Tristeza nossa de cada dia

Conforme vamos crescendo, a gente sempre escuta coisas como “não chora”, “não fica triste”, sendo que há momentos e situações em que queremos ficar tristes e chorar, mas porque as pessoas têm tanta aversão à esse sentimento?

Meses atrás assisti o filme Divertida Mente [e se você não assistiu o filme ainda, oops, spoiler], e durante todo o filme eu pude perceber como cada sentimento, como cada emoção tem o seu papel fundamental nas nossas vidas. Às vezes é necessário que nós fiquemos nervosos, que fiquemos com medo, que tenhamos nojo de alguma coisa, que fiquemos felizes, mas principalmente, que fiquemos tristes.

“Ué, mas quem é que quer ficar triste?”

Há poucas semanas o meu relacionamento acabou, um relacionamento estável (talvez “não tão estável” assim), que tinha tudo para ser duradouro. Acabou por motivos que eu (des)conheço, acabou por razões-de-sempre que eu tento não pensar muito, e isso é entristecedor. Eu ainda estou triste. Através dessa tristeza que eu sentia (ou sinto), aconteceram coisas boas na minha vida. Pessoas se aproximaram de mim querendo me consolar ou me ajudar, e acabaram ficando bem próximas, e claro, eu comecei a olhar alguns caras com outros olhos, olhos que anteriormente diziam “sou apenas amiga, pois eu namoro”, e hoje dizem “to solteira”.

A tristeza fez com que eu conseguisse refletir melhor sobre outros rumos da minha vida, como o de sair da casa dos meus pais. Eu estava fazendo planos com esse namorado, planos de morarmos juntos, de vivermos juntos, de começarmos a ter uma vida de casal, e a tristeza me fez perceber que eu só tenho 21 anos e que me “casar” agora seria… ruim. Talvez essa seja a palavra certa. Quantas oportunidades e experiências eu poderia perder (ou não) se tivesse oficializado isso? Seria ruim assumir um compromisso tão sério, de morar junto com quem você se relaciona, tendo apenas 21 anos de idade, e pior ainda, se envolvendo com alguém instável, que joga tudo pro ar quando qualquer dificuldade aparece (como aconteceu duas vezes nesse relacionamento, onde tive que ouvir “quero terminar”, “não preparado pra um relacionamento”, no mínimo duas vezes). Claro que se você tem 21 anos e está seguro disso, de que quer casar ou viver uma vida à dois, vá fundo, mas com base nas minhas experiências, eu poderia estar fazendo uma grande burrada.  E esse sentimento que muitas vezes as pessoas tentam ignorar ou suprir com outras coisas, me fez abrir os olhos e o coração, e fez com que eu focasse minha cabeça em outras coisas.

Meu peito ainda dói toda vez que penso nisso, que penso nele. Foi o relacionamento que mais durou, e provavelmente o mais intenso, e isso fez com que eu me apegasse muito a ele e a toda a situação a qual ele me proporcionou, como me apresentar aos familiares, que eram uns amores comigo. Naquela família achei o que nunca encontrei na minha: aceitação, e isso começou a refletir no meu interior, “eu quero fazer parte dessa família”, mas nem sempre as coisas são como a gente planeja. Confesso, não tinha planos de meu namoro acabar, mas é necessário que cada pessoa perceba até que ponto é possível segurar as pontas, e acima de tudo, até que ponto se submeter a certas situações é bom. O amor próprio precisa ser posto em primeiro lugar. Algumas pessoas consideram o “amor próprio” como algo egoísta, e assim como a tristeza, às vezes ser egoísta é se proteger, se privar, cuidar de si mesmo. E é exatamente o que eu estou fazendo.

Nesse momento delicado, uma das coisas que mais acontece é lembrar de algum momento em que estivemos juntos e não chorar. Segurar o choro por lembrar daquele café da manhã, do jantar, da tarde no parque, tudo é motivo pra choro, de lembrar que aquela pessoa não está mais com você e que aparentemente os momentos juntos já não valem nada. Mas eu aprendi com a Pitty, em sua música “água contida”, que chorar faz bem, que toda água parada uma hora transborda. E isso significa em que alguns momentos a gente tem que abrir a torneirinha e deixar toda aquela água que está presa na gente correr.

Apesar de todo o choro e de toda tristeza, eu criei um lema pros meus momentos de dificuldade: “estou triste, porém não estou morta”, e exatamente por isso que não devo deixar de seguir minha vida e de focar nos meus objetivos. Eu posso sim arranjar novos amores, ter casos esporádicos, relacionamentos de curto (ou longo) prazo, de sair novamente, ter novas experiências, me arriscar mais e não desistir. A minha tristeza não me fez parar, ela me fez pensar se tudo o que estava acontecendo tinha que de fato acontecer, e tinha sim.

Hoje, dias depois do término, eu ainda choro, eu ainda fico triste, e confesso, abracei minha tristeza, porque foi ela quem me deu forças pra continuar, pra pensar, e pra perceber que é ok ficar triste, pois essa tristeza pode se transformar em força, e isso me lembra aquele velho ditado, “há males que vem para o bem”.


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Ariel Nolasco

Transfeminista, gamer, aquariana com vênus em aquário. Engajada com questões sociais, faladeira de primeira.