Como Elektra mudou minha vida

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Eu tinha 12 anos e minha vida aparentemente havia acabado. Trágico? Foi bastante, pra mim, na época.

Nasci numa família mega complicada. Bem, até aí, todas as famílias são complicadas em maior ou menor grau, certo? Mas a minha havia ganhado o prêmio. Fato.

Explicando: meus pais biológicos haviam perdido minha guarda e eu fui morar com uma nova família. Isso, resumindo em uma frase  curta e simples uma história complexa e longa que me deixou com cicatrizes indeléveis e que ardem até hoje.

Tudo era novo. E bem difícil e dolorido. Eu estava em uma idade complicada, na qual geralmente o adolescente busca saber quem é. Isso meio que se potencializa quando você praticamente muda de nome, de casa, de família. De vida.

Eu me sentia no serviço de proteção à testemunha, esses de filmes policiais americanos, sacam? Pois é. A sensação era essa.

O meu pai adotivo era do meio de quadrinhos e minha nova casa era forrada de gibis por todos os lados. Formatinhos, mensais, graphic novels, edições de colecionador, grandes referências. Era tomada por gibis e tintas,telas, pranchetas, esquadros, aerógrafo, pincéis, lápis e cheiro de benzina (essa parte era boa).

Em um mês eu devorei TUDO o que havia ali. Era uma forma de me isolar da realidade, de escapar, de aplacar a dor: ler. Ler, ouvir música e dormir. Pensando bem, minha adolescência não foi tão diferente da dos outros adolescentes que conheci, não é mesmo?

Li todos os livros, daquela casa, mais os que retirava na biblioteca, li todos os gibis, li todas os exemplares de Heavy -Metal, todas as Chicletes com Banana, todas as Generais, tudo. Li bulas de remédio, li receitas de bolo, li embalagens de alimentos, li rótulos de produtos de limpeza, li a Bíblia. Inteira. Três vezes! Não havia mais nada que eu não tivesse lido.

Um belo dia, cheguei em casa depois da escola e abri um armário que eu nunca havia aberto. Estava sozinha. Fucei no armário procurando algo para ler e lá em cima, na última prateleira, havia algumas revistas.

Eram as revistas “proibidas” para a minha idade, a saber: Milo Manara, Serpieri, Crepax… e Elektra Assassina, de Frank Miller, uma graphic novel, com uma arte incrível na capa: Uma aquarela, meio abstrata, borrada, suja, com uma mulher alta, imponente, de vermelho, segurando uma arma que, pelas leis da física, seria praticamente impossível segurar, pois deveria ter o dobro do peso dela.

Transmitia poder. E ao mesmo tempo, o desenho era incrivelmente fálico, sexual. Talvez muito mais do que as capas apelativas das demais obras eróticas que jaziam na prateleira. Muito mais complexa. Instigante. Me fez querer folheá-la.

De primeira, me chamou a atenção pela arte. Eu já havia lido histórias da Elektra, a ninja assassina namorada do vigilante nova-iorquino Demolidor, criada por Frank Miller, nos gibis mensais do herói, que havia se tornado o meu preferido, aliás. Mas no gibi mensal ela parecia frágil , titubeante e apaixonada, nada de novo para uma sidekick feminina na época.

Ali ela aparecia diferente. E sozinha. Protagonista. Única e absoluta.

Bem, amiguinhas (os) pode um gibi mudar a vida de alguém? Well, eu sou a prova de que sim. Eu devorei Elektra Assassina. Li em meia hora. Foi como uma epifania, uma experiência religiosa. Foi como receber rajadas ópticas direto do papel para as minhas retinas. Não sei como não convulsionei. Na verdade, convulsionei, metaforicamente. Entrei em REM, fiquei loucona, minha cabeça explodiu e um novo universo se descortinou à minha frente.

Eu fechei o gibi e fiquei mais meia hora quieta, com a mão sobre a capa, tentando absorver tudo aquilo. Depois abri novamente. E li de novo. E repeti esse processo de ler e maturar tudo aquilo, umas duas vezes. E aí, ficou mais do que garantido que, o que eu tinha visto e aprendido, nunca mais poderia ser desvisto e desaprendido. Elektra fora tatuada em minh’alma.

A arte era um espetáculo à parte. Uma obra- prima de Bill Sienkiewickz , de quem sou devota eterna até hoje, –  e quem diria, é meu amigo de Facebook. Eu morro a cada mensagem inbox que ele me manda. Não consigo lidar com essa aproximação, de jeito nenhum –  Eram aquarelas, colagens, técnicas mistas. Algo sujo e confuso, que refletiam totalmente a complexidade e profundidade da obra.

Fugia completamente da arte tradicional de quadrinhos  que eu conhecia até então. Foi altamente impactante pra mim. Eu me identifiquei na hora com a personagem, que, no enredo, também está só, recém-saída de uma instituição mental. Também tem uma relação especial com sua família e isso gera nela angústia, revolta e dor.

Bem, se aquilo não era um paralelo com o que eu estava vivendo, só se aquele meme do anjinho descendo do céu com um bilhete me entregasse um e nele estivesse escrito:; “É, SIM”!

Elektra Natchios me ensinou a ser mulher. A tomar as rédeas da minha própria vida, a não ligar muito para a opinião alheia e cumprir com minha missão a qualquer custo. Me ensinou a ser  paciente e disciplinada, a me preparar  com afinco e dedicação para um objetivo, e ser perfeccionista, a ser excelente, a melhor no que eu me propusesse a fazer.

Ela me ensinou a lidar com a descrença e o julgamento da sociedade, com a arrogância dos homens, com suas tentativas sujas de dominação, mental e física.  Me ensinou a aguentar firme.  Me ajudou a ser dura na queda, não tão emocional e dramática, me ajudou a ser mais fria e racional; me devolveu a auto-estima, me deu novas armas, psicológicas, mentais, emocionais e físicas: por causa dela entrei no kung fu e fiz 10 anos da arte, que mudou meu corpo e minha mente, por exemplo.

Eu me identifiquei com seus métodos poucos ortodoxos e obscuros de justiça e sua aparência não tão pefeita assim. Não era uma heroína clássica, uma Mulher-Maravilha, linda e reluzente, brilhante, eleita pelos deuses, cuja honra e perfeição são capazes de cegar a tudo e a todos.

Elektra  era uma anti-heroína magrela. Não era bonita. Era estranha. Era monossilábica. Soturna. Dolorida. Desconfiada. Havia sido internada num sanatório, dopada, amarrada, abandonada. Depois, foi torturada pela SHIELD, testada, presa. Era desgraçadamente humana.

Sem superpoderes. Sem cinto de utilidades, sem super força, sem laço da verdade, sem capa. Sem nada. Apenas sua técnica e inteligência. Sua excelência e precisão. Sua força e perseverança. Ela era letal, discreta. Fazia o que precisava ser feito e abandonava o recinto, sem deixar rastros.

Não tinha par romântico, namoradinhos, não deixava que essas coisas a distraíssem, não tinha amigos, não tinha família (nessa história, da graphic novel em questão, não), não era dependente de nada ou ninguém.

Eram ela e sua raiva. Ela e sua missão. Ela e suas Sai. Ela e sua técnica. Ela e ela mesma. Exatamente como eu me sentia naquela época.

E no final, mesmo depois de tantos reveses, ela salva o dia. E sobrevive.

Elektra me empoderou. Ela foi responsável pelo click em minha cabeça que me fez perceber  que tudo dependia de mim. Ou eu me sentava no canto daquele quarto entulhado de gibis e chorava minha vida miserável me perguntando o porquê de tudo aquilo ter acontecido comigo ou eu me levantava, encarava a situação e, me dava conta de que estava sozinha agora e era sozinha mesmo que eu iria me virar.

E me virei.

Elektra Natchios, criada por Frank Miller para a revista Daredevil número 168 em 1981, me salvou.

Ela foi a personagem que mudou minha vida. E muda, até hoje. Porque às vezes esse mundo te esmaga e faz questão de que você acredite que não é capaz. Elektra chegou ao fundo do poço. E emergiu, inúmeras vezes. Um exemplo de força e vontade ferrenhas, pra mim.

Eu olho para trás, vejo tudo o que conquistei, venci, superei. Muita coisa foi por causa dela. Foi por que, intimamente, busquei seu exemplo, sua inspiração.  Folheio minha Elektra Assassina novamente, como que tentando conversar com minha ninja predileta e tentando absorver, de novo, todo esse poder e motivação que me foi passado há 27 anos…faço o teste para ver se ela ainda causa algum impacto em mim. Funciona. Sou Elektra novamente. Todos os dias. Poderosa e dona do meu destino. Às vezes erro, às vezes acerto, quem nunca? Ela também errou (opa, ela é uma assassina hahah)… Mas  o que importa é que não desisto.

Acho que essa foi a maior lição que ela me ensinou: não desistir. Nem de si mesma, nem do que você quer e acredita.

E ainda questionam o papel empoderador e representativo das personagens femininas na vida das mulheres, sejam eles em games, HQS, RPGs, filmes e séries.

Representatividade importa. É tudo que importa se você  quer impactar a vida de seu público e fidelizá-lo.

A cultura pop está aí, cada dia mais presente na vida de nossas meninas e adolescentes. A responsabilidade pela mensagem passada é grande e é nossa.  Elektra também me inspirou a criar o MinasNerds. Foi lembrando de como me senti, do quanto as HQ foram importantes para mim, que o coletivo foi criado. Para que outras mulheres e meninas também fossem empoderadas através da cultura pop e tivessem seu lugar salvaguardado nesse nicho. E encontrassem sua musa inspiradora.

Por mais personagens mulheres que nos representem, em todos os aspectos, em todos os braços da cultura pop, pois somos diversas e este é nosso maior trunfo.

“I’m Elektra Natchios. Not even the stars are safe in the sky.”

Bom natal e feliz ano novo pra vocês.

Nos vemos em 2016


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.