De nerd-filha a nerd-mãe e o que aprendi com isso

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Por Sarah Helena

Eu sou uma nerd que aconteceu de também ser mãe. E aconteceu de ser também a mãe de alguém que se identifica com a mesma tribo. Acredito que o grande ponto é que para mim, ser nerd significa ser apaixonado pelas coisas. Não ter vergonha de admitir o quanto é poderoso o gênio humano e como podemos criar coisas incríveis.

Muito mais do que gostar de cultura pop ou jogos, muito mais do que uma identidade visual, é uma percepção de mundo movida pelo apaixonamento. Então eu sempre criei meu filho para ser um nerd/geek. Não para gostar e consumir cultura pop. Mas para ser uma criatura que enxerga o mundo de maneira apaixonada.

Para enxergar o quanto a ciência é algo incrível, e como a arte pode nos fazer sentir coisas que vão muito além daquilo que está no nosso mundo mais imediato. Criar uma criança não é fácil. Todo mundo acha que sabe tudo do assunto, “ah, mas eu também sou filho”, mas não é verdade. Ser mãe significa ouvir um universo de pessoas querendo se meter na sua vida e te dizer o que é certo e errado. Ouvir gente que não só não tem filhos, mas também não convive com crianças, achando que conhece mais das suas vivências do que você.

Existe uma sociedade inteira movida pela misoginia internalizada dizendo duas coisas: que você é uma péssima mãe, e que sua vida não te pertence porque você tem filhos. Nossa sociedade tem uma visão bem distorcida sobre ter filhos, e o principal motivo disso é que as crianças e mães são excluídas da vida social. Então a maioria das pessoas quando tem filhos não tem a menor idéia de o que fazer. Ideias desatualizadas são repetidas a exaustão porque a única experiência que as pessoas tem com o assunto são as próprias memórias e as referências de pais e avós. E quando nós não somos aquela família tradicional brasileira, e ai, como é que faz?

Essas referências não cabem nas nossas vidas. Ser nerd muitas vezes faz com que você se torne uma nerd da maternidade. Porque nerds gostam de se informar sobre tudo. Gostam de pesquisar coisas. Alguns preferem ver filmes, outros ouvir podcasts, uns ler livros, outros ler fóruns. Mas essa necessidade de devorar informação é muito característica dos nerds, não importa o caminho para chegar nessa informação ou o formato que ela toma (basta ver como esse site funciona).

E quando a gente se torna uma nerd da maternidade, isso te coloca muito em contato com conceitos como maternidade ativa, amamentação, parto, slings e discussões sobre a indústria farmacêutica. E também começa a análise de como a exclusão social das crianças também exclui as mães… e começa a aprender sobre a misoginia estrutural da sociedade. Começa a perceber como existem papéis de gênero sendo forçados sobre as crianças. E como ser nerd ainda é vendido como algo “de menino”. Descobre algumas coisas bem pesadas sobre maternidade compulsória, exclusão social. Coisas que quem está fora da maternidade (ou da situação de ser cuidador ativo de uma criança) não conhece com essa profundidade. Nem toda nerd mãe vai ser uma nerd da maternidade, óbvio, assim como tem gente que gosta de seriado e gente que prefere videogame, quem seja jogador de RPG e board game, e quem pesquise cinema e música. Mas é um caminho que eu vi muita gente fazer, e é interessante ver como a tribo das mães ativistas é um espaço cheio de mulheres nerds e geeks.

Meu geekling está com 10 anos. Seu grande foco são os games, e a ciência é sua religião. Tenho muito orgulho dele e é interessante ver como ele está começando a migrar do território da infância para as percepções conflituosas da adolescência. Gosto de lembrar como ele me falou pela primeira vez da importância de dar apoio à indústria de games indie, aos sete anos de idade, da diferença entre esses pequenos empreendimentos e as grandes companhias. Ele não sabia disso, mas essa paixão dele me moveu a olhar para esse assunto e comprar/jogar coisas mais alternativas.

Eu sou uma nerd de terceira geração. Meus avós maternos eram cinéfilos. Minha avó colecionava quadrinhos e manjava tudo de cinema. Colecionismo sempre foi assunto familiar aqui. Minha mãe, que recusa de forma veemente o título de nerd, conhece e acompanha mais seriados do que eu seria capaz de assistir em décadas, coleciona, entre outras coisas, carrinhos escala 1:64 e quadrinhos. Quando eu ganhei meu primeiro vídeo game, minha mãe zerou Mortal Kombat antes de mim. Tenho o prazer de dividir com ela a obsessão com literatura seriada e YA. Nós lemos juntas, fomos juntas nas pré estréias e esperamos discutindo teorias cada livro de Harry Potter. Até hoje, parte da diversão em ler séries de livros é que vamos lendo de forma simultânea e discutindo os livros.

Acho que o grande segredo para a nerdice virar tradição familiar sempre foi o respeito à individualidade de cada um. Saber que compartilhar aquilo que você gosta não é forçar isso goela abaixo de ninguém . Que cada um vai ser diferente, com suas próprias necessidades e gostos pessoais, e que isso é ótimo. Vamos aprender a gostar de coisas novas sempre, graças a essas diferenças. Quando eles são pequenos, é fácil arrastar os bichinhos com a gente para todo lugar e fazer as coisas sempre do nosso jeito. Mas conforme a simbiose vai passando e a individualidade se firmando, eles vão ter outros interesses, diferentes dos nossos. Vão ter outras necessidades sociais, diferentes das nossas.

Cultura pop vai ser jogada na cara de toda criança. Na verdade, mesmo sendo nerd de carteirinha, sendo mãe você vai passar muito tempo tentando evitar a avalanche de produtos licenciados, roupas, tênis, mochila, caderno, TUDO, com personagens, as infinitas horas assistindo vídeos ou TV, e tudo isso que a sociedade de consumo joga em cima das crianças. O que faz a diferença é a vontade de ir além do óbvio de como te disseram que você deve agir: é aceitar que nem sempre a melhor coisa é a obediência; que pode ser que exista um bom motivo para ter desmontado a torradeira; que quando um argumento de alguém com seis anos de idade for mais coerente que o seu argumento, você precisa ceder. O que faz uma criança ser um “nerd”, um “geek”, é ter respeitado seu apaixonamento pelo mundo. É permitir que as paixões que essa criança trouxer para você, mesmo sendo diferentes das suas, floresçam. É dar espaço para que a infância que existe hoje não seja comparada de forma constante com o passado do “na minha época era melhor”.

O que nossos pequenos precisam para também se maravilhar com os milagres da consciência humana, com cada uma dessas formas de arte, cultura e diversão que amamos, é que a gente tenha os olhos abertos e a disposição de ir até o mundo deles. De não repetir as velhas fórmulas que dizem “seja como eu, repita minha geração.” Não tem nada de errado no mundo de nerdices do seu filho ser diferente do seu. Talvez seja assim que você descubra uma nova paixão ao acompanhar os gostos dos seus filhos. Talvez seja se permitir conhecer o que é importante para sua criança que faça com que um dia, ele também tenha olhos para se apaixonar por aquilo que você ama.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.