Que tal desconstruir a ideia de família?

Família é um tabu. É santa, é a base da nossa vida, é para onde voltamos quando os problemas nos derrubam, é onde estão os que nos acolhem, é um lugar seguro. Que ninguém diga o contrário, ainda mais se for fim de ano (acabamos de passar por isso), daí é uma enxurrada de fotos em qualquer ponto da internet de gente falando o quanto a família é maravilhosa, do quanto é grato e por aí vai.

Tem muita gente decidida a defender a família a qualquer custo, como por exemplo comissão na Câmara dos Deputados que não quer que se altere sua definição, que deve se considerar família somente pai, mãe e filho. E muito padre, pastor e outros líderes religiosos que gosta de exaltar a importância dos valores tradicionais da família (leia-se valores conservadores). Tudo isso tem porquê de ser: família é a estrutura social das mais nefastas.

Vamos aos dados: de acordo com o Mapa da Violência 2015, 50,3% dos homicídios de mulheres são cometidos por familiares, ou seja, se você for mulher, há um pouco mais de chance de ser assassinada dentro de casa, do que na rua.

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Quando falamos de estupro, a situação não é muito diferente. Mas aqui temos um dado mais grave: 70% dos estupros são sofridos por menores de 13 anos de idade e em sua maior parte também por familiares e conhecidos, dentro de casa. Estupros cometidos por familiares e conhecidos são 79% dos casos entre crianças, 67%, entre adolescentes e 65% dos casos entre adultos. No caso dos adultos, as vítimas são majoritariamente mulheres e praticamente 100% dos criminosos são homens em todas as situações.

Mais uma expressão para incluirmos no nosso vocabulário contra a opressão cotidiana
Mais uma expressão para incluirmos no nosso vocabulário contra a opressão cotidiana

Nesse ponto alguém já deve estar dizendo “ai, mas você não pode dizer que todas as famílias são violentas com base em crimes tão brutais, isso é generalizar”. Sim, seria generalizar mesmo. Mas quem disse que esses são os únicos dados disponíveis?

Lembram da campanha #primeiroassedio? Acho que todo mundo leu inúmeros relatos de assédio na infância que envolviam familiares, boa parte de amigas que nunca tiveram coragem de falar sobre isso antes.

A hashtag #primeiroassedio começou com uma sério de depoimentos reunidos pelo Think Olga
A hashtag #primeiroassedio começou com uma série de depoimentos reunidos pelo Think Olga

Se pararmos para pensar em crimes menos odiosos, que muitas vezes aceitamos tranquilamente, temos uma gama de violências cotidianas que vão destruindo a autoestima de crianças e que trazem danos severos a sua socialização e saúde emocional pro resto da vida. A página Crescer sem violência registra quais são esses atos cotidianos que confundimos com educar e que são apenas violência para submeter crianças e as tornarem obedientes. “Mas eu apanhei do meu pai durante toda a infância e nem morri”, ouço isso sempre. Agora, já parou para pensar que aquele seu namoro abusivo, em que você foi tratada como lixo e não entende até hoje porque aceitou ser tratada daquele jeito (não foi sua culpa, mas sei que a tendência é nos colocarmos nessa posição) tem relação direta com as surras que levou (ou a bronca abusiva, ou os gritos, ou qualquer outra situação violenta recorrente na infância) que faz você associar amor a ser agredida?

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A página Crescer sem violência reúne material de orientação para uma educação acolhedora para as crianças

Mas o que a minha família tem a ver com isso?

Nos dias antes do natal, começou a ficar frequente no facebook relatos principalmente de mulheres que sofrem assédio de membros da família, relatos extensos, sofridos, de gente que carrega traumas e bloqueios sociais grandes por conta das “pequenas” maldades cotidianas ouvidas por anos a fio dentro de casa. “Seu cabelo ia ficar mais bonito liso”, daí alisa e ouve “que absurdo você fez com o seu cabelo”. Ou então emagrece e dizem que está com cara de doente, engorda de novo e dizem que estão preocupados com sua saúde. “Você não arruma namorado porque é exigente demais”, “deveria procurar um trabalho mais feminino”, “deveria se vestir melhor”. Isso sem falar das maldades de tixs, primxs, cunhadxs, e etc, que gostam de tripudiar onde dói. Foram muitos casos expostos em grupos ou para os amigos, situações sérias, mas que todo mundo parece achar normal, exatamente porque é muito comum. Não, gente, não é normal. É violência naturalizada e precisamos lutar contra ela.

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Já existe uma lei que é uma espécie de versão da Lei Maria da Penha para crianças

A questão aqui não é ser contra a família, não é esse o caso. Só que é preciso urgentemente tirá-la do seu manto sagrado e impenetrável, mudar tudo o que diz respeito a ela, porque esse núcleo social se tornou o refúgio e o lugar seguro daqueles que cometem brutalidades com crianças e mulheres. É preciso acabar com essa imagem de propaganda de margarina, de filmes de natal, de finais felizes de contos de fada, em que a família é algo lindo a ser celebrado. São raros os casos em que são, exceções que só confirmam a regra de que está tudo muito errado.

A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro

(O Manifesto do Partido Comunista já cantava a bola do papel da família na sociedade capitalista)

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.