Entrevista com a Netuno Press: um olhar sobre a cena de quadrinhos no Ceará

Eu já conhecia (e admirava) o trabalho individual de alguns membros da Netuno Press, mais especificamente os quadrinhos da Brendda Lima (que tá publicando uma HQ online linda com página nova todo dia) e da Débora Santos (que esteve em várias listas de melhores de 2015 com seu quadrinho Lua Cheia). Então vocês podem imaginar a minha emoção quando eu soube que elas se juntaram com outros dois autores de Fortaleza – o Talles Rodrigues e o Márcio Moreira – e montaram a Netuno Press!

Como quadrinista amazonense, eu fico super feliz de ver trabalhos de outras regiões do Brasil sendo reconhecidos e circulando pelo país inteiro. Ter contato com outros pontos de vista e com as peculiaridades e lendas urbanas de outros Estados (como a história do Cortabundas, maníaco real e bem bizarro que é retratado na HQ do Talles) enriquece demais a produção brasileira e a experiência do leitor de quadrinho nacional. Foi sobre isso que coversei com o pessoal da Netuno Press:

Antes de qualquer coisa: por que Netuno Press?

Quando estávamos formando o coletivo, nós procuramos por vários nomes legais que remetessem um pouco à identidade de Fortaleza e que fossem menos óbvios. Coisas que tivessem a ver com praia, ondas, sereias, polvos e seres do mar. Netuno é o deus romano de tudo isso. Netuno também é o nome de um planeta do nosso sistema solar que é formado em grande parte por água, além de ser uma palavra forte e perfeita pra um grupo de quadrinistas cearenses que moram no litoral.

Vocês podem falar um pouco sobre a trajetória de cada um na produção de quadrinhos antes de criarem o selo?

Brendda – Eu sou ilustradora por essência. Antes de fazer quadrinhos eu fiz moda e trabalho como colorista pra uma empresa que desenvolve jogos e quadrinhos educacionais. O primeiro impulso que eu tive pra fazer quadrinhos aconteceu quando vi a movimentação das meninas em torno da produção da Zine XXX [projeto colaborativo de 2013 organizado através do Facebook e que reuniu quadrinhos de autoras do Brasil inteiro]. Daí eu procurei aprender um pouco mais sobre a linguagem e tentei fazer algumas páginas testes, que coloquei no Vanilla Tree.

Quando conheci a Débora, no [Des]enquadradas [evento ocorrido em 21/22 de novembro de 2014 em Fortaleza, com foco na relação de consumo e produção de quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres e para mulheres], eu já vinha trabalhando no que viria a ser o Silêncio. Mas foi com ela que eu lancei meu primeiro quadrinho, o Como Sobreviver à Terra da Luz <3.

A Netuno me possibilitou um crescimento mais rápido em termos de produção e de experiência com venda de quadrinhos.

Márcio – Leio quadrinhos desde criança, mas curtia mesmo escrever fantasia e mundos de RPG. Fui crescendo e me apaixonei pelo mundo dos fanzines, escrevendo literatura, com algumas escapadas para o roteiro de audiovisual. Em 2013, publiquei minha primeira coletânea de contos, Odisseu, aí veio a dúvida: sou escritor? Decidi que era sim. Ainda em 2013 ajudei o Talles a produzir a campanha do Catarse e o livro Pânico no José Walter (agora Cortabundas, na edição da Draco). Conhecer o mundo dos produtores de quadrinhos e me sentir no meio de uma explosão da cena me fez querer experimentar. Daí escrevi meu primeiro roteiro, a história Jimmy Zero from Outer Space, publicada no fim do ano passado na coletânea Boy’s Love em Quadrinhos, da editora Draco, com desenhos do Talles. Depois disso, não parei mais. Publiquei um quadrinho com a Débora (Pombos!) e tenho projetos com Brendda e outros desenhistas de Fortaleza.

Capa de Pombos! e uma das páginas internas da HQ
Capa de Pombos! e uma das páginas internas da HQ

Débora – Desde piveta gostei de desenhar. Mas foi só quando estava na faculdade que comecei a estudar desenho pra valer, fui atrás de cursos de pintura, desenho e quadrinhos. Decidi estudar quadrinhos depois que li Sandman, aos 15, mas só fui atrás do curso no Estúdio Daniel Brandão, do qual faço parte agora, aos 17. Depois disso a vontade de trabalhar com arte só foi crescendo e comecei a fazer meus primeiros freelas como ilustradora a partir de 2011, 2012. Em 2013 resolvi voltar à faculdade pra estudar Artes Visuais e tô lá desde então. Mas foi em 2014 que eu decidi desenhar quadrinhos pra valer. Comecei publicando coisas curtas na internet, no site Tapioca Mecânica, do qual faço parte, e no meu perfil pessoal mesmo e aí do meio pro fim do ano concretizei o Pombos!, com o Márcio, o Como sobreviver à Terra da luz, com a Brendda e meus dois quadrinhos Rebuliço e Lua Cheia.

Capa de Lua Cheia e página interna da HQ
Capa de Lua Cheia e página interna da HQ

Talles – Eu sempre desenhei, e sempre fiz quadrinhos pra mim e pra mostrar pros amigos e tal. Coisa de criança. Baseado em ler muitas coisas da turma da mônica, da Disney e posteriormente mangás, que são até hoje minha grande obsessão, eu fui tentando aprender mais sobre fazer HQs e sobre desenho. EM 2006 eu fiz a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará, e depois fui fazendo mais cursos de desenho, e isso desembocou no Pânico no José Walter, quadrinho que fiz como trabalho de conclusão de curso da faculdade e meu primeiro trabalho concluído. Depois veio a parceria com o Pablo Casado pra fazer Mayara & Annabelle, e nesse meio tempo me juntei com o resto do pessoal da Netuno pra vender quadrinhos em feiras, produzir e discutir a mídia.

Capa de Mayara e Annabelle e página interna da HQ
Capa de Mayara e Annabelle e página interna da HQ

Como vocês se conheceram? Existe uma cena agitada de quadrinhos em Fortaleza?

Márcio e Talles se conheceram no Ensino Médio, mas só ficaram amigos mesmo na faculdade de Comunicação Social. Na época, Talles estava escrevendo seu TCC, o quadrinho-reportagem “Pânico no José Walter, o maníaco que seviciava mulheres”.

A Brendda e a Débora se conheceram no [Des]enquadradas – evento que propôs debater “o lugar da mulher” nos quadrinhos, em novembro de 2014. Nesse mesmo evento o Talles e o Marcio apareceram pra vender os recém lançados Pânico no José Walter e Odisseu.

Capa de Pânico no José Walter, lançado com o título de O Cortabundas pela Editora Draco, e página interna da HQ
Capa de Pânico no José Walter, lançado com o título de O Cortabundas pela Editora Draco, e página interna da HQ

Em 2015 o quadrinho cearense esteve cheio de lançamentos, muitos por causa do FIQ. Nós lançamos 5 títulos enquanto coletivo. A Dhiovana Barrosso, a Jéssica Gabrielle e a Natalia Matos lançaram zines de quadrinho maravilhosos. A Nathália Garcia e o Luís Carlos lançaram o Lola. A Dharylia e o Pedro acabaram de lançar o Relicário, que contou com campanha de crowdfunding. O Zé Wellington lançou Steampunk Ladys… O Talles, em parceria com o Pablo Casado,  lançaram o segundo volume de Mayara & Annabelle.

Dá pra acreditar que estamos num momento de ebulição e reestruturação da cena de quadrinhos, no Ceará. Além disso, existem alguns coletivos em Fortaleza e grupos que movimentam a cena local, como o nosso, o The Comics Cafe, o coletivo Arminina, que surgiu a princípio no facebook, como um eco do [Des]enquadradas, evento que a Débora ajudou a produzir ao lado de outras mulheres que amam quadrinhos, ilustração e feminismo. Também existe um estúdio de onde sai uma parte dos quadrinistas da cidade: o Estúdio Daniel Brandão, que oferece curso de quadrinhos; somado a isso temos a Oficina de Quadrinhos da UFC, de onde sai uma outra parte. São os principais lugares de formação. Recentemente, temos a Escola Porto Iracema também.
O Fórum de Quadrinhos do Ceará hoje é responsável pela manutenção da gibiteca da cidade, sediada na biblioteca municipal e organiza a programação do Dia do Quadrinho Nacional, que acontece na gibiteca mesmo.

Somado a isso, temos uma ebulição na cidade de eventos que contemplam a cultura nerd (é um bom termo pra isso?) no geral: Expresso Tapioca, SMASH, Geekontro, [DES]enquadradas e outros. São espaços de discussão de filmes, séries, quadrinhos, jogos, ilustração e lançamentos de quadrinhos (Mayara & Annabelle 2 foi lançado num SMASH) com direito a convidados do Ceará e de outros estados. E, fechando, temos os veículos de mídia especializados: sites e canais no youtube que tratam desses assuntos e que também organizam alguns desses eventos, como AvanteCast, Tapioca Mecânica, Multiversos e Sacando Primeiro. Eles também são peças importantes na cena local.

Sou de Manaus e existia uma deficiência grande em matéria de eventos ou lojas especializadas em quadrinhos lá até alguns poucos anos atrás. Existem eventos e lojas especializadas em Fortaleza? Vocês acham importante existir esse tipo de incentivo pra fomentar o interesse do público e a produção de quadrinhos?

Feiras de quadrinhos começaram a ganhar forma, em Fortaleza, há mais ou menos dois anos. Até 2014 os espaços pra divulgação de material impresso autoral era bem limitados, mas conseguimos reunir vários produtores pra feirinha que aconteceu dentro da programação do [Des]enquadradas. 2015 foi bem agitado provavelmente por dois motivos principais: a preparação pro FIQ e o crescimento de eventos com espaços pra venda de quadrinhos, os artists’ alley.

Só aqui em Fortaleza teve Geek Expo, SANA (que é voltado pro público que consome cultura pop oriental), Panorama de Quadrinhos no SEBRAE e outras feiras espalhadas pela cidade, algumas realizadas pela prefeitura, como a Feira do Estoril. Pra um ano, na nossa cidade, isso é muito; e esses eventos estão gerando outros e outros e outros, o que movimenta ainda mais a cena. Essa movimentação gerada pelas feiras é uma motivação a mais pra o pessoal produzir, lançar, fazer networking e parcerias.

Quais as vantagens de atuar como um coletivo ao invés de individualmente?

Como coletivo nós compartilhamos experiências e tentamos dividir tarefas relacionadas à producão e à logistica de divulgação e vendas. Nós fazemos várias parcerias internas e colaboramos uns com os outros, assim fica mais fácil evoluir alguns conhecimentos de forma mais rápida.  

Talles, Débora, Márcio e Brendda
Talles, Débora, Márcio e Brendda

Vários dos trabalhos dos membros da Netuno Press estão no Cosmic, que funciona como um Netflix de quadrinhos nacionais. Vocês acham que essa é uma iniciativa interessante pra artistas e leitores?

Os desenvolvedores da Cosmic valorizam bastante o trabalho de quadrinistas independentes, além de ter uma preocupação imensa com o conteúdo que eles dispõem no site (vetando conteúdo racista, misógino, homofóbico, etc.). Isso é super importante pra formação crítica dos novos leitores.

Para os produtores, ter uma plataforma que viabiliza a distribuição da sua HQ para todo o Brasil, sem custos, é um ótimo meio de se tornar conhecido.

Quais os planos da Netuno Press pra 2016?

Muita coisa vai ganhar forma e se desconstruir até que tenhamos novos títulos em mãos, mas nós queremos continuar contando nossas histórias através dos quadrinhos.

A Débora já está trabalhando em uma HQ muda; Marcio e Brendda estão desenvolvendo uma webcomic. Nós temos muita vontade de fazer um album com histórias dos 4, e produzir tanto quanto produzimos no ano passado. Esperamos ver viajar mais pra feiras em outros estados e trocar ideias com vocês, que estão lendo essa entrevista!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.