Golem e o Gênio: Uma fábula de opostos

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De longe um dos melhores livros que li em 2015, Golem e o Gênio: Uma Fábula Eterna, de Helene Wecker, conta a história de duas criaturas, de duas culturas diferentes e contrastantes, vivendo em uma terceira cultura: Nova York da virada do século XX.

De um lado, temos a Golem, uma criatura feita de barro, oriunda da cultura judaica. Encomendada por um homem rico que queria uma esposa, e criada por um homem poderoso, Chava traz consigo os anseios de um ser que não dorme, não come e foi feito para proteger, destruir e atacar. Acolhida por um rabi, que imediatamente entende sua condição, ela aprende um ofício e a se passar por uma mulher comum.

Do outro lado, temos o Gênio, ou Djim, direto dos desertos árabes, com direito a estar preso na garrafa e algemas nos pulsos. Aprisionado há muitos anos, ele finalmente ganha liberdade em um bairro árabe de Nova York, onde passa a trabalhar como aprendiz de ferreiro e tenta viver uma vida humana. Porém, assim como a Golem, ele não precisa se sujeitar às rotinas e necessidades da humanidade, o que o deixa profundamente entediado e melancólico. Seu tutor lhe dá o nome de Ahmad, que ele recebe sem tanto interesse.

As duas narrativas se encontram em uma amizade estranha, difícil e cheia de entraves, intercaladas por flashbacks, histórias de outros personagens, que aos poucos se interligam e completam as lacunas das vidas de cada um. A Golem e o Gênio são dois opostos: ela é feita de barro, ele é feito de fogo. Ela se esforça para parecer humana; ele não se importa com isso. Enquanto Chava se esforça para se mover, para servir e para existir naquele mundo, o Djim almeja retornar para seu deserto e seu castelo de vidro. O que os mantém unidos é a sua condição de não-humanos, de criaturas diferentes e aterrorizantes por suas histórias.

A autora consegue, com maestria, interligar duas culturas tão opostas, mostrando lendas antigas de cada uma e como elas trazem semelhanças em certos pontos. Ao colocar um Golem, talvez uma das criaturas mais assustadoras da cultura judaica, em uma padaria de Nova York, tentando ser como as outras mulheres, ela questiona o que é humanidade. O que é ser um humano? Como é ser diferente no meio de uma cidade em que ninguém olha você duas vezes? Chava foi criada para servir seu amo, mas as circunstâncias a colocam em uma posição de querer servir a toda humanidade, ao mesmo tempo que aprende a ser dona de si mesma. Pode ser lido até mesmo como uma analogia à mulher que tenta ser independente em um mundo dominado pelo sexo masculino.

Por outro ângulo, o Djim, um gênio do deserto, capaz de conceder desejos, de criar e moldar a matéria, está preso à forma humana. Sua condição de criatura de fogo, livre e dona de seu destino fica contida em um corpo, sujeito aos dilemas e problemas mundanos. Ahmad valoriza sua liberdade e seus desejos, e estar preso por uma amarra mágica é algo extremamente problemático para ele.

O livro é um calhamaço de centenas de páginas, mas a escrita da autora é fácil, os personagens são cativantes, e não só Ahmad e Chava, mas o Rabi, seu sobrinho, o ferreiro, o sorveteiro… Todos eles enriquecem a narrativa com sua história, sua bagagem e suas crenças, oriundos de diferentes culturas e credos. Golem e o Gênio é um livro de fantasia fora do comum, que deixa de lado as crenças europeias, já exploradas de diversas formas por outros autores, para nos apresentar outras culturas, não tão exploradas e igualmente ricas.

Golem e o Gênio: Uma Fábula Eterna (Helene Wecker). Editora Dark Side, tradução de Cláudia Guimarães. 2014, 513 páginas.


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Gabriela Colicigno

Leitora desde criança, jornalista, booktuber e apaixonada por palavras, é viciada em chocolate, computador e livros de fantasia.