A culpa não foi só dela – Macbeth – Ambição e Guerra

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Já está nos cinemas do Brasil a mais recente  adaptação da clássica  peça de William Shakespeare, Macbeth, com Michael Fassbender (o Magneto de X-Men)  e Marion Cotillard (Meia-Noite em Paris, La Vie En Rose – a Vida de Edith Piaf, Laços de Sangue)

Considerada uma das peças mais sombrias do bardo inglês, juntamente com Rei Lear, Hamlet, Othelo e Antônio e Cleópatra, a produção já ganhou, só para o cinema,  mais de sete adaptações e releituras , entre elas, obras dirigidas por Orson Welles, Roman Polansky e Akira Kurosawa e estrelados por atores como Sean Connery e John Torturro.

Batizado de Macbeth – Ambição e Guerra e dirigido pelo australiano Justin Kurzel, o longa conta a velha história do então, Barão de Glamis, Macbeth e o decreto fatal, profetizado por três misteriosas bruxas, que mudaria sua vida. Sede pelo poder sem limites, política, bruxaria, sangue e loucura fazem desta peça um dos mais fascinantes e estarrecedores retratos da alma humana já escritos.

A primeira vista, o que mais chama atenção nesta mais nova adaptação de Kurzel é, sem dúvida alguma a colorização e a fotografia.  Cenas abertas que exploram as vastas e grandiosas planícies da highland escocesa, planos-sequência fenomenais de batalhas campais em slow motion, captando o impacto de cada soco, cada golpe de espada, cada gota de sangue e lama, tudo isso em HD e com uma paleta de cores saturada, onde o vermelho vivo, o amarelo, o marrom e o cinza são as cores predominantes, emprestam uma aura moderna e pop à velha trama.

O diretor de fotografia é Adam Arkapaw, o mesmo da primeira temporada da série True Detective, o que explica muita coisa, principalmente o tom poético e lúgubre da maioria das cenas.

O roteiro, adaptado do original por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, não cansa a platéia com a reprodução do inglês arcaico e rebuscado de Shakespeare  mas mantém a gravidade e o respeito pela obra através de apropriações sutis, que, juntamente com as interpretações ótimas de todo o elenco, nao somente dos protagonistas, transmitem toda a profundidade e dramaticidade características da obra, sem transformá-la em um pastiche, especialmente em seus excertos mais importantes.

A ambientação também me captou: uma Escócia modesta e minimalista, quase modernista, com trajes e edifícios condizentes com o período da época,começo da Idade Média, sem exageros nas vestimentas e ambientes internos.

Fassbender é um Macbeth maravilhosamente corruptível, insano e obviamente sexy. Mas foi, naturalmente, a interpretação de Marion Cotillard, como Lady Macbeth, que me chamou a atenção.

Lady Macbeth sempre significou, na maioria das releituras que fizeram da personagem ao longo dos anos, a essência maligna e  manipuladora da mulher. Foi interpretada por grandes damas do teatro e cinema, como: Simone Signoret, Janet Leigh e Judi Dench. É considerada, no meio da dramaturgia, como sendo  a coroação, o ápice, o batismo de fogo de toda grande atriz.

É complexa, forte, misteriosa, poética e dramática na medida certa. Foi alçada à epítome do gênio feminino: a mulher que consegue o que quer, através de artimanhas sórdidas, manipulações, planos e engendramentos. E envolvimento com forças sobrenaturais.

Uma das melhores, senão a melhor personagem feminina de Shakespeare. A mais sofisticada, com certeza.  Seu monólogos são incríveis, um festival de tapas na cara da sociedade machista ME-DI-E-VAL. Uma mulher que  para provar sua força e presença de espírito chega  a negar a maternidade e até mesmo seu gênero-  “Venha, engrosse meu sangue, tire meu sexo, seque meu leite, quero ter as qualidades masculinas, quero coragem,força e não-hesitação”  – Isso, na época, foi um verdadeiro escadândalo.

Na película, isso não é diferente. Cotillard arrasa na interpretação e coloca o grande Macbeth no bolso. É notória sua força frente ao vacilo do companheiro.

Lady Macbeth significou, durante muito tempo a quintessência da maldade feminina. A que nega a doçura, a que visa o poder e faz tudo para consegui-lo. A maioria das releituras feitas até hoje, culpabiliza claramente as mulheres da trama, tanto as bruxas, quanto Lady Macbeth, pela subersão e transformação do então valoroso guerreiro Macbeth em um  regicida maníaco.

Mas neste filme o diretor consegue, de modo equilibrado, equiparar, por assim dizer, a cota de culpa entre o casal. Fica claro o objetivo de Lady Macbeth, afinal, ele faz parte da estrutura da personagem mas  e os atos alienados do protagonista ocorrem independentemente de sua influência sobre ele. E isso é notório.

Com relação às bruxas então, isso é ainda mais flagrante. Elas não o induzem a nada. Apenas proferem frases de multiplas interpretações. O que ele faz com elas é de completo e total problema dele.

Pela primeira vez, não vi as mulheres de Macbeth serem demonizadas pelos atos vis do protagonista.  Acho que, por ocasião do aniversário de 400 anos de sua morte o bardo sorri, finalmente, entre os mistérios do céu e da Terra e de nossa vã filosofia.

Para encerrar, a trilha sonora onipresente e retumbante de Jed Kurzel  (cantor e guitarrista da banda australiana The Mess Hall e irmão do diretor)  preenche totalmente os espaços que faltam, transformando o  filme e uma experiência sensorial completa.

Vale muito o ingresso.  Ah! E o Fassbender aparece sem camisa tomando banho num rio. Delicinha. #fikadika


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.