Coisas que o Camaleão me ensinou – e eu uso na mesa de jogo

Não esperem muita coisa dessa coluna. Eu ia postar outra coisa (uma análise de Shadowrun Crossfire) mas hoje não consigo pensar em outra coisa exceto que deus voltou para casa. Entre uma crise de choro (sou fangirl mesmo) e um cigarro olhando a chuva e pensando em como a existência humana é vazia e ao mesmo tempo a imensa honra de ter vivido os dias em que ele estava entre nós, fiquei pensando em como era presença constante nas mesas de RPG onde jogo. Como trilha sonora, música tema de personagem, servindo de base para PCs e NPCs, sendo citado de forma aleatória na voz de alguém.

Comecei a viajar em cima da ideia de como o Camaleão pode ensinar algumas coisas úteis para a nossa relação com todo tipo de jogo. Fiquei pensando em algumas coisas que ele disse e que eu guardo com carinho especial. Espero que possamos compartilhar esse momento hoje.

“Quer dizer, toda minha vida é feita de experimentação, curiosidade e qualquer coisa que me pareça atraente.”

Não me canso de dizer isso, mas é mais marcante quando quem fala é quem fez da vida um exercício de ser camaleão. Não se prenda ao que você já fez antes. Não se prenda ao que esperam de você. Uma das minhas mesas de jogo tem um incrível chat onde fazemos brainstorming de personagens. E é incrível como as coisas mais malucas e incríveis vão aparecendo. Já fomos uma mesa de D&D toda baseada em personagens Disney, e outra onde por mero acaso a maioria dos personagens eram personagens de literatura, e subvertemos os tropos da fantasia medieval de todas as formas possíveis.

Mude. Não se fixe. Existem milhares de sistemas de RPG. Milhares de cenários. Porque continuar fazendo a mesma coisa? Experimentação, curiosidade e qualquer coisa que pareça atraente.

David Bowie tem uma coleção de personagens admirável. E cada vez que sentia vontade, ele mudava. Ele disse em mais de uma ocasião que não via graça em passar muito tempo fazendo o mesmo personagem e criando dentro do mundo que havia criado para aquele personagem.

“Descobri que se eu ficar muito tempo fora da estrada eu simplesmente não me lembro das letras. Para a turnê promocional de “hours…”, eu carreguei comigo um fichário – seu conteúdo sendo religiosamente estudado – e que uma vez estrategicamente posicionado em um suporte eu descobri ser desnecessário depois de tudo, quando a forma e as palavras vinham me inundando de volta na hora do show, presumivelmente por osmose.”

Cara, se o David Bowie esquecia as letras das músicas, porque você deveria estar desesperado por não ter decorada cada regra de cada sistema que você joga? Os livros estão ali para isso, para estarem por perto caso você precise. E é surpreendente que sim, parece que é osmose, mas na hora H você consegue se virar muito bem e as coisas parecem pular na sua memória. E caso não lembre, não tem problema nenhum: você tem o resto do grupo de jogo e os livros. Está tudo bem. Dê uma estudada nas coisas que vai usar. Mas não pire demais com isso.

Eu fiquei dez anos sem narrar Vampiro: A Máscara. E agora que estou voltando, bastou uma folheada nos livros para as coisas virem à tona. Mas pode ter certeza que o livro vai ficar ali, do lado, prontinho para eu checar as regras de combate. E não tem nada de errado nisso.

“Você sabe, o que eu faço não é terrivelmente intelectual. Eu sou um cantor pop, pelo amor de Cristo.” & “Eu fico sempre surpreendido de que as pessoas levem a sério o que eu digo. Eu nem mesmo levo a sério aquilo que sou.”

Não, meus queridos, jogar RPG não nos torna melhores do que o resto do bando. Não somos mais inteligentes por isso. Não se leve tão a sério. Isso é um hobby, é para ser divertido. Não precisa ser o divertido-comediante. Pode ser o divertido-dramático de gostar de assistir doramas. Pode ser o divertido-assustador de filmes de terror e montanhas russas.
Mas faça pela curtição. Não se leve tão a sério. Não, o mundo não vai acabar porque sua sessão de jogo teve que ser interrompida porque a crise de riso deixou todo mundo largado nos sofás de tanto rir. Daqui uns minutos a gente bebe uma água e volta para os personagens. Aliás, melhor ainda se essa crise de riso for dentro da história sendo narrada. Seus personagens também podem se divertir.

Você não precisa ser o tempo todo terrivelmente intelectual. Nós somos palhaços de nós mesmos as vezes. Estamos brincando de improvisar cenas e personas, é como um palco, mas com menos gente olhando. E quem melhor do que o mestre para nos lembrar de que sim, isso tudo é uma performance?

E não é porque ler um bocado de livros ou fuçar em regras está envolvido no seu hobby que isso faz de você um biscoitinho tão esperto. A inteligência tem várias facetas. A informação pode ser acessada por diferentes interfaces. Então não se sinta superior por causa do seu hobby – e acima de tudo, não deixe outros acharem que não são bons o bastante para jogar.

“Você não pode ganhar ou perder se não participar da corrida”

Isso vale especialmente para quem está querendo narrar/mestras e não se sente segura. O único jeito é tentar. E se você falhar ainda vai estar na vantagem, porque seu erro vai ser um ponto de partida para acertar mais adiante.

Pense naquele cara em cima do palco usando aquela maquiagem e aquelas roupas. Você acha mesmo que ele sabia que daria certo, toda vez? Não, ele não sabia.

Nós sempre podemos nos reinventar. Podemos tentar outra vez de outro jeito, criar house rules, trocar o sistema, dar reboot na campanha.

O que não dá é não fazer.

O que também nos leva ao problema que parece ser tão frequente de conciliar horários e datas e jogar depois de entrar no mundo de “gente grande”. É melhor uma sessão virtual via Skype ou Hangout, um jogo onde nem todo mundo está presente, ou ter três grupos de jogo diferentes para conseguir jogar pelo menos uma vez por mês, do que ter jogo nenhum. Fácil não é. Mas precisa tentar. Jogar te faz bem, você quer passar mais tempo com essas pessoas criando essas histórias? Então jogue, mesmo se as condições não forem ideais.

“Eu não sei onde estou indo a partir daqui, mas prometo que não vai ser tedioso”

Quando eu era adolescente (freak e alienígena como adolescentes costumam ser, com um bônus queer), eu lembro de ter vergonha de tudo e mais um pouco. E quando eu precisava tomar coragem, eu pensava em David Bowie e Ney Matogrosso. Porque eles eram essas pessoas incríveis? Porque eles não tinham o menor problema em se expor. Em ambos os casos, uma timidez avassaladora fez surgir personagens que eles podiam vestir para mostrar sua música. No meu caso – e para mais um monte de gente – nós colocamos nossas personas no RPG.

Jogar RPG me permitiu isso de uma forma bastante literal. E uma das coisas que mais me ajudou a lidar com as incertezas era saber que sempre que o mundo estiver perigoso demais, triste ou assustador demais, quando não soubermos onde ir, podemos voltar para a mesa de jogo, sentar com os dados e os livros e pronto. Vou continuar sem saber por onde ir – mas a aventura vai me dar um novo fôlego.

Como ele disse: “Vire-se e encare o estranho” e olha só que coisa incrível. Ali está o espelho para encararmos. Mas não é um espelho qualquer. É o espelho das mil vidas que podemos viver quando mergulhamos em um personagem.

Não, não vai ser nada tedioso. Vai ser surpreendente e você pode não saber muito bem o que vem dali. É uma construção coletiva, afinal. E as vezes, quase sempre, é preciso deixar o controle de lado para deixar funcionar.

E eu termino assim por aqui:

“Eu realmentImagem chibi de David Bowie com a maquiagem de "Alladin Sane" com asas de fada em um fundo estrelado, acenando um tchaue queria, mais do que tudo, contribuir de algum modo para a cultura em que eu vivia.”

O que é mais incrível da cultura musical do século XX/XXI e que meio que se estica por outras áreas é que a distância entre produzir cultura e usufruir dessa cultura ficou muito menor. Pense ai, o que você tem para contribuir para a comunidade do RPG? Como suas atitudes refletem na forma como outros vão aproveitar esse jogo? O que você pode fazer para apresentar esse mundinho para quem está chegando de um jeito acolhedor? O que você pode escrever, desenhar, sugerir ou acompanhar de perto para que funcione melhor? Como você pode fazer com que as coisas na sua mesa de jogo ampliem a percepção de mundo de quem está ali com você, e sua própria visão de mundo?

 

“We can beat them, just for one day

We can be heroes, just for one day”

Só por um dia, podemos ser os heróis.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.