Mulheres que fazem quadrinhos e o boicote a Angoulême

com Laura Athayde

Quando falamos da falta de representatividade e participação feminina em espaços de destaque, sabemos que, em qualquer um deles, esse problema não é exclusivamente brasileiro. Já registramos aqui o baixo número de mulheres em coletâneas e eventos de quadrinhos nacionais. Nesta semana a polêmica veio de um dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, o de Angoulême, na França.

A França é uma das maiores produtoras de quadrinhos no mundo (por lá conhecida como bande desinné ou apenas BD), não por acaso o Festival Internacional de La Bande Desinné d’Angoulême está na sua 43ª edição, que acontece entre os dias 28 e 31 de janeiro. Neste festival, é tradição indicar candidatos para o prêmio chamado Grand Prix, que é uma homenagem por toda a carreira do artista e o vencedor se torna o presidente do evento na edição seguinte. Na última terça-feira, 5, foram divulgados os 30 candidatos para este ano: nenhuma mulher. Diante de nenhuma representatividade no principal prêmio de um evento de quadrinhos desse porte, o Coletivo das quadrinistas contra o sexismo (Collectif des créatrices de bande dessinée contre le sexisme) soltaram uma nota pedindo um boicote coletivo ao prêmio. Como a votação é feita por correspondência, por três mil quadrinistas profissionais cadastrados pelo evento, o chamado é para não votar.

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O Festival de Angouleme é um dos mais importantes para os quadrinhos no mundo

Em paralelo ao boicote proposto, está rolando no twitter a hashtag #WomenDoBD (estão publicando como #WomanDoBD também), em que mulheres do mundo todo estão divulgando seu trabalho e falando sobre representatividade e visibilidade das quadrinistas em premiações, na mídia e por aí vai.

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uma das publicações com a hashtag “WomenDoBD”: “queridas mulheres na indústria dos quadrinhos, mostre-nos que vocês são capazes”. Na charge: “Mulheres nos quadrinhos: a triste verdade”.

 

Daniel Clowes foi um dos primeiros quadrinistas indicados ao Grand Prix a pedir que seu nome fosse retirado da lista e soltou uma nota, por meio da sua editora, Fantagraphics, em que diz: “Eu apoio o boicote a Angoulême e estou retirando o meu nome de qualquer consideração para o que é agora uma ‘honra’ totalmente sem sentido. Que ridículo, embaraçoso desastre (I support the boycott of Angouleme and am withdrawing my name from any consideration for what is now a totally meaningless ‘honor.’ What a ridiculous, embarrassing debacle)”.

E ele não foi o único entre os indicados a se retirar do prêmio. Também pediram para ter seus nomes retirados da lista Chris Ware, Charles Burns, Riad Sattouf, Joann Sfar, Milo Manara, Pierre Christin, Etienne Davodeau, Christophe Blain, Brian Michael Bendis e Bill Sienkiewicz, até a noite desta quarta-feira, 6.

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Imagem símbolo do Collectif des créatrices de bande dessinée contre le sexisme

É importante lembrar que em 2015, no maior prêmio de quadrinhos brasileiro, que é o HQ MIX, foi notável o descaso com a produção feminina: após uma campanha de divulgação do prêmio que trazia mulheres seminuas em poses sensuais por trás da frase “vamos bombar”, foi revelado que apenas 13% das finalistas eram artistas mulheres. O que aconteceu na França este ano é mais um reflexo do conservadorismo machista que ainda perdura no mercado internacional de quadrinhos e que é naturalizado e minimizado ano após ano em que ninguém se manifesta em oposição.

É por isso que é importante que os artistas contemplados pela 43ª edição do Festival Internacional de La Bande Desinné d’Angoulême deixem clara a sua posição de repúdio, assim como é importante que os quadrinistas brasileiros se aliem a suas colegas autoras nessa discussão. Prêmios são legais pra divulgação do trabalho do artista e pelo próprio fator do reconhecimento da sua obra; no entanto, não precisamos deles. Eles, pelo contrário, precisam de nós para dar o prestígio que os torna relevantes.

Portanto, estamos chegando a um momento crucial em que os responsáveis pela crítica de HQ não mais poderão ignorar a presença feminina, tanto na produção quanto nas livrarias, como consumidoras. Porque não vamos mais nos calar enquanto somos sistematicamente apagadas da história dos quadrinhos e relevadas enquanto mercado. E essa postura se mostra ainda mais necessária quando um festival do porte de Angoulême escreve, na nota em resposta às críticas, que “quando vemos retrospectivamente qual era o lugar dos homens e das mulheres no campo da criação em quadrinhos, temos de constatar que há poucas mulheres reconhecidas”, uma justificativa que quer impor o apagamento das mulheres como se isso fosse a própria história dos quadrinhos.

- 43º festival de Angoulême e apenas uma única mulher venceu o Grande Prêmio!! - ah, é? - como assim? - eeeh, você tem certeza! - ah, bom... e embaixo está escrito: "bah, sim, isso nem mesmo lhes passa pela cabeça!"
– 43º festival de Angoulême e apenas uma única mulher venceu o Grande Prêmio!!
– ah, é?
– como assim?
– eeeh, você tem certeza!
– ah, bom…
“bah, sim, isso nem mesmo lhes passa pela cabeça!” (charge de Florence Cestac, única mulher ganhadora do Grand Prix)

 

Segue abaixo a nota do Collectif des créatrices de bande dessinée contre le sexisme chamando para o boicote:

O Festival Internacional de Banda Desenhada (Angoulême): Mulheres Proibidas dos Quadrinhos

5 de janeiro de 2016

Após a publicação da lista de nomeados para o Grand Prix de Angoulême em 2016 para o qual estamos autoras e autores convidados a votar, o machado caiu:

30 nomes, 0 mulheres.

Lembramos que há 43 anos, Florence Cestac é a única mulher a receber esta distinção. Claire Bretécher, pilar da Nona Arte, nunca recebeu o Grand Prix, coEla foi premiada com o “Prêmio 10 Aniversário” em 1983 (um prêmio que não impede o seu vencedor de qualificação para o Grand Prix também).

Protestamos contra esta discriminação evidente, esta negação total de nossa representação em um meio que tem mais e mais mulheres.

Com o Grand Prix de Angoulême, o mundo dos quadrinhos reconhece um dos seus por toda a sua carreira. Este prêmio não é apenas honorário, tem um impacto econômico óbvio: a mídia cobre o vencedor do Grande Prêmio extensivamente, e a distinção terá impacto sobre a cadeia do livro, que vai beneficiar livrarias, editores e … o autor premiado .

Nós simplesmente pedimos a consideração da realidade da nossa existência e do nosso valor.

De fato, qual é a mensagem enviada para mulheres cartunistas e aquelas em processo de se tornar tal? Estamos desencorajadas de ter ambição, de continuar os nossos esforços. Como poderíamos encarar de outra forma? Tudo volta para o teto de vidro desastroso; somos toleradas, mas nunca se permitirá um faturamento superior. Mulheres quadrinistas devem permanecer em segundo plano?

Já não é tolerável que as criadoras do sexo feminino de renome, conhecidas por todos, estejam ausentes das nomeações deste Grand Prix. Se os profissionais quadrinhos são esperados para selecionar três nomes de uma lista decidida pelo FIBD, essa lista deve ser verdadeiramente representativa dos quadrinhos atualmente. As autoras também são referências literárias neste meio.

Por todas estas razões, Collectif des créatrices de bande dessinée contre le sexisme apela a um boicote do Grand Prix de 2016.

Nós não vamos votar.

Leia a versão original em francês

Atualização em 07/01/2016, 13 horas: O Festival de Angoulême retirou a lista de indicados ao Grand Prix e liberou o voto em quem os votantes acharem melhor.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.