This One Summer (“Finalmente o Verão”): uma obra honesta e delicada sobre a adolescência e a busca da identidade enquanto mulher

[cuidado: esse post contém leves spoilers!]

This One Summer (“Finalmente o Verão”, na tradução portuguesa), a princípio, não é uma HQ autobiográfica. As autoras, Jillian e Mariko Tamaki, que são primas, cresceram em cidades distantes e não passaram os verões juntas em uma casa na praia, ao contrário da protagonista Rose e sua amiga Windy. Contudo, a história se constrói sobre situações tão familiares – o fim da infância e a busca da identidade enquanto adulto (e mulher, especificamente) – que é impossível não se identificar.

O livro tem cerca de 320 páginas e eu li tudo em uma noite. Tuuuudo beeeem, admito que tinha várias páginas duplas de ilustrações (maravilhosas) e sem nada escrito, o que tornou a leitura mais rápida do que a de um Harry Potter da vida. Mas o que não me deixou largar a HQ até o fim foi o fato de eu estar lendo ali a minha própria história, e com certeza a história de muitas, muitas outras meninas.

Mariko e Jillian Tamaki
Mariko e Jillian Tamaki

As férias na praia e a nostalgia pela infância perdida

Rose e Windy são amigas que se veem uma vez por ano, quando suas famílias vão passar o verão na Praia Awago. Apesar de suas idades não serem ditas na história, fica claro pelas dinâmicas familiares e pela aparência das personagens que se tratam de meninas em torno dos 11, 12 anos, em algum lugar nebuloso entre a infância e a adolescência. Rose é mais alta, contida e mordaz e vive com os pais tradicionais. Windy tem traços mais infantis, é franca e expansiva, e é criada pela mãe meio hippie e por uma avó que ocupa a posição de matriarca da família.

A primeira coisa a notar sobre a HQ é o clima de sutil nostalgia que a permeia do início ao fim. As páginas são coloridas em tons de azul que dão um aspecto de sonho, contrabalançado com as pinceladas grossas e dramáticas da ilustradora Jillian Tamaki, e cada ação contada na história, assim como cada lugar visitado, é parte de uma tradição que foi se construindo desde que Rose tinha cinco anos.

Um dos cenários incríveis de Jillian Tamaki
Um dos cenários incríveis de Jillian Tamaki

As férias de verão na praia eram um costume da família da autora Mariko Tamaki enquanto ela crescia no Canadá. Apesar de nem todo mundo ter vivido essa mesma experiência (até porque dificilmente a praia no Canadá lembra em alguma coisa a praia no Brasil), é comum que as famílias se reúnam no final do ano e desempenhem as suas próprias tradições, seja na praia, no interior, na gringa e por aí vai. Então é fácil entrar no clima de saudosismo e melancolia que o quadrinho procura evocar.

A descoberta das camadas mais profundas das relações familiares

O fato de a história se passar durante as férias em uma casa de praia, além de nostálgico, também oferece um cenário único pra análise da dinâmica interna da família de Rose. Seus pais estão passando por conflitos que, aos olhos da menina, parecem muito simples: a sua mãe é uma estraga-prazeres que não gosta de se divertir, ao contrário do seu pai, que é um homem brincalhão e cheio de energia. Isso faz com que Rose sinta que a mãe não gosta da companhia dela e do pai e, consequentemente, ressinta-se com isso, devolvendo na mesma moeda e tratando-a com frieza e rispidez.

No decorrer da história, contudo, a cena vai se ampliando e ao leitor é permitido ver que algo muito mais sério se passa ali. Percebemos que, apesar da aparente alegria e casualidade do pai de Rose, ele está se esforçando pra dar um ar de normalidade às férias da família, e por vezes acaba forçando a barra e fazendo a esposa se sentir ainda mais culpada pela própria depressão. Por isso, ela acaba se distanciando ainda mais do convívio com ele e a filha.

A razão pela qual ela está passando por esse período de isolamento e tristeza é descoberta por Rose ao escutar, escondida, uma conversa entre a sua mãe e a de Windy, e é tão dolorosamente real e, ao mesmo tempo, impossível de ser totalmente compreendida pelos seus entes queridos que me fez chorar. A minha identificação com essa personagem e com a protagonista ocorre em níveis diferentes; enquanto que eu me identifico com a Rose por ter vivido a ruptura entre infância e adolescência de forma parecida com a dela, me identifico com a sua mãe por reconhecer que existe uma solidão inerente à natureza humana e que, por mais que cultivemos todo o tipo de relações de afeto com outras pessoas, há coisas na vida pelas quais inevitavelmente passaremos sozinhos.

"Na primeira vez que vim a Awago, eu tive medo de nadar no lago. Então a minha mãe me ensinou a abrir os olhos debaixo d'água"
“Na primeira vez que vim a Awago, eu tive medo de nadar no lago. Então a minha mãe me ensinou a abrir os olhos debaixo d’água”

Essa é uma das provas da grande habilidade e sutileza com que as relações humanas são tratadas pelas autoras. Jamais são proferidos julgamentos diretos sobre a índole ou a motivação dos personagens; percebemos as coisas como Rose as percebe, ao vivo e muitas vezes sem todo o contexto, sem um narrador onisciente pra nos dizer quem está certo e quem está errado. Isso fica por nossa conta e termina por nos fazer ver que, na verdade, não existem mocinhos ou vilões. Existem pessoas, e elas machucam umas às outras sem querer e sem parar, por mais que se amem.

O papel social tradicional da menina adolescente e a rivalidade feminina

Vale começar esse tópico dizendo que, pra mim, esse é o grande destaque da obra de Jillian e Mariko Tamaki. Eu nunca vi a questão da reprodução da rivalidade feminina enquanto um valor social imposto sobre as mulheres ser tratada de forma tão honesta em nenhuma outra obra de ficção ou não ficção.

Rose está começando a se interessar por garotos, mais especificamente o cara mais velho que trabalha na locadora que ela e Windy frequentam. Ela, tímida e insegura, tenta impressioná-lo com pequenos gestos que ele nem nota. Além disso, ela passa a detestar a moça com quem ele namora, frequentemente referindo-se a ela como “slut” (“piranha”) e presumindo que ela trai o rapaz e merece que ele a trate mal.

Rose tentando impressionar o carinha da locadora ao dizer que o filme Tubarão, recomendado por ele, não dava medo.
Rose tentando impressionar o carinha da locadora ao dizer que o filme Tubarão, recomendado por ele, não dava medo.

Enquanto ela reproduz a ideia socialmente reforçada de que a outra mulher é a inimiga e que o amor romântico é o prêmio a ser conquistado, o leitor, através do olhar atento de Windy, percebe novamente que na verdade as circunstâncias não são tão simples quanto uma vilã, uma mocinha e um príncipe encantado. Depois de ouvir Rose falando mal da garota gratuitamente algumas vezes, chamando a ela e às demais meninas mais velhas de “sluts” (“piranhas”), Windy finalmente a interrompe e diz: “ei… isso é meio sexista”.

Na cena descrita acima, Windy chama a atitude negativa de Rose em relação às outras meninas de sexista.
Na cena descrita acima, Windy chama a atitude negativa de Rose em relação às outras meninas de sexista.

A forma como as garotas foram criadas parece se refletir nesse aspecto particular de suas personalidades. Rose, que teve uma criação mais tradicional, se esforça para se encaixar no papel de jovem mulher vendido por revistas adolescentes, filmes e comerciais, que está estritamente ligado à vida amorosa e à quase obrigação de encontrar um parceiro romântico em detrimento de formar laços com outras mulheres. Já Windy foi criada pela mãe e a avó, que fogem ao padrão socialmente difundido de feminilidade frágil e dependente.

A mãe de Windy, inclusive, dá um apoio enorme à mãe de Rose, tanto emocionalmente quanto cuidando das meninas para que a amiga possa descansar. Ao contrário do próprio pai de Rose, que pressiona a esposa para que se sinta melhor logo e se divirta com a família, a mãe de Windy é paciente, prestativa e presente, mas sem ser invasiva. Esse é um exemplo maravilhoso de amizade saudável e mutuamente benéfica entre mulheres.

 

Rose e Windy

This One Summer é uma obra maravilhosa. Além da arte expressiva e caprichada, a narrativa construída em conjunto pelas autoras Mariko e Jillian Tamaki é um relato honesto e delicado sobre tornar-se uma jovem mulher e descobrir o que isso significa para a sociedade e para si própria. É uma leitura rápida e agradável, porém não é rasa, tanto que me arrancou lágrimas e provocou uma série de reflexões. Recomendo muito!

O livro pode ser adquirido em inglês aqui ou em português de Portugal aqui.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.