Porque eu gosto da Tracey Emin apesar de toda a zueira da internet

Há um tempo atrás a VICE viralizou um texto chamado “Cansei de Fingir: Não Saco Arte” em que a autora fala sobre sua desorientação ao visitar uma exposição da artista inglesa Tracey Emin, um nome bem conhecido e conceituado na arte contemporânea. O texto basicamente fala sobre como é impossível entender aquelas peças descritas como aleatórias e banais a não ser por esnobismo com as tiradinhas mal humoradas típicas da publicação, e fez com que muita gente que não “entende” o que objetos cotidianos fazem em uma galeria se identificasse com a autora. Eu também li e ri, mas desde então sinto necessidade de defender Tracey Emin, mesmo que ela não precise. Porque eu sinceramente acredito que muito das motivações para implicarem tanto artista têm a vem com o velho machismo.

Tracey Emin nasceu em 1963, na Inglaterra. Frequentou o Medway College of Design entre 1980 e 82 como estudante de moda, e foi lá que conheceu Billy Childish, com quem se relacionou até 87. Nessa época ela trabalhava em uma editora especializada na obra de Childish, que publicava poesia. Ela também fazia parte do grupo de performance, poesia e música The Medway Poets, com Childish. Sim, sempre com ele. Isso é importante.

Após o Medway, Tracey estudou pintura no Maidstone Art College e em 1987 entrou no prestigiado Royal College of Art, em Londres. Ela sofreu um aborto de uma gravidez de gêmeos no mesmo ano, e foi uma experiência tão triste e traumática que a fez destruir todo seu trabalho até então e a mergulhou em uma crise depressiva que se refletiu em sua produção.

Desde sua primeira exposição solo, em 1993, Tracey sempre abordou aspectos autobiográficos, expondo objetos pessoais como fotos, cartas e coisas consideradas de “mal gosto” como absorventes usados (no mundo da arte contemporânea, onde Damien Hirst pode expor cadáveres de animais em formol sem uma comoção tão grande, por que uma mulher não poderia expor sua menstruação?). É complicado para mulheres usarem elementos autobiográficos em suas obras porque, em uma sociedade que diminui as narrativas femininas, elas sempre são acusadas de egocentrismo e futilidade. Tracey nunca tentou amenizar: fala de estupro, sexo, transtornos alimentares, sofrimento e sangramento. Fala sobre a dor de ser mulher e as violências que acompanham essa vivência. E por isso constantemente foi acusada de usar sexo e “táticas de choque” para mascarar uma possível falta de talento.

Say Nothing, 2010

Lady Gaga, que enfrentou o mesmo tipo de crítica, tem uma resposta linda sobre esse questionamento da sexualidade feminina como tema da produção de artistas mulheres (homens falando sobre a sexualidade feminina geralmente são elogiados como “sensíveis”):

Em 1999 Tracey foi selecionada no Turner Prize, a maior honraria na arte inglesa, com sua obra My Bed, uma instalação com a cama em que a artista permaneceu durante uma crise depressiva de sete dias, contendo todos os objetos pessoais e marcas deixadas no período. Ela já era então uma proeminente membro do Young British Artists (YBA), principal grupo na arte contemporânea inglesa no momento. Foi aí que aconteceu o que eu acho o episódio mais representativo do machismo enfrentado pela Tracey, e ele veio justamente de Billy Childish, aquele ex que ela acompanhava em todos os projetos na primeira fase de sua produção artística.

My Bed, 1999

Childish se ressentia do afastamento de Tracey dos projetos pessoais idealizados por ele e do alinhamento da artista com o YBA e com a produção conceitual. Em um dia, após zombar dos novos trabalhos de Tracey (alô relacionamento abusivo), recebeu uma resposta enfurecida da namorada: “You are stuck!” (em tradução livre, “Você está estagnado!”).  Em uma atitude muito madura conbinando com seu sobrenome, Childish resolveu ampliar a zombaria contra a ex, que cometeu o crime de escolher o próprio caminho artístico e ficar mais famosa que ele, criando um movimento artístico chamado Stuckism (ou stuckismo, como geralmente é chamado em português).  O movimento buscava mais transparência nas premiações de arte na Inglaterra (ou seja, que eles ganhassem ao invés dos YBA) e a volta para a pintura figurativa, apoiado no tipo de argumentação anti “pós-modernismo” que você espera ler naquela treta de Facebook que deveria ter evitado e não em um manifesto de arte. O texto do manifesto aliás tem pérolas incríveis como “um artista que não pinta não é um artista” e “arte que precisa estar na galeria para ser arte não é arte” (alguém precisa avisar o Duchamp que sobrou até para ele). Além do manifesto Childish fez o Temer e escreveu cartinha no seu Poem for a Pissed Off Wife, considerado por alguns também um manifesto stuckista.

Quando questionada sobre o movimento, Tracey se mostrou magoada (com razão). O site oficial do Stuckismo tem uma página dedicada a ela, que basicamente serve para exibir fotos antigas ao lado de Billy Childish, o que deixa a coisa toda ainda com mais cara de ex namorado babaca e ressentido.  É difícil não se solidarizar com a declaração dela ao The Sun Herald em fevereiro de 2003:

“Eu não gostei nada disso. Eu realmente não quero falar sobre. Se sua esposa fosse perseguida e agredida através da mídia por alguém com quem ela teve um relacionamento quando tinha 18 anos de idade, você gostaria disso? É o que aconteceu comigo. Eu não acho isso engraçado, eu acho que é meio doentio e muito cruel, e eu só quero que as pessoas vivam suas próprias vidas e me deixem seguir com a minha”.

Childish acabou largando o stuckismo em 2001, e Tracey seguiu sendo uma das artistas mais respeitadas na atualidade. Em 2011 ela se tornou uma das primeiras mulheres a integrar o corpo docente da Royal Academy of Arts. Em 2004 ela dirigiu Topspot, um filme sobre um grupo de meninas adolescentes convivendo com traumas que a própria artista carrega, entre eles o abuso sexual. Sua produção segue explorando elementos autobiográficos e vivências dolorosas, e muitas críticas parecidas com aquelas feitas pelo stuckismo (arte banal, egocêntica, feita para o choque) continuaram a surgir. Mas Tracey permanece produtiva e relevante. Na minha opinião, o peso de uma mulher levando temas tão íntimos e dolorosos de nossas vivências para grandes galerias não deve ser desprezado.

Never again, 2012

Sobre entender ou não arte: acho que esse problema com a arte contemporânea vem da visão de a arte tem que nos servir, ainda muito comum. Muita gente ainda acha que a arte deve nos encantar com sua beleza, comover com sua mensagem ou ser entendida para que nos sintamos inteligentes. Mas acredito que a arte não nos deve nada, e que não é problema ir numa galeria e não “sacar” arte. Você não precisa gostar daquilo pra ser esperto ou sofisticado. Você não precisa desqualificar as pessoas que “sacam” o que você não gosta por se sentir diminuído pelo entendimento delas. Aliás, esqueçam a discussão do que é arte ou não: isso é só uma forma de criar um fetiche de status em cima do trabalho alheio.

Eu gosto das camas desarrumadas de Tracey Emin. Eu gosto do fato dela ter a coragem de falar de si, quando muitas vezes o mundinho da arte contemporânea encare o egocentrismo como um traço interessante nos homens e inapropriado nas mulheres. Espero que mais moças encontrem seu caminho nas artes, apesar de críticas, pressões, relacionamentos abusivos.

Conheça mais obras da Tracey Emin aqui.


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.