa filosofia, ele nasceu como a subversão do conceito de certo e errado na televisão brasileira, mas passou sistematicamente a se tornar o produto que ele mesmo parodiava. Se antes colocar uma mulher semi-nua dançando ao fundo era uma caricatura da TV, hoje é parte de seu principal produto. O nerd (em sua maioria) não consome esse produto, e naturalmente não aceitaria ser parte dele. Quando Lucas e Aline adentraram a CCXp, eles demonstraram sequer ter feito a mínima pesquisa para uma matéria, ao dizer que Frank Miller tinha criado o Batman e o Wolverine (wat?!). Eles se “fantasiaram” de nerd não para “brincarem” com eles como tentaram se justificar, mas para fazer deles uma piada, e em dado momento ainda ostentarem o fato de ganharem para fazer aquilo. Isso, senhoras e senhores, é a mediocridade sustentada por uma mídia pobre, um programa que se desgasta cada vez mais e não admite que está mais e mais afundado, ao ponto que foram BANIDOS do evento, e saíram em todas as mídias como os grandes babacas da história.

A resposta foi em forma de deboche.

Nessa semana, recebemos uma notícia um tanto quanto inquietante: “Me procuraram da Band, disseram que estão procurando cosplayers para participar do programa do Pânico” disse uma amiga. E ninguém acreditou, será que eles seriam tão idiotas a ponto de procurar cosplayers para o programa depois do ocorrido? Eles são. Não contentes com estarem em todas as mídias de forma completamente negativa, contrataram um grupo de “atores” e paniquetes para se vestirem de fantasias e perucas baratas (já que não conseguiram cosplayers, dã) para rir da situação em que Lucas Selfie seria julgado pela Liga da Justiça (com uma Estelar no meio, vejam só) pelos seus crimes. Admito, não vi o programa… não preciso ver para saber que aquilo era completamente desnecessário e deselegante. A provocação foi clara, eles acharam divertido como os cosplayers se revoltaram com os abusos deles, mas aqui o objetivo deles é tirar de nós a razão. Eles querem barraco, eles querem brigas sem sentido pra filmar e colocar na TV. Mas não somos esse tipo de gente que eles adoram televisionar….. não somos cenário de matéria, não somos motivo de piada, somos pessoas como qualquer outra e merecemos respeito. Não vamos mais dar audiência a esse tipo de gente, e como os números (em queda) comprovam, ninguém mais aguenta esse tipo de programa. Se você cosplayer, foi exposto, procure a justiça. Se você, cosplayer, foi desrespeitado, joga na rede para todo mundo ver (funciona muitas vezes). Se você, ser humano, teve sua intelectualidade ofendida, não se esconda no canto solitário do seu quarto, vá a luta! Este é o ano que toda a comunidade cosplayer mostrou que tem força SIM se unida, e todos deveríamos lembrar disso!

Será que serão os cosplayers que finalmente vão derrubar esse programa ruim?” – perguntou meu tio no jantar de família.

Não sei… mas seria lindo!


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Dandi

Ilustradora, designer, cosplayer, gamer, fissurada em RPG e cinema. facebook.com/DandiCosplayer/