Assexualidade – Será que todo mundo sente desejo sexual por outra pessoa?

images

Por  ANA FIORI

-Eu perdi muita coisa? – perguntou baixinho Tia Brigite à Vó Maria, enquanto

lavava a louça da ceia de Natal. Vó Maria levantou os olhos do bordado, tentando adivinhar os pensamentos da sobrinha.

– Olha, minha filha, perder a gente nunca perde nada não. Cada um faz e desfaz suas coisas pela vida.

Amor, casamento, isso tudo também. Seu Tio Carlos Alberto, por exemplo, passamos dos quarenta anos de casamento. Eu casei virgem, de branco, na igreja, não sabia nada de nada. Ele também não, no começo. Mas ele tinha senso de humor. A gente foi descobrindo as coisas juntos. E, depois, ficava deitados juntos, abraçados, conversando. Se dava sede, a gente comia uma mexerica e aquele cheiro ficava todo na gente.

Tia Lu ouviu o último comentário, enquanto trazia mais pratos e travessas. Riu.

– Mexerica, mãe? Quer dizer que eu fui feita com gostinho de mexerica?

– Deve ser por isso que você é tão mexeriqueira, Lucinda.

– Ah, mãe, me deixe. Pelo menos eu fico feliz em saber que você e o papai se gostavam e se divertiam na cama. Não é todo mundo que tem prazer no casamento não.

Eu mesma, enquanto fui casada com o Jorge, não gozei nenhuma vez. Se ele era bom de cama, era só com as outras que ele achava pela rua.

Tia Brigite corou. Ela nunca se acostumava com a franqueza das outras mulheres da família.

– E você acha que seu pai também não arrumava umas por aí quando ele viajava em serviço? Era só ele voltar que ele corria para a farmácia para comprar antibiótico. Pelo menos, ele nunca me passou nada.

– Vocês não viveram a época da Aids, vó, é por isso – disse Cris, largando o celular em cima da mesa. – a mamãe teve foi é sorte. Porque meu pai não tinha o menor cuidado. É por isso que eu to cansada de homem. Eles não valem a pena não, tia. Talvez se a senhora tivesse namorado uma mulher teria gostado mais.

– Eu nunca namorei não, menina – Brigite ainda estava envergonhada com a participação coletiva na conversa – sempre estava cuidando dos irmãos menores, depois dos sobrinhos, depois de mamãe e agora da sua vó Maria.

Vó Maria levantou o olhar, mais uma vez, e arrumou os óculos.

– Pode deixar que eu cuido muito bem de mim mesma. Mas é verdade que

Brigite ajuda com o carro, que eu não posso ir mais no supermercado a pé. Mas que história é essa de namorar menina, Cristina? Tu largou do Felipe, foi?

– Assim, vó. A gente tava junto, mas não sei se a senhora lembra da Roberta, que era minha colega de aula. A que foi lá na sua casa no meu aniversário, de cabelo curtinho? É. Então, daí a gente foi morar juntos. O Felipe, ela e eu. E daí a gente ficou..

– Os três? E isso pode, namorar a três?

– Então, a gente não tava namorando. Não tem esse compromisso, essa possessividade. É poliamor, vó, a gente não precisa amar uma pessoa só. A gente ficava com quem queria. Mas daí o Felipe não deu conta e foi embora.

Nesse momento Ricardo, que mexia na geladeira, soltou um ronco acompanhado do barulho da latinha de cerveja abrindo.

– Lá vem ela com esses papos de poliamor. Não liga pra ela não, vó. Até porque agora só estão morando ela e a Roberta e elas já estão pensando em adotar um gato e viverem felizes para sempre.

– E as suas namoradas, Ricardinho? Já que você está aí se metendo na conversa.

– Eu sou gay, tia Lucinda, que nem a sua filha. Somos os primos tortos da…- Cristina interrompeu – Eu não sou gay, e na verdade nem lésbica. Eu sou é bi. Bissexual.

– E eu sou bi. Bicha.

– Quero ver você falar isso de boca cheia pros seus tios lá na sala. – disse Tia

– Não tô nem aí. Meu pai ficou dois meses sem falar comigo quando eu levei o Jonas lá em casa pela primeira vez. Agora, fim de semana passado, tavam ele e o Jonas mexendo no motor do carro enquanto eu ajudava mamãe na cozinha. Finalmente ele arrumou alguém que gosta de ficar desmontando motor com ele, arrumando a rebimboca da parafuseta. No fundo, acho que ele sempre soube, eu sempre fui uma criança viada. Sempre desejei os meninos da minha sala.

– Vou passar um café – Brigite largou a bucha ensaboada e colocou água para ferver no fogão. Ficou pensativa um tempo. – Eu não sei se eu sabia alguma coisa quando era criança. Estava tentando lembrar. Teve o Francisco lá na igreja, eu gostava dele. Mas eu não sei, não era isso que vocês falam. Eu gostava da companhia dele. Ele tocava piano tão bonito.

– Acho que é como os meus pais, tia. Eles não eram um casal muito animado não, mas eram companheiros.

– Mas seu pai vinha falar comigo, às vezes, Ricardo – vó Maria emendou, desfazendo uma linha de pontos do bordado, que estava com um erro – que ele sentia menos dessas coisas. Isso era problema de saúde, essa falta de desejo. Mas o médico demorou para perceber, porque seu pai também não falava as coisas. Seu pai ficava angustiado mas só vinha falar comigo. Só quando ele começou o tratamento dele que o doutor começou a dar hormônios pra ele, e antes dele fazer a cirurgia parece que a coisa do sexo tinha melhorado. Não sei como é que está agora. E sua mãe tinha as histórias dela lá, ela tem aquela tristeza que vem de longe, acho que isso interferia também.

– Depressão.

– Mas mesmo assim eles tiveram três filhos, né, vó? É diferente do que a tia Brigite está falando. Você nunca sentiu tesão por outra pessoa, tia?

– Não sei, Rick. Acho que não.

– Eu também não, tia – Marcelo finalmente falou. – mas isso não é doença não.

Eu nunca quis ficar nem com homem nem com mulher e estou muito bem assim.

– Mas isso não é natural, né, Marcelo? É alguma disfunção sua, falta de hormônio, ou algum trauma que você nem lembra. – tia Lucinda.

– Não, tia, é assim mesmo. Essa é a minha orientação sexual. O Ricardo é homossexual, a Cris é bissexual, a senhora e a vó Maria e quase todo mundo aqui é heterossexual. Eu e tia Brigite somos assexuais.

– Esses jovens inventam cada coisa. Como assim, assexual, menino? Como um padre?

-Não, tia. Padre e freira tem de tudo que é jeito. Gay, hétero. Mas eles são celibatários, eles escolhem que não vão ficar com ninguém. Quer dizer, aqueles que aguentam, né? Porque tem uns que fazem as coisas por debaixo dos panos ou largam a batina e o hábito depois. A gente é diferente, a gente não sente, não sente falta de sexo com outras pessoas. A gente se diverte de outras maneiras. A gente ama de outro jeito.

– Mas sexo não é uma coisa natural? Não é um instinto que todo mundo tem?

– Isso é o que a medicina acreditava até não muito tempo atrás. A medicina e a psicologia. Porque não tinham muitas pesquisas que não partiam da premissa de que todas as pessoas sentem desejo. É como a homossexualidade, foi vista como doença até não muito tempo atrás. Sempre existiu, mas os nomes que davam para o desejo por pessoas do mesmo sexo sempre queriam dizer anormalidade, desvio, perversão, doença. E não é nada disso. Mas isso só mudou quando os próprios homossexuais começaram a lutar pelos seus direitos e o seu reconhecimento. E agora os assexuais estão fazendo isso.

– Mas vai dizer que você não bate uma no chuveiro? – Ricardo deu risada,

amassando a latinha de cerveja.

– Claro que sim, às vezes. Desejo sexual eu sinto. O que eu não sinto é atração sexual por outra pessoa. Os outros são amigos, colegas, mas eu não os quero como amantes.

– “Eu não os quero como amantes”. Tá bom, sei. Eu lembro daquele verão na praia, que você ficou tão encantado com aquela menina, até escreveu um poema para ela!

– Mas isso foi uma atração romântica, e não sexual. E, mesmo assim, não foi tão forte assim. Naquela época eu queria me apaixonar, achava que tinha que me apaixonar. Achava que ser diferente me fazia inferior. Mas isso era falta de informação. Hoje em dia existem muitos grupos na internet em que a gente pode conversar e descobrir pessoas parecidas com a gente. E há uma porcentagem da população que é como eu. Eu não me sinto sozinho. Não tem nada de errado comigo. Assexualidade não é falta de alguma coisa, é uma variação da sexualidade humana tão válida e legítima quanto qualquer outra. E eu na verdade quero ter filhos, já estou me informando sobre adoção. Mas eu nem sabia que a tia Brigite era assexual também. Estou descobrindo isso agora. Você não perdeu nada, tia. Você nunca precisou.

– Mas isso eu não sei, menino – Tia Brigite trouxe o bule fumegante para a mesa – como é que eu vou saber se eu sou isso daí? Eu acho que não. Acho que eu só me acostumei a ser sozinha. – Brigite pensou consigo mesma “talvez eu só nunca tenhame achado bonita o suficiente para alguém gostar de mim”.

– Mas você não fantasia a noite, não pensa em alguém quando se masturba, tia?

– Credo, menino. Isso é particular. Mas eu nunca fiz isso não. A gente foi criado de outro jeito, na minha época isso era tudo pecado.

– A senhora nunca se masturbou, tia? – Cris mordeu uma maçã, curiosa.

– Eu não. Nunca quis. Não me fez falta. Nunca precisei nem falar sobre isso.

– Viu só, tia? A senhora nunca quis. Isso não fez da senhora menos mulher, né?

– Não, Marcelo. Como assim? Mulher eu sou, sempre fui.

– Porque uma coisa é gênero e outra é sexualidade. Elas se influenciam, mas não se determinam. Gênero é ser homem ou mulher, e tem gente trans que nasce com pênis mas descobre que é mulher, ou com vagina e descobre que é homem, ou no final das contas não está nem em uma ponta nem outra. Mas a gente é criado para pensar que se nasce com pênis, é homem e tem que gostar de mulher. E por aí vai. É o sistema sexo-gênero.

– Como é que é, meu filho? – Vó Maria coçou a cabeça. – Isso é novidade.

– Isso é o Marcelo com as teorias dele. Agora ele é todo da teoria queer. – disse Ricardo, debochando.

– Queer, o que é isso?

– Queer quer dizer esquisito em inglês, vó. Mas hoje virou um jeito de dizer que as categorias que a gente usa para classificar as pessoas não são suficientes para descrever a experiência humana. E para criticar as hierarquias e as relações de poder que estão implicadas nas classificações tradicionais.

– Como assim? Não entendi nada. – Tia Lucinda experimentou o café de sua prima, com um sorriso nos lábios. Ela gostava de café talvez tanto quanto de sexo.

– Assim, tia. Sabe quando a gente acha que homem é melhor que mulher, que é melhor ser heterossexual do que ser gay, que não sentir atração sexual ou sentir atração por mais de uma pessoa é errado? Isso são hierarquias, maneiras de ordenar as pessoas do melhor para o pior, do normal para o perverso. O queer critica isso tudo e propõe outras maneiras de pensar.

– Uma coisa é verdade – disse Vó Maria, puxando a linha vigorosamente com a agulha – isso é mesmo muito esquisito. Mas nessa família, só o que tem é gente esquisita. Ninguém aqui bate muito bem das ideias.

Tio Alfredo entrou na cozinha e foi direto abrir a porta da geladeira.

– E esse pavê aqui? É pavê ou pacomê?

– E esse aí é o mais esquisito de todos – disse Vó Maria. – Ele ainda acha que essa piada tem graça.

– Ah, mãe, me deixe.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.