Vamos falar sobre vampiras: “Garota Sombria Caminha pela Noite”

Não é de hoje que os vampiros ficaram cada vez mais presentes na cultura pop, inclusive eu quase diria que estamos entrando em um ponto em que, depois de muitas obras sobre vampiros, as pessoas começam a se cansar e deixam a figura de lado. Apesar disso, me sugeriram ver o filme Garota Sombria Caminha pela Noite exatamente pela temática de vampiros, então decidi dar uma olhada.

O filme, dirigido por Ana Lily Amipour, se passa no Irã, em Bad City, onde vivem vários tipos de criminosos. De um lado temos a Garota, que não possui nome no filme, e que na verdade é uma vampira que anda de skate, e do outro vemos Arash, um homem que tenta sobreviver nesse lugar e também cuidar do pai viciado em heroína. Quando eles se encontram, as coisas começam a mudar.

Garota Sombria Caminha pela Noite é bem diferente do formato de Hollywood a que estamos acostumados. É um filme com um ritmo mais devagar e em preto e branco, não espere grandes efeitos especiais ou muitos diálogos. O estilo pode afastar algumas pessoas, mas fiquei surpresa com vários dos aspectos apresentados no filme.

Sendo um filme de terror, hoje em dia esperamos o susto que vai nos fazer pular da cadeira, mas Amipour é muito mais sutil no que diz respeito assustar. Toda a atmosfera em preto e branco, com as músicas e o ritmo mais lento, substituem o grande susto e, por mais que você não saia assustado do cinema, fica o tempo todo tenso, na expectativa do que vai acontecer. Assim como os moradores de Bad City sabem que existe um perigo constante, que é a Garota perambulando por lá, a audiência também fica com a impressão de que algo vai acontecer que vai nos pegar desprevenidos.

A história é interessante não só pelo que trata, – a tal vampira incomum agindo quase como justiceira na noite -, mas também por quebrar vários padrões do terror e das histórias de vampiro. É fato que o ritmo pode chegar a incomodar em certos momentos e que os personagens poderiam ser mais envolventes, mas no contexto atual do cinema Garota Sombria que Caminha pela Noite é uma experiência diferente que vale a pena.

Dito tudo isso, quero focar exatamente no que o filme me chamou a atenção, não só no estilo diferente de terror, mas nas quebras de padrões que ocorrem e como, em certos aspectos, o filme pode ser considerado bem feminista.

Aviso de spoilers abaixo.

Histórias de vampiros são muito interessantes e amadas, há séculos vemos essas criaturas povoando inúmeros tipos de histórias de terror, e recentemente até fora desse gênero elas aparecem. As origens dos vampiros, porém, sempre foram um tanto quanto machistas. Em Drácula, apesar de ser um clássico e eu amar, é bem óbvio que a história reproduz um comportamento esperado das mulheres da época. A moça “correta”, Mina, merece o final feliz e ser salva dos vampiros; já Lucy, que tinha três pretendentes e não era tão “comportada” quanto a amiga, acabou transformada e morta.

Além disso, a maioria dos vampiros mais conhecidos e que se tornam referência no terror é formada por homens. Podemos até sair do mito dos vampiros: a maioria dos monstros predadores nas histórias de terror são homens e a maioria das suas vítimas são mulheres. Normalmente as figuras de mulheres predadoras que temos, além de serem poucas, ficam mais no âmbito do “espírito atormentado”. Pegando o exemplo da Samara de O Chamado, ela pode ser considerada uma predadora, mas é a fita que indica quem ela tem que atacar, não é a vontade do espírito em si, – há algo a mais no “controle”.

Então, é bem diferente quando vemos uma predadora que, além de ser uma mulher que escolhe suas vítimas a partir de seu próprio critério, surge na forma de um dos monstros que possui uma origem machista. Em vez do vampiro que sequestra a moça, a Garota é uma vampira que ataca homens desprezíveis que tratam mulheres como lixo – por isso, de certa forma, a vampira é uma justiceira. Atti, a prostituta, não pode revidar os abusos que sofre porque precisa do dinheiro, mas a Garota aparece mais tarde e se vinga de tudo aquilo.

Uma das cenas que mais chama a atenção no filme é, inclusive, quando a Garota encontra um menino na rua e o assusta, dizendo que vai observá-lo pela vida toda para ter certeza de que ele será um bom garoto, que não vai crescer e ser mais um homem que abusa de mulheres, porque em Bad City a Garota não deixa machistas impunes.

O romance com Arash é um ponto que não me agradou tanto, não só pela questão de ser mais uma mulher que termina em uma relação com um homem, mas também porque não via isso como tão relevante para a história da vampira. Ela é solitária e parece gostar de Arash, então poderíamos interpretar como sendo uma pessoa sozinha que finalmente encontra alguém de quem, mesmo com sua natureza vampírica, ela goste o suficiente para ficar. Mas quantas vezes não vimos mulheres “finalmente achando o homem certo”? Por outro lado, poderia ser uma forma de mostrar que não são só os vampiros e predadores homens da ficção que podem terminar com um amor ou com um final feliz.

Por mais que Amipour tenha dito em entrevistas que sua ideia nunca foi um filme com discurso feminista, muitas das mensagens estão ali. É uma experiência diferente do que estamos acostumados hoje, mas Garota Sombria que Caminha pela Noite é um filme interessante ao qual vale a pena dar uma chance.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.